A novela global ‘‘Laços de Família’’ terminou e a personagem Camila (Carolina Dieckman), curada da doença que mexeu com os brasileiros, teve um final feliz ao lado do belo e apaixonado marido... Deixando a ficção de lado para cair na dura realidade, o drama que envolve os portadores de leucemia continua.
Embora as chances de cura da doença venham aumentando com o passar dos anos, ainda não se conhecem suas causas. Classificada em dois tipos básicos, de acordo com o tipo de glóbulos brancos afetados, a forma de desenvolvimento da doença ainda é pouco conhecida pela maioria da população.
A leucemia ainda permanece como um grande estigma junto ao público leigo, que ainda tem dificuldade em entender a forma como ela se desenvolve. Ainda não se conhece a causa provável para o desencadeamento, mas os exames que detectam a incidência da doença e sua reação ao tratamento quimioterápico são hoje bastante precisos.
Ao abordar a leucemia, surgem palavras como blastos, células hematopoiéticas, linfócitos, granulócitos, monócitos, medula óssea, enfim, um mar de termos estranhos. Para auxiliar no entendimento, a médica oncopediatra Silvia Regina Brandalise, presidente do Centro Infantil Boldrini e Coordenadora do Protocolo Nacional de Leucemia, responsável por ampliar as chances de cura de menos 5% na década de 70, para atuais 80%, define o mal como uma doença na qual a medula óssea é infiltrada por células malignas, chamadas blastos, que acabam ocupando o lugar das células hematopoiéticas normais. ‘‘Em nível biológico, ocorre uma proliferação desordenada de um determinado clone de células malignas. Esse clone inicial apresenta alterações do DNA. Algumas destas alterações permitem inferir quanto ao prognóstico do tratamento. Permitem, também, acompanhar a resposta à terapia, em nível molecular. Esta é a grande conquista do exame PCR (Protein Chain Reaction), utilizado para a detecção da Doença Residual Mínima (DRM).
‘‘A leucemia acarreta ao paciente uma inadequada produção do sangue’’, resume a médica. Ela explica que sangue é representado por plasma e elementos figurados: glóbulos brancos (cuja função é combater as infecções), glóbulos vermelhos (cuja função é parar os sangramentos quando os vasos sanguíneos são lesados. Dessa forma, o paciente apresenta riscos maiores de infecção (pela redução dos glóbulos brancos sadios), anemia (pela redução dos glóbulos vermelhos) e sufusões hemorrágicas em pele/mucosa (secundária à baixa das plaquetas). Com o progredir da doença, sem o tratamento adequado, essas células malignas saem da medula, ganham a circulação sanguínea, invadindo diferentes órgãos. Destes, os mais frequentemente acometidos são o fígado, o baço, os rins e mais raramente o Sistema Nervoso Central.
Células malignas São conhecidos basicamente dois grandes grupos de leucemia, classificados de acordo com a origem das células: a leucemia linfóide e a leucemia mielóide. Através de sofisticados exames de imunofenotipagem, é possível subclassificar cada um desses dois tipos de leucemia em vários outros subtipos que, em última análise, refletem os diferentes graus de maturação das células malignas. Quanto mais imaturas as células malignas, mais agressivas na sua manifestação. Assim, por exemplo, as leucemias linfóides que apresentam o antígeno Calla (antígeno LLA comum) na superfície dos blastos leucêmicos têm melhor prognóstico que as leucemias linfóides que ainda não expressaram este antígeno na superfície (Calla negativas).
As leucemias linfóides também se dividem em dois grandes grupos imunológicos: origem B ou origem T, sendo estas últimas mais graves. Assim, baseados na diferença da origem celular, estes dois tipos de leucemia têm tratamentos distintos. Uma outra forma de classificar as leucemias diz respeito à sua manifestação aguda ou crônica. As leucemias crônicas são mais encontradas em adultos, correspondendo a 1% ou 2% das leucemias da criança.
Tipo mais grave Silvia Brandalise destaca que o tipo mais grave das leucemias é o mielóide, no qual o tratamento precisa ser bem mais agressivo. Isso traduz mais complicações como infecções e hemorragias. As células mielóides são também mais resistentes à quimioterapia. Segundo ela, na criança, a leucemia não é igual a do adulto. ‘‘Na criança é mais do tipo linfóide (corresponde a 70% de incidência). Entretanto, mesmo a leucemia linfóide da criança se comporta diferentemente da leucemia linfóide do adulto. Quanto aos sintomas reconhecíveis, além daqueles já mencionados, se acrescem os sintomas decorrentes da pressão que estas células fazem nos órgãos acometidos, o que se traduz por dor óssea ou articular, dor abdominal, ou ainda pelo aumento do volume do abdome (secundário ao aumento do fígado ou do baço). Todos esses sintomas mencionados, isoladamente, são inespecíficos. Ocorrem numa série enorme de doenças infecciosas, mesmo nas mais simples. Será a associação de dois ou três destes sintomas que levará o médico a suspeitar da leucemia na infância.
‘‘O diagnóstico da doença na criança é feito pela história clínica, pelo exame físico, pelo hemograma e pelo mielograma. Este último é o exame decisivo para o diagnóstico. Algumas gotas de sangue obtidas da punção da medula óssea permitirão a devida análise confirmatória ou não.’’ Silvia acrescenta que em cerca de 20% a 30% dos casos de leucemia na criança, o hemograma poderá estar normal, inicialmente. ‘‘Isso é compreensível, pois traduz que a fábrica (medula óssea) não está totalmente invadida. É por isso que a história clínica associada ao hemograma poderá levantar a suspeita, indicando a realização do mielograma.’’
Cura O desenvolvimento da doença depende de uma série de fatores envolvidos com as características inerentes às células blásticas, como também da resposta ao hospedeiro (o doente) frente ao tratamento. É por isso que, atualmente, esta resposta do organismo ao tratamento tem sido analisada mais detalhadamente já nas primeiras duas semanas após o início da terapia. ‘‘O tratamento básico da leucemia é a poliquimioterapia, ou seja, vários medicamentos que destróem as células malignas por diferentes mecanismos, procurando erradicá-las o mais breve possível. Já o transplante de medula é indicado para as recidivas, e para as leucemias que apresentam alterações citogenéticas de risco e que não respondem adequadamente à terapêutica instituída.’’ observa Silvia.

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