Os números da hanseníase
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de julho de 2002
Da Redação 
Tem mais: um novo caso de hanseníase é registrado no Brasil a cada 12 minutos; é o segundo país com mais casos de hanseníase no mundo, ultrapassado somente pela Índia; são detectados 43 mil novos casos da doença por ano, dos quais mais de dois mil já com graves incapacidades físicas e quatro mil em menores de 14 anos; os estados com maior número de casos de hanseníase são o Maranhão e o Rio de Janeiro.
Trata-se de uma doença transmissível causada por uma bactéria que afeta principalmente a pele e os nervos, denominada anteriormente como lepra. Por influência até dos casos de pessoas leprosas descritos na Bíblia dos cristãos, e pelo desconhecimento dos avanços da medicina, essa doença, que há 40 anos já tem cura, ainda leva as pessoas por ela atingidas a sofrerem todo tipo de discriminação, como o afastamento de familiares, segregação do convívio em comunidade, abandono do estudo e impossibilidade de manutenção no emprego, sem contar as agressões psicológicas a que são submetidas em seu dia a dia.
A grande maioria da população ainda reage à doença com extremo preconceito, e desconhece que a pessoa atingida pela hanseníase pode e deve levar uma vida normal. Isto é reforçado também pelo fato de que, mesmo quando curadas da doença, as pessoas que ficam com sequelas ou incapacidades físicas, continuam a carregar consigo, em alguns casos, o estigma e os dissabores vividos durante o tempo em que tiveram a doença, conservando vivo o medo e passando para a sua comunidade, geralmente aquela menos esclarecida e mais pobre, a protelar a busca de um diagnóstico na fase inicial, o que dificulta ainda mais a erradicação da endemia.
Transmissão A hanseníase é transmitida pelo ar. A bactéria sai pela boca/expiração de uma pessoa doente e entra no corpo da pessoa sadia pela boca ou pelo nariz, durante a respiração. Pessoas de todas as idades, especialmente as que convivem com pessoas atingidas sem tratamento, podem pegar a doença, que atinge o triplo de pessoas do que a Aids
No Brasil, o principal obstáculo para acabar com a hanseníase é o fato de que uma grande parcela da população não têm acesso à informação, nem ao diagnóstico e nem ao tratamento na fase inicial da doença. Mas desde 1998, os serviços e ações para diagnóstico e tratamento da doença foram incluídos entre os procedimentos de oferta obrigatória na atenção básica prestada à saúde da população.
Tratamento Quando o diagnóstico é feito na fase inicial da doença e tratado, a hanseníase não causa deformidades. Os sinais da hanseníase são manchas, planas ou elevadas, que podem aparecer em qualquer parte do corpo. De cores avermelhadas, esbranquiçadas ou da cor do cobre, podem ser identificadas se o local apresentar falta de sensibilidade ao calor, tato ou dor. Para isso, basta fazer um teste bastante simples: pegar um objeto pontiagudo, como uma caneta esferográfica, por exemplo, e tocar ligeiramente a pele com a ponta. Se a pessoa não sentir o toque, provavelmente é hanseníase e o tratamento deve ser iniciado imediatamente.
Através do tratamento à base de cartelas de comprimidos para 6 ou 12 meses, disponíveis gratuitamente em postos de saúde, dependendo do número de manchas na pele e que é determinado pelo médico a bactéria é rapidamente destruída, o que interrompe a transmissão da doença. Portanto, um dos principais fatos acerca da doença que precisa ser amplamente difundido, e que pode reduzir o preconceito, é informar que logo a pessoa inicia o tratamento, não transmite mais a hanseníase.
Mais de 80% das pessoas que procuram os serviços de saúde pela primeira vez são atendidos por pediatras, ginecologistas e clínicos gerais, e estes profissionais devem procurar sinais de hanseníase em todos seus pacientes, assim como nos seus acompanhantes. O diagnóstico e tratamento da doença na fase inicial podem impedir que milhares de pessoas desenvolvam incapacidades físicas e alterações da aparência inevitáveis após alguns anos com a doença instalada.
Movimento de apoio
Acabar com o preconceito das pessoas com relação à doença, que tem cura e medicamentos gratuitos, são os principais objetivos do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), criado em 1981, como Organização Não Governamental (ONG), tem seu trabalho focado no apoio à identificação de casos, e à transmissão de informações básicas sobre a doença e a indicação de postos de tratamento.
O atendimento e a orientação são totalmente gratuitos através do Telehansen (0800-26-2001) O trabalho do Morhan é feito por voluntários, entre eles o cantor Ney Matogrosso, os atores Ney Latorraca, Solange Couto, o compositor Targínio Godinho e o artista plástico goiano Siron Franco, fazem parte do grupo de voluntários deste movimento.
O Morhan está promovendo uma série de ações para divulgar nacionalmente o problema da hanseníase, ultrapassando os limites e tentando dar a mesma atenção aos atingidos não só aos 329 municípios identificados pelo Governo Federal como aqueles onde há maior incidência da doença, mas a todos os casos detectados.
''Essa lista de atendimento prioritário do Ministério da Saúde, de certa forma, mascara a realidade do país e o nosso movimento defende que haja uma alteração nessa política de atendimento, de tal forma que numa cidade em que apenas duas pessoas tenham a doença, elas também sejam medicadas, este sim um modelo que levará à eliminação da doença'', defende o presidente do Morhan, Artur Custódio Moreira de Sousa. E completa com um exemplo. ''O Rio Grande do Sul já está com 0,5 de casos de hanseníase para cada 10 mil habitantes, grau de incidência que pelos critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), indica que aquele estado já eliminou a doença.
No entanto as estatísticas do Morhan e as pesquisas da Secretaria da Saúde daquele estado apontam que a região ainda conta com 800 pessoas identificadas atingidas pela hanseníase, e se elas não forem tratadas, dentro de alguns anos, certamente no Rio Grande do Sul a doença voltará a crescer e o pior, as pessoas não estão sendo diagnosticadas na fase inicial, ficando desta forma, com sequelas além de não quebrarmos a cadeia de transmissão da doença'' diz Artur Custódio. (Da Redação)
No mundo
O programa Aliança Global para a Eliminação da Hanseníase, criado em 1999 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para os países onde ela é endêmica, tem como objetivo detectar e curar todos os casos remanescentes no mundo até o ano de 2005. De acordo com o programa, com apoio da OMS e da Organização das Nações Unidas (ONU), os Governos dos países têm como dever oferecer medicamento gratuito à população, e, através de políticas nacionais e ações regionais, cuidar do atendimento, distribuição e treinamento dos profissionais da saúde na identificação da doença. O programa conta com o apoio de diversas instituições internacionais, entre elas a Fundação Novartis, que fornece o medicamento, gratuitamente, e na quantidade necessária, para todos os portadores da doença no mundo. O Morhan é a única ONG com participação de usuários a fazer parte da Aliança Global da OMS, que é composta na sua maioria por representantes dos governos aonde a doença é endêmica. (Da Redação)
Serviço
Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan)
Rua do Matoso n.º 06 - 2º andar - Grupo 205, Praça da Bandeira Rio de Janeiro. E-mail [email protected] ; Telehansen: 0800-26-2001
A ligação é gratuita de qualquer localidade do país e o funcionamento é de segunda à sexta, das 8 às 22 horas e aos sábados até às 17 horas.


