''O que será que será que vive nas idéias desses amantes?'' Chico Buarque, sempre tão discreto, foi parar nas revistas de fofoca, depois de ser ''flagrado'' aos beijos com Celina na praia. Fosse Renata Maria, a moça da outra canção, tudo bem. Mas era Celina, uma mulher casada neste ponto reside toda polêmica. E o ocorrido (o adultério) deflagra dois fenômenos fundamentais: Chico, aos 60 anos, continua irresistível; e a infidelidade, milenar como a monogamia, também.
Publicadas as fotos, a designer Celina Sjostedt, casada com o produtor musical Ricardo Duna Sjostedt, com quem tem dois filhos adolescentes, fez uma breve declaração no blog de um amigo, o colunista Antônio Carlos Miguel: ''Nós, Celina e Ricardo, apesar de sermos casados e morarmos sob o mesmo teto, temos nossas vidas pessoais independentes''. O que será que ela quis dizer com ''vidas pessoais independentes''? Celina deu a entender que seu casamento é aberto. Ou, ao menos, que os cônjuges preservam um do outro certas intimidades.
Tema não é inédito O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre e a escritora feminista Simone de Beauvoir viveram um casamento liberal que durou 50 anos. Na década de 70, o cantor e compositor Raul Seixas também havia dito em ''A Maçã'' que ''o amor a dois profana o amor de todos os mortais''.
Para a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora de ''A Cama na Varanda Arejando Nossas Idéias a Respeito de Amor e Sexo'' (Rocco, 338 páginas), há uma gradativa tendência, desde o surgimento da pílula nos anos 60, de os relacionamentos amorosos se tornarem cada vez mais flexíveis. Diz o senso comum que quem ama não tem olhos para outra pessoa. ''Isso só vale para o começo da relação, quando as pessoas estão muito apaixonadas'', afirma Regina. ''Mas essa fase passa.''
Ciúme aprendido A exclusividade no amor é, como explica a especialista, um condicionamento cultural: quer dizer, ficar só com uma pessoa não é uma característica da natureza humana, mas um comportamento aprendido no correr das gerações. E, neste campo, o da cultura, os aprendizados podem ser transformados, adaptados, substituídos. Quem hoje está chegando aos 20, a geração que inventou o ''ficar'' ou ao menos assimilou de vez este ''legado'' da revolução sexual , parece ter tudo a ver com essa flexibilidade.
A atriz Maíra, 19 anos, teve sua primeira relação libertária aos 15. ''É uma postura de vida'', afirma, em tom definitivo. A primeira experiência durou seis meses e foi ''muito boa''. Numa relação seguinte, o namorado fazia questão de exclusividade. ''Eu topei porque estava muito apaixonada, mas disse ao rapaz que ele poderia ficar com outras pessoas sempre que quisesse.''
O namorado, veja só, não gostou da liberdade. ''Se fosse uma relação aberta, tenho certeza de que teria durado mais'', aposta ela. Maíra está agora no terceiro namoro. Desta vez, aberto, como prefere. E ela parece tão bem que tem até inspirado amigos, como o fotógrafo Luiz Felipe, 19.
Ele namora há um ano a estudante Bia, 17 anos. ''No começo, confesso que senti um pouco de ciúme tinha medo de que ela encontrasse alguém mais interessante.'' Mas a insegurança passou. ''Esse sistema funciona conosco'', afirma a garota. ''É gostoso ficar com outras pessoas só pelo momento, sem encanações nem joguinhos'', destaca o namorado.
Nas relações abertas, não se segue a inércia das convenções e cada casal formula suas próprias regras. Bia e Luiz não têm de contar um ao outro sobre seus casinhos eventuais. Conta quem quiser, se o assunto surgir. Regina Navarro Lins afirma que é mesmo melhor assim. ''A sexualidade de cada um só diz respeito a si próprio relacionamento não é confessionário.''
Para Bia, a verdadeira fidelidade é a que se tem consigo mesmo. Luiz concorda: ''Amor não pode ser empecilho para a liberdade''. Isso dá o que pensar... Seria a monogamia uma forma de repressão sexual? Outra questão é: ela funciona? De acordo com o Projeto Sexualidade da USP, a maior pesquisa já feita sobre o comportamento sexual do brasileiro, as mulheres casadas têm em média 1,14 parceiro sexual por ano e os homens, 1,96 parceira. Mais que um para elas; quase duas para eles. A fidelidade parece uma questão de casas decimais... O que dizia mesmo a música de Chico? Ah, sim: que o desejo não tem governo nem nunca terá.

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