Rosângela Vale
Alegria, responsabilidade, amadurecimento. Estes ‘‘brindes’’ que acompanham a chegada de um filho transformam a rotina, impõem novas regras de comportamento e dão a dimensão quase exata da experiência de tornar-se pai. Quase. Porque só o dia-a-dia, com seus inesperados desafios e constantes sustos, pode traduzir o verdadeiro significado da paternidade.
O promotor de vendas Marcelo Clivati, 25 anos, enfrentou a primeira situação inusitada de sua ‘‘carreira’’ de pai ao descobrir que a filha Marcelli, hoje com 6 meses, estava a caminho. ‘‘Planejava comprar casa, ter uma estrutrura pronta antes de formar uma família, mas desde que soube que o exame de gravidez tinha dado resultado positivo foi só alegria’’, conta. É claro que entre uma e outra gracinha de Marcelli sempre houve imprevistos, coisas fora do controle. Nada que hoje não seja rapidamente solucionado. Mas no começo...
Acordar aos pulos de madrugada com choro estridente da filha foi só uma das facetas da nova rotina. ‘‘O choro dela não é normal. É de assustar, nem parece que vem de uma criatura tão pequena’’, observa. A primeira vez que se deparou com a ingrata missão de trocar fraldas foi traumática. ‘‘Tinha nojo de coco de criança. Achei que nunca ia ter que fazer isso’’, lembra. Muito do que viveu nesse curto período de paternidade, realmente, nem passava pela cabeça de Marcelo.
Ele não imaginava, por exemplo, que teria que redobrar suas tarefas de pai logo após o nascimento da filha porque a esposa, Gabriela, teve depressão pós- parto. ‘‘Meus seios racharam e eu não conseguia amamentar. A nenê chorava de fome e eu de dor’’, conta ela. Apesar de estar cercado por parentes, Marcelo acabou se sentindo perdido. ‘‘Não tinha nenhum treinamento para a situação’’, salienta.
Se estar preparado para momentos como esses é difícil, o que fazer diante do iminente nascimento da filha, sem tempo para chegar ao hospital e sem médico por perto? O instrutor de musculação e personal trainer Gabriel Miranda, 26 anos, não pensou duas vezes. Arregaçou as mangas e viu nascer, pelas suas mãos, a filha Isabela, hoje com 5 meses.
Ele lembra com orgulho e um sorriso nos lábios daquela tarde na casa da sogra. A esposa, Patrícia, tinha contrações a cada 40 minutos, e pelas instruções de seu obstetra, o parto só aconteceria no início da noite. ‘‘Como era meu terceiro filho, não estava tão ansioso’’, recorda-se Gabriel. O combinado era que assim que a mãe de Patrícia chegasse, às 19 horas, iriam todos para o hospital. ‘‘Mas as contrações aumentaram e resolvi levá-la. Na hora em que a gente estava saindo, ela deu um grito de dor e disse: ‘Me põe no chão que vai nascer’. Aí eu já vi a cabeça do bebê saindo’’, relata ele, que contou com instruções médicas - por telefone - apenas para cortar o cordão umbilical e tirar a placenta. O parto, feito no chão da sala, não demorou mais do que 15 minutos.
‘‘Não me desesperei e nem pensei em nada. Não dava para fugir da situação, fiz o que tinha que ser feito. Foi Deus quem me guiou porque poderia acontecer um monte de problemas, mas deu tudo certo’’, avalia Gabriel, que nunca tinha assistido a um parto ao vivo, apenas na televisão. Com a experiência ele aprendeu, de forma mais do que convincente, que imprevistos sempre farão parte de seu papel de pai. Mas, para ele, nenhuma outra ‘‘função’’ é mais gratificante. ‘‘Quando chego em casa e as crianças me abraçam e me chamam de pai, todos os problemas desaparecem’’, derrete-se. ‘‘Ser pai é bom demais. Eu recomendo’’, reforça Marcelo.Surpresas, sustos e imprevistos recheiam o dia-a-dia e dão pleno sentido à paternidade
Daniel ProcópioMarcelo com a filha, Marcelli: redobrando as tarefas de pai por causa da depressão pós-parto da esposaRodrigo RafaelGabriel entre os filhos, Lucas, Ana Beatriz e a pequena Isabela, que nasceu pelas suas mãos

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