Pagando pra ver
Professora da UEL realiza pesquisa inédita sobre a tevê paga e traça um perfil do assinante londrinense
Celso Mattos

Foto: Paulo Wolfgang‘‘A tevê por assinatura nos dá a possibilidade de acesso a diferentes visões de mundo’’, diz a professora Neusa AmaralEm uma época em que a globalização é a palavra de ordem, estar sintonizado com tudo o que acontece no mundo se tornou fundamental. Principalmente para aqueles que não abrem mão de informações atualizadas e de um entretenimento de qualidade. A televisão sempre foi apontada como a principal opção de lazer da população. Um lazer que estava reduzido a meia dúzia de canais, o que obrigava o telespectador a se contentar com uma programação pouco diversificada. Em parte, o tédio provocado pela mesmice foi solucionado pelo videocassete que trouxe a oportunidade de se livrar, pelo menos por algumas horas, da avalanche de novelas e programas humorísticos.
No entanto, a carta de alforria só veio no início desta década com a implantação das tevês por assinatura. A oportunidade de ter um aparelho de televisão sintonizado com o mundo através de 39 canais, abriu horizontes e colocou o telespectador em contato com uma programação de Primeiro Mundo. Porém, este ainda é um privilégio a que poucas pessoas estão tendo acesso. ‘‘Em um país de 150 milhões de habitantes, apenas cerca de dois milhões são assinantes de tevê a cabo. Ou seja, pouco mais de 10% da população’’, informa Neusa Maria Amaral, professora de telejornalismo e vídeo da Universidade Estadual de Londrina (UEL). No ano passado, ela defendeu no Instituto Metodista de São Bernado do Campo (SP), a primeira dissertação de mestrado sobre televisão por assinatura no Brasil.
‘‘Atualmente, existem três tipos de tecnologias distribuidoras de sinais que são a via satélite, a cabo e o MMDS, que trabalha com microondas. No entanto, o sistema a cabo é o mais difundido’’, explica ela. ‘‘Em termos de Brasil, dois grandes grupos polarizam a tevê por assinatura: as Organizações Globo, com a Globosat, e a Editora Abril, com a TVA, ambas associadas a dois grupos estrangeiros - a Globo é ligada à News Corporation, a Abril, ao Chase Manhattan Bank e à Falcom Cable’’. Segundo Neusa Amaral, o sistema a cabo é monopolizado quase que inteiramente pela Net Brasil (Organizações Globo) associada ao Multicanal e ao Grupo RBS. ‘‘A maioria das empresas que opera a cabo pertence a esses grupos, ou é afiliada. Recentemente, a Abril também começou a obter participação em empresas a cabo’’, acrescenta.
Em Londrina Além da parte descritiva sobre o funcionamento da televisão por assinatura no Brasil, a professora realizou uma pesquisa com 400 assinantes da Net Londrina, a fim de traçar um perfil destas pessoas. Ela ressalta que Londrina foi uma das primeiras cidades brasileiras a contar com tevê por assinatura. A pesquisa mostrou que o londrinense que paga para ver TV tem em média de 31 a 40 anos, possui nível superior e 52,4% dos entrevistados possuem renda familiar entre dez a 30 salários mínimos. ‘‘Mesmo com o ingresso da classe C depois do Plano Real, as classes A e B são predominantes entre os assinantes’’, conclui a professora.
A pesquisa apontou ainda que mesmo entre a ‘‘elite’’, a televisão é o principal meio de lazer. ‘‘Isso comprova outro dado obtido: o motivo que levou as pessoas a aderir à tevê paga foi a busca por uma programação diversificada. No entanto, em termos de audiência, a Rede Globo ficou em segundo lugar. Ou seja, mesmo com mais de 30 canais a sua disposição, o brasileiro não perdeu o hábito de sintonizar as ondas convencionais do Jardim Botânico do Rio de Janeiro’’. Além da Globo, os canais mais assistidos são a Cultura, o Telecine e a HBO. ‘‘Isso demonstra que as pessoas deixaram de lado as notícias, as novelas e os programas humorísticos e






passaram a assistir mais filmes e documentários’’.
Perfil A professora Neusa Amaral observa que, de acordo com a pesquisa, o cidadão que assina a TV paga gosta de consumir produtos importados que vão desde bens eletrônicos a padrões de comportamento. ‘‘É um telespectador exigente, que prefere programas em língua e som originais. Constatamos também que, após se tornarem assinantes, as pessoas passaram a ficar mais em casa, além de permanecerem mais horas em frente à televisão’’. Em termos gerais, 46,6% dos londrinenses pesquisados consideraram a tevê paga ótima e 38,5% como boa. ‘‘O cruzamento desses dados revelou um dado interessante. A TV paga é considerada melhor entre os assinantes mais antigos’’, diz a professora, acrescentando que 75% dos entrevistados gostariam que houvesse mais canais disponíveis. ‘‘Vale lembrar que a tevê por assinatura nos Estados Unidos dispõe de 150 canais’’.
De acordo com a professora, apesar de a tevê por assinatura no Brasil não ser perfeita em termos de políticas de comunicação e de tecnologia, é ela que hoje nos abre a possibilidade de ter acesso a diferentes visões de mundo. Mostra, enfim, que existe vida inteligente além do muros da Rede Globo. ‘‘Independentemente das críticas que podem e devem ser feitas aos inúmeros aspectos da TV paga, uma questão relevante precisa ser ressaltada: a TV por assinatura, com seus canais multinacionais, sua diversidade de programação e seu alcance tecnológico faz com que a televisão mude seu próprio conceito. Nunca estivemos tão próximos de acontecimentos tão distantes, nunca a mídia televisa chegou tão perto de seu próprio significado: televisão = visão à distância’’, afirma a professora Neusa Amaral.

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