Overdose de emoções
Natal é tempo de balanço geral. Tudo o que fomos e deixamos de ser. Tudo o que realizamos e deixamos de realizar
Foto: Carmen Kley, modelo: Gisele Cancini (CDI Models)Apesar do clima de esperança e de confraternização, há uma ponta de tristeza em quase todos os adultosMalcolm Montgomery
De São Paulo
É Natal, fim de ano, época de balanço e overdose de emoções. Vulnerabilidade emocional, turbulências interiores, alegrias e agonias, tudo empacotado em poucos dias. Numa visão mais cruel, poderíamos até dizer que o Natal é uma época de crianças alegres cercadas por adultos tristes.
Sem exagerar, podemos observar que, apesar do clima de festa, de esperança, de confraternização, há uma ponta de tristeza em quase todos os adultos.
Para as crianças, a alegria é motivada pelas férias, pelo sol, o verão e as praias. É tempo de ganhar presentes e, acima de tudo, da presença dos pais muito frequentemente ausentes. Em nós, adultos, nasce uma preguiça enorme. Sinal de exaustão, desejo de recolhimento e possibilidade de viver alguns prazeres tão esquecidos em tempo de muito trabalho.
O Natal faz emergir a criança que nunca vai embora de nosso coração.
O Natal personaliza a criança que ainda existe dentro de nós. Também nos traz a oportunidade de descanso, para encontros, anistias e perdões. A esponja da solidariedade leva mágoas e rancores acumulados e encardidos. É o espírito natalino. Um cessar fogo, um armistício e uma esperança de recomeço e de encontros
Mas, então, se o Natal é tudo isso, por que aparece um sentimento de tristeza em quase todos nós? Tudo isso enternece e comove corações. E não vamos esquecer que tudo acontece durante a noite, período em que estamos mais sensibilizados a grandes emoções. É a hora de o lobo uivar sua solidão.
O Natal é tempo de balanço da qualidade dos vínculos que estabelecemos com aqueles que nos são mais próximos. É tempo de avaliação do amor que damos e recebemos. É festa essencialmente familiar. E o primeiro ranço natalino é o fato de evocar a lembrança daquela infância querida, que os anos não trazem mais. Ou, ao contrário, também pode evocar a infância que se quis ter e que não se teve, as dores de um passado familiar que nem sempre foi tão doce.
Nosso casamento e nosso relacionamento com os filhos serão tão bons quanto gostaríamos que fossem? E então vem a tristeza ou a saudade de uma vida de afeição, romances e poesia que sonhamos ter e não conseguimos realizar. Aquele que deixou de ser sem nunca ter sido, e as pessoas e amores queridos que nos deixaram.
Por acentuar poderosamente o vínculo familiar, o Natal pode nos trazer um efeito interessante. A sensação de perda dos vínculos mundanos. Magicamente, nossa vida fica restrita à vida familiar. É como se o mundo de fora ficasse proibido.
Sensação de claustrofobia e um pouco de falta de ar pelas obrigações (até de presentear). Por ser uma festa santificada, o Natal desqualifica a sexualidade; pois esta, ao induzir tentações, é desestabilizadora. Assim, o Natal é uma festa antiafrodisíaca. Papai Noel é assexuado. E, assim, se sublimamos o genital, vamos usar o oral. E haja comilança. Já a passagem do ano cumpre um ritual diferente. É uma festa híbrida e ambivalente. Mistura de Natal e Carnaval, família e erotismo. Seu roteiro festeja mais a disponibilidade e a sensualidade. E o mundo mundano volta à cena.
E aqui teremos um balanço diferente do Natal. É um balanço geral. Tudo o que fomos e deixamos de ser. Tudo o que realizamos e deixamos de realizar. Passagem de ano é época de confraternização universal. O rico, o pobre, o branco, o negro, o amarelo e o vermelho. Evoca a qualidade da nossa relação com o mundo. E neste ano que passou ainda sentimos nossa democracia tão complicada e nossa economia tão provisória. Mas o Brasil é um adolescente que vai chegar lá.
Aqui ainda tão caros os gêneros, mas ainda tão barato o amor. A alma do brasileiro é a crença e a alegria de viver. Somos esperançosos e irresponsáveis.
Sou um pisciano de fé. Acredito na vida vivida, no amor, nos amigos, no trabalho. E, plagiando o poeta, confio nas mulheres em geral e na minha em particular.
Por essa disponibilidade e por essa imensa piedade do sofrimento e da dor. Pela valorização de pequenos nadas. Pela fidelidade à mulher e a seu tormento. Pela voracidade de conhecimento e pela capacidade de compreensão. Pelo diálogo cotidiano com a vida e com a morte
Valorizem-se. Se queiram bem. Não se descuidem. Comprem algumas varas, anzóis e molinetes e sentem-se para pescar. Banhem-se em rios de água corrente e andem nas montanhas. Chorem diante da beleza. Observem alguns pássaros e corram atrás de algumas bolas. Empinem pipas com seus filhos e dancem rock com suas filhas.
Paralisem-se diante do pôr-do-sol e sintam o perfume dos eucaliptos. Respirem cinco vezes por dia o ar da serra. De vez em quando façam um check-up. Amem amigos meus.
A receita do poeta Vinícius de Moraes diz: Amém em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado do amor. Porque nada melhor para a saúde do que um amor correspondido, seja ele o amor ao trabalho, o amor de uma mulher ou o amor filial.
* Malcolm Montgomery é ginecologista e escritor, autor dos livros O Novo Pai e Mulher o Negro do Mundo; foi um dos colaboradores da equipe de roteiristas da série Mulher, da Rede Globo.





