O vento nas folhas das árvores, o barulho de pisar em uma poça de água, um pássaro cantando, uma criança rindo. Sons que a maioria das pessoas não dá muito valor, mas que são infinitamente belos para quem nunca teve a oportunidade de ouvi-los.
Foi assim para a modelo brasileira Brenda Costa, que nasceu surda e realizou uma operação de implante coclear, conhecido como ouvido biônico, há cerca de nove meses. Desde então, ela vem aprendendo a ouvir e, consequentemente, falar. ''Sou como um bebê. Escuto tudo, mas preciso entender o que é cada som. A primeira coisa que ouvi em minha vida foi o silêncio. Chorei muito'', contou a modelo para a revista Caras.
A cirurgia que corrigiu a deficiência de Brenda já está disponível em Curitiba e chega agora a Londrina. ''Inicialmente estamos fazendo a avaliação dos pacientes que podem se submeter ao implante. São necessários vários exames e existem muitos itens para a indicação. Podem ser necessários três meses até que a cirurgia seja autorizada'', lembra o otorrinologista Orley Ferraz.
O principal cuidado é ter a certeza que a causa da surdez está na cóclea (órgão do sistema auditivo que transforma a energia mecânica das ondas sonoras em estímulos elétricos enviados para o cérebro) e que ela tenha sua função completamente comprometida. ''O implante é feito com um feixe de eletrodos inserido na cóclea, o que elimina completamente a utilidade natural do órgão. Caso a cóclea funcione, ainda que pouco, o ideal é mantê-la e tentar outros tratamentos. O ouvido biônico é para casos de surdez profunda'', explica.
Os outros tratamentos a que o especialista se refere são os aparelhos auditivos convencionais do mercado. ''Para quem possui um pouco de audição, eles são muito bons. É preciso lembrar que os resultados são muito diferentes para cada tratamento. Com o aparelho tradicional, o indivíduo ouve os sons perfeitamente. Já no implante coclear os estímulos elétricos não possuem a mesma qualidade do som natural. Por isso, ele deve ser indicado com cautela'', alerta.
A cirurgia para o implante é relativamente simples. O médico insere o feixe de eletrodos na cóclea por um pequeno orifício feito no ouvido interno. O feixe é ligado a um receptor e a uma antena colocados sob a pele, na parte de trás da orelha. ''Esse receptor tem um imã para segurar o componente externo, composto por um microfone que capta o som e o envia para o receptor. A parte externa pode ser a retroauricular (pendurada atrás da orelha) ou de caixinha (que pode ser levada no bolso)'', diz Orley.
O pós-operatário é rápido e o paciente é liberado no dia seguinte. Depois de 30 dias, quando a cicatrização se completa, o médico afirma que é necessário ativar os eletrodos por um programa de computador e iniciar a segunda parte do tratamento com um fonoaudiólogo. ''Essa fase é muito importante porque com ela o paciente vai realmente começar a ouvir'', garante.
Aprender a ouvir- ''A pessoa ouve mas não sabe o que é um som. Precismos trabalhar a atenção sonora, presença e ausência de som, graduar os sons graves e agudos nos eletrodos para que a audição fique confortável. Para pacientes que já tiveram audição, e mantiveram a memória auditiva, esse trabalho é mais fácil. Para quem nunca escutou, o resultado demora mais. Fazer o implante bem cedo também ajuda. A partir de um ano de idade a cirurgia já é autorizada. Uma criança precisa de três a quatro anos de terapia para receber alta'', diz a fonoaudióloga Michelle Furlaneto.
Mas tanto trabalho, segundo ela, vale a pena. ''É muito bonito ver a pessoa ouvindo pela primeira vez. Os bebês ficam paralizados quando o implante começa a funcionar e os adultos ficam maravilhados ao descobrir que coisas bobas, como fritar um bife, dar descarga no banheiro, emitem barulhos diferentes'', comenta. ''Nem sempre o paciente vai ter a audição tão perfeita como as pessoas que não têm esse problema, mas teve um paciente que ficou superfeliz porque já conseguiu identificar a diferença entre o latido de sua cadela e o do cahorro do vizinho'', completa o médico.
O problema é que o tratamento ainda está fora do alcance de muita gente e não é coberto pelos planos de saúde. O preço dos aparelhos (são vários modelos) para o implante - oscila entre R$ 43 mil a R$ 63 mil. Serviço: fone (43) 3324-2856.

mockup