A gravidez entre adolescentes é um assunto que chama a atenção das autoridades sanitárias, dos grupos feministas e dos meios de comunicação. O ministro José Serra já chegou a falar em ''epidemia'' de gestações na adolescência. Por todo o País discute-se cada vez mais como orientar as meninas.
Não há o mesmo interesse, porém, em relação aos garotos, os pais dos bebês. É como se as concepções fossem obra exclusiva das garotas. Poucos lembram que para cada uma das 780 mil mulheres de 15 a 19 anos que engravidam anualmente, existe um outro tanto de homens chegando à paternidade. O mesmo se pode dizer em relação às 37 mil meninas de 10 a 14 anos que também dão à luz todo ano.
Esse cenário, porém, começa a mudar. Um indicador disso é o projeto Paternidade na Adolescência, desenvolvido pelo Programa Papai, ONG de Recife que atua desde 1997, mas que só agora vê seu trabalho reconhecido.
Bem-sucedido Recentemente, o diretor da organização, o psicólogo Jorge Lyra, recebeu o Prêmio Montreaux, oferecido pela Associação Internacional para a Saúde do Adolescente a projetos bem-sucedidos na área de adolescência.
Os agentes do Papai procuram os rapazes nas salas de espera do serviço de saúde do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPe), que é parceira no projeto. ''Há um pequeno número de adolescentes que acompanham as meninas no pré-natal ou aparecem mais tarde, para a visita ao pediatra'', conta Lyra. ''Ficamos à espera e os convidamos para uma primeira palestra.''
O programa já atendeu cerca de 200 adolescentes. Pelas observações de Lyra, os garotos não estão acostumados a pensar neles mesmos como corpo reprodutivo. ''Embora os homens possam reproduzir durante todo o tempo, em contraste com as mulheres, limitadas a ciclos de fertilidade, eles tendem a atribuir toda a responsabilidade da reprodução a elas.''
Afastamento Diante da notícia da gravidez, a atitude mais comum entre os rapazes é o afastamento. Isso foi constatado também por uma pesquisa feita na Casa do Adolescente, vinculada à Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e que desenvolve um programa semelhante ao de Recife. A pesquisa abrangeu 180 casos de gravidez entre mulheres de 15 a 18 anos, com pais entre 17 e 25 anos. De acordo com um dos coordenadores do programa, o psicólogo Élcio Nogueira Santos, em 90% das situações foi a família da mulher que assumiu a responsabilidade pela criança.
''Casos de adolescentes e jovens que assumem a paternidade ao lado da mãe são raros'', diz Santos. ''Frequentemente se sentem roubados, como se estivessem tentando privá-los de prazeres, de sua juventude.''
Vínculos Essa atitude nem sempre é tranquila. Costuma ser seguida de sentimentos de inadequação. ''Muitos acham que por causa da ausência do pai, os filhos serão problemáticos e sentem culpa'', diz Lyra. Entre os que decidem assumir a paternidade, a primeira preocupação é conseguir trabalho, de acordo com a idéia de que o papel do homem na família é o de provedor.
Nas reuniões em Recife, os agentes do Papai procuram dar novos significados a essas situações, mostrar que as coisas podem ser diferentes. Nas conversas em grupo, os adolescentes e jovens descobrem que, embora afastados da menina grávida, continuam pais. E que é possível estabelecer vínculos afetivos com os filhos, além de prover.
''Não temos uma cartilha que ensine a ser bom pai'', explica Lyra. ''Estimulamos os meninos a falarem mais de sua vida, de seus temores, a ir além das conversas sobre futebol e sacanagem. Aos poucos, cada um vai descobrindo o melhor jeito de lidar com a responsabilidade. Para muitos, é nesse bate-papo que cai a ficha e eles descobrem que vão ser pais.''
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