Para crescer fortinho
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sexta-feira, 06 de fevereiro de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
A saúde, a capacidade de aprender e trabalhar direito, a forma física e até o humor estão intimamente relacionados à alimentação. O que comemos e como comemos influenciam diretamente em nossas vidas. No caso de crianças, então, a relação é mais séria ainda. Na época em que o corpo está se formando, o cérebro se desenvolvendo e as preferências se definindo, comer direito traz benefícios ou problemas que duram para sempre.
E muitas crianças estão comprometendo essa fase com alimentos impróprios para a idade delas e com hábitos que dificilmente serão abandonados quando os pequenos chegarem à fase adulta. De acordo com uma pesquisa feita no ano passado pelas Universidade Federal Paulista (Unifesp) e Universidade São Marcos, 15% das crianças brasileiras são obesas. E, segundo matéria divulgada na Revista Isto É Gente, de 18 de agosto de 2003, 80% das crianças obesas se tornam adultos obesos, com grandes chances de sofrer de pressão alta, diabetes, problemas cardíacos, colesterol e até câncer.
Culpa de quem? A nutricionista Denise Lanfranchi Zamuner diz que atualmente é fácil encontrar nas escolas crianças que estão fora do peso. ''Antes os gordinhos eram um em cada turma de 30 alunos. Hoje é possível encontrar cinco ou seis em cada turma'', afirma. E engana-se quem acredita que a culpa disso é somente das tentações encontradas nas cantinas. ''A maioria dos problemas está nas escolas, mas os pais também são grandes responsáveis''.
Os maus hábitos em casa muitas vezes começam bem cedo. Denise lembra que crianças até seis meses de idade não precisam de nada além do leite materno. ''Só quando a mãe tem problemas para amamentar é permitido o uso de leite de vaca'', afirma. A partir dos seis meses, a mãe já pode introduzir outros alimentos na dieta do bebê, como frutas, legumes e o leite de vaca. ''O ideal é fazer as tradicionais papinhas, mas evitar misturar os alimentos. A criança ainda está desenvolvendo o paladar e é importante oferecer os alimentos separados para que ela possa aprender o sabor de cada um e consiga diferenciá-los pela cor'', ensina.
A carne pode ser apresentada às crianças à partir dos sete meses de idade, desde que bem cozida e macia. O tempero também é um ponto que merece cuidado. Comida de criança, segundo a nutricionista, pode ter cebola, alho e azeite de oliva, mas pouco sal. ''Na primeira vez que a criança prova um alimento, é natural que ela recuse e cuspa a comida, porque é algo novo. Nesse caso, os pais devem insistir outras vezes, até o filho se acostumar com o sabor'', diz. Se a criança continuar recusando a comida, é possível substituí-la por outra com o mesmo valor nutricional.
Vilões Os grandes vilões até os dois anos, segundo Denise, são açúcar, refrigerante, chocolate e embutidos, como mortadela e salsicha. Na verdade, esses alimentos deveriam ser evitados sempre, mas como isso é muito difícil, pelo menos nessa fase eles devem ser retirados da alimentação, pois atrapalham na absorção de algumas vitaminas e comprometem o paladar das crianças. ''Uma criança que descobre o sabor forte desses alimentos dificilmente vai sentir prazer em comer uma maçã ou um legume, que são bem mais suaves e saudáveis'', explica.
O problema é que muitos pais têm uma alimentação errada e passam isso para os filhos. Mesmo quando eles ainda são muito pequenos, os mais velhos acreditam que a criança tem vontade de comer chocolate ou sorvete. A nutricionista afirma que isso seria impossível, uma vez que a criança não conhece a comida e não sabe que gosto ela tem. ''Tem pais que acreditam que se a criança fica olhando quando um adulto come alguma coisa é porque ela quer. Crianças são muito curiosas e olham com atenção para tudo. Se você der uma bolacha, ela vai levá-la à boca, se você der uma caneta, ela vai fazer a mesma coisa'', afirma.
Limites Respeitar a necessidade de cada criança para comer também é importante. É comum encontrarmos mães preocupadas porque os filhos não se alimentam bem, comem pouco. Denise diz que a idéia de que criança gordinha é criança saudável é um erro que deve ser esquecido. ''Hoje sabemos que criança saudável é aquela que está dentro do peso e se alimenta de forma equilibrada'', observa.
Segundo ela, é natural que crianças até os dois anos comam a cada duas ou três horas. Mas é a criança que deve determinar o quanto de comida necessita. ''Se ela recusar alguma refeição ou simplesmente não quiser comer tudo o que os pais colocarem na mamadeira ou no prato, isso não é um problema. Ela vai pedir ou chorar quando tiver fome'', ensina.
Depois de dois anos, a criança já pode comer de tudo e deve seguir o esquema de alimentação da família, com cinco ou seis refeições por dia, contendo frutas, legumes, grãos, carne e derivados de leite. Nessa fase, os pequenos começam a fazer suas próprias escolhas e, geralmente, recusam os alimentos mais saudáveis. A negociação, de acordo com Denise, é a melhor solução. ''Os pais precisam impor limites. Depois de uma certa idade, é impossível mantê-los longe das guloseimas. Mas é possível determinar que elas serão liberadas uma vez por semana ou por mês, de preferência. O que acontece é que a criança se recusa a comer o legume na hora do almoço e os pais oferecem um salgadinho ou chocolate depois. O alimento saudável deve ser trocado por outro alimento saudável'', afirma.
Brincar com os alimentos é uma boa solução para conquistar os pequenos. Transformar tomates em flores, fazer bolinhos de espinafre e levar as crianças para a cozinha, deixando-as preparar a própria comida, ajuda a aumentar o prazer de comer bem. ''A alimentação das crianças está muito relacionada à dos adultos em casa. Não dá para querer que o filho coma uma abobrinha enquanto os pais devoram um sanduíche'', argumenta. n


