Pais avestruzes, adolescentes-problema
Pais avestruzes,
adolescentes-problema
Os pais não devem abdicar de seus papéis, deixando de comunicar-se com os filhos ou evitando impor regras e limites
Roldão Arruda
Agência Estado
ReproduçãoA professora Ana Luisa Vieira de Mattos, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), pesquisa há quase dez anos a adolescência. Dedica-se principalmente a ouvir os jovens. É um esforço para compreendê-los e verificar a origem de problemas de comportamento, como o uso de drogas, a deliquência, as crises de depressão. Sua tese de doutorado, apresentada em 1989, tratava dos valores, atitudes e expectativas de um grupo de adolescentes.
Hoje, a caminho da livre-docência, a professora estuda o impacto da separação dos pais sobre os filhos. Uma de suas conclusões é a de que a separação em si não causa problemas. Eles surgem na maior parte das vezes em decorrência da ausência dos pais, fato que se verifica tanto entre casais separados quanto nas famílias que se mantêm intactas. É preocupante, na opinião da educadora, a maneira como os pais abdicam de seus papéis, deixando de comunicar-se com os filhos ou evitando impor regras e limites. Isto, na opinião dela, pode estar produzindo uma geração desnorteada.
Aos 54 anos, Ana Luisa trabalha com um grupo de 37 adolescentes. Ela teve dois filhos. Um acaba de completar 27 anos. O outro, que teria 28, morreu em decorrência de um acidente de moto há 11 anos. Em entrevista à Agência Estado, a professora fala sobre diálogo, autoridade, negligência e tensão nas relações familiares.
AENum texto publicado numa revista acadêmica, a senhora senhora fez críticas severas aos pais. Não acha que foi excessivamente rigorosa?
Ana Luisa - Trata-se de uma tentativa de alertar pais que, talvez sem perceber, adotam uma política de avestruz. Procuram não enxergar, e muitas vezes não enxergam mesmo, problemas que estão diante dos seus olhos. Não se pode esquecer que é na família, não importa qual seja a sua forma, que o ser humano se desenvolve e se delineiam as características sociais, éticas e morais do futuro adulto. Por isso, quando surgem problemas com os filhos, recomendo que as causas sejam, em primeiro lugar, procuradas no lar. Esta atitude permite olhar para si mesmo e a definir maneiras de ajudar o filho.
AE Há mesmo uma relação tão estreita entre ausência dos
pais e problemas de comportamento, como o uso de drogas e a deliquência?
Ana LuisaO meu trabalho e outras pesquisas recentes, de
maior amplitude, mostram que sim. Quero deixar claro, porém, que ausência não é sinônimo de divórcio. As separações em si não geram problemas, mas sim a forma como se dão.
AEQuando a separação representa risco para o filho?
Ana LuisaCreio que o maior risco de uma separação é o de pais e mães pensarem que também se divorciaram da paternidade e da maternidade. Pais não são pais por alguns momentos. São para sempre. Os pais precisam ter consciência de que sua presença é mais importante do que jamais foi e que sua ação deve impregnar a vida dos filhos.
AEFilhos de pais separados são mais problemáticos?
Ana LuisaSe olharmos a nossa volta, veremos que tanto entre filhos de pais divorciados quanto de famílias que chamamos de intactas existem jovens perfeitamente adaptados aos padrões sociais. Não importa a forma da Os jovens não
aceitam pais que
amontoam regras
e dão maus exemplos
família, mas a qualidade do relacionamento. Em meus estudos observei que os jovens que apresentavam problemas de comportamento provinham quase sempre de famílias onde havia fraca supervisão dos pais, falta de regras, de comunicação, negligência, indiferença ou apatia.
AESeparações costumam ser marcadas por hostilidades. Há casos em que o diálogo entre ex-parceiros se torna impossível e um deles assume sozinho a responsabilidade de educar o filho. Como vê isso?
Ana LuisaDa mesma forma que um filho não é gerado só por um dos pais, não deve ser educado só por um. Se existem barreiras, o casal que se separou deve tratar de resolvê-las.
AENas relações com um adolescente, como é possível conciliar diálogo e autoridade?
Ana LuisaDiálogo e autoridade não são excludentes. Pais democráticos, com autoridade, dão valor tanto à autonomia do filho como ao comportamento disciplinado. Encorajam diálogos e troca de idéias e quando exercem a autoridade, sob a forma de exigências ou proibições, explicam suas razões. Tais esforços são particularmente importantes no caso dos adolescentes, que estão se aproximando da maturidade cognitiva e social e, em breve, precisarão assumir a responsabilidade por suas próprias vidas. Nunca é demais lembrar que educar implica sempre, em maior ou menor grau, na necessidade de dizer não. Os filhos tendem sempre a testar os limites dos pais, supondo que estão ali não apenas como provedores materiais, mas também como orientadores sobre o certo e o errado.
AENa busca do diálogo, há pais que sentem-se constrangidos de impor proibições. O que acha disso?
Ana LuisaSer democrático não significa deixar o filho fazer o que bem entender. Os pais têm o direito e o dever de ajudar os filhos e isso pode implicar em controle, restrições.
AEEntre os adolescentes com os quais a senhora conversou havia desencanto com o diálogo. Há situações em que ele se torna impossível?
Ana LuisaQuando um diálogo é interrompido, torna-se difícil determinar se existe um ponto crítico a partir do qual não há volta. Minha experiência, como mãe, educadora e pesquisadora diz que nunca é tarde para tentar. A iniciativa tem que partir daquele que rompeu ou nunca dialogou. Em nosso caso estamos falando dos pais e para eles o melhor caminho para o reinício é o do amor, do equilíbrio e do bom senso.
AEOs adolescentes também reclamam da falta de autenticidade dos pais. Por que?
Ana LuisaDa mesma forma que deseja ser ele mesmo, autêntico, sem compromissos, sem arestas, o adolescente quer que os outros sejam eles mesmos, sem jogo duplo. Os jovens não aceitam pais que amontoam regras e imperativos mas vivem como querem. Eles desejam ser tratados com justiça e querem que haja coerência entre o dizer e o ser.
AENão ficou mais difícil ser pai numa época em que os valores éticos parecem menos definidos do que no passado?
Ana LuisaCreio que a questão se resume a uma pergunta simples: que tipo de homens pretendemos criar? Sei que estamos vivendo numa sociedade que caminha cada vez mais para o individualismo, atravessando uma profunda crise de valores. Mas os adultos não podem se furtar a ensinar a convivência, a cooperação, a solidariedade, o respeito mútuo. Se me perguntam como fazer isso, digo que não existe nenhuma didática especial. O aprendizado se dá através da forma como o adulto se comporta, pelo seu exemplo.
AEO episódio ocorrido em Brasília, no qual cinco jovens atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos, pode ser visto como um dos sinais da crise de valores?
Ana LuisaMuitas razões e motivos já foram levantados nessa discussão. Não seria interessante pensar também nos efeitos da implosão da família, no saldo de uma educação não traumatizante, na despersonalização da culpa, no anonimato da responsabilidade e na frivolidade da mídia que se empenha cada vez mais em apagar quaisquer vestígios de valores objetivos? Não seria bom refletir também sobre a crise de autoridade, que vem produzindo uma geração desnorteada, desfibrada, incapacitada para o exercício da cidadania?
AEO que pode ser pior para uma criança ou adolescente: pais que não se suportam e continuam juntos, ou pais que se separam mas dialogam?
Ana LuisaUm casal, como tudo o que é humano, está subordinado ao tempo, vive sua aventura como uma história. Assim, se num casamento a situação chega a um ponto em que o nós não existe mais, não há razão para que o casal continue uma vida que se deteriora a cada momento. Se chegarem a este ponto, os pais podem e devem se separar, podendo viver felizes com ou sem novas uniões, pois o fim de uma relação não é uma tragédia insolúvel. Se a separação ocorrer de forma civilizada, quando os cônjuges ainda não chegaram ao ponto em que um não pode sequer ver o outro, certamente restará o amor no seu sentido mais amplo, isto é, a solidariedade e o respeito à dignidade de cada um. Os filhos só ganham com isso.
AEO que a levou a pesquisar a adolescência?
Ana LuisaQuando meu filho morreu, quem me deu o apoio necessário para que conseguisse me reerguer foram os amigos dele. Mostraram uma solidariedade comovente. Na ocasião, embora eu já tratasse desse assunto em minhas aulas na USP, constatei que sabia pouco a respeito dos adolescentes. Foi aí que aprofundei meus estudos, na tentativa de conhecê-los melhor.





