Os novos mandamentos da moda
Rosângela Vale
Enviada Especial
Clássicos se renovam, brilhos ganham destaque e peles sofisticam o visual. Violáceos, marrons e beges de todas os matizes contracenam com o preto e o vermelho. Em cena, o outono-inverno 2000
Se a temporada passada aniquilou o minimalismo, esta o enterrou de vez. Guiados pelos novos desejos da moda, os estilistas deram boas-vindas aos paetês, às peles, aos adereços dourados. E decretaram: Viva o glamour! Nas coleções de outono-inverno 2000 apresentadas durante o MorumbiFashion, que terminou segunda-feira, em São Paulo, a ordem é celebrar a vida em cima do salto, obrigatoriamente, de uma bota cano alto. A receita de fêmea fatale inclui ainda uma peça em lezard, um chemisier, boás poderosos, cintos (de tachas ou grandes fivelas), lenço no pescoço, força no decote e muito rebolado. A silhueta é longilínea, a atitude é chique, a pose é sexy. E o que é melhor: o estilo aparece em diferentes versões, do sutil ao mais explícito.
A Equilíbrio investiu na bem dosada mistura do clássico com o rock dos anos 70 e apresentou uma coleção ultrafeminina. Tem terninho de veludo, camisas de cetim, tricôs, casacos de couro, lã e tafetá, saias de georgete e belas peças de paetês marrons. Já a Huis Clos vem romântica no seu passeio pelas cores e texturas do Marrocos. Destaque para as estampas de afrescos no vestido fluído e para os mosaicos siliconados sobre georgete. O toque de modernidade fica por conta das peças em náilon dublado, uma tradução clássica do look consagrado pela Slam.
A Patachou entrou no clima dos revivals e reeditou casaquinhos e chemisiers em tricôs, que ganharam uma variada gama de jacquards inspirados em azulejos dos anos 60. O visual, entretanto, soa demasiadamente retrô; melhor são belas tramas do mohair em regatas gola alta.
A Zoomp também se rendeu aos clássicos, que surgiram repaginados graças à talentosa equipe de estilo de Renato Kherlakian. Assim, padronagens antigas aparecem sob nova ótica, como o pied de coq ampliado e a espinha-de-peixe com leve brilho. Nesse jogo de novas interpretações, até o cinto largo de couro ganha nova função, cobrindo os seios. Cores intensas como vermelho, lavanda, amarelo e ocre contrastam com o preto e o cinza, que vêm fortes. Leggings cobrindo o escarpim completam o repertório de inverno da marca que, como sempre, garantiu o burburinho esperado.
Nem poderia ser diferente com Gisele Bundchen na passarela. Seus passos largos, que dão uma cadência inconfundível ao andar e ao balançar dos cabelos, puderam ser vistos em apenas três desfiles. Mas foi o bastante para que ela fosse o nome do evento. A sudanesa Alek Wek também causou frisson com os exíguos vestidos de malha da Ellus, que deixaram totalmente à vista suas quilométricas pernas. A marca aposta nos tons terrosos, verdes e alaranjados, nos belos efeitos manchados e nos craquelados, que lembram cascas de árvore, e nas estampas computadorizadas. As calças são retas e sequinhas e as botas vêm no melhor estilo cowboy.
Anos 80 na veia. Assim é o inverno da Iódice, que abusou dos tecidos tecnológicos para reinventar a aura de glamour da época. As listras, sempre com brilho, permeiam toda a coleção, mas causam maior impacto nas espirais metalizadas das saias jeans. O índigo recebe ainda outros caprichos, como pespontos dourados. E os strass. Tudo para abastecer a mulher forte, sensual e luxuosa que surge com os novos mandamentos da moda.
O clima era de festa no desfile da Forum. Tufi Duek celebrou o glamour bebendo na fonte: estampou bailes de gala em saias longas e nas calças Capri com efeito paetizado, dando continuidade a idéia das estampas-tema surgida na última coleção de verão. Em versão mais pop, drinques ilustram a camisa de seda. O couro e os tradicionais vestidos de cetim de costas nuas aparecem como coadjuvantes. O tom predominante é o café com leite, com pinceladas de vermelho, branco e preto, garantindo a sofisticação característica da marca.
No primeiro desfile de sua história, a Triton fugiu do conceito streetwear e construiu sua star girl com competência: microssaias de lurex são coordenadas com tops e camisas de paetês, estolas de peles, botas de salto quadrado ou sapatinhos com meia soquete. O cetim deixa ainda mais provocante o vestido de proporções mínimas. Entre as estampas, onça, boca, árvores e bolas. O jeans segue o mesmo pique, paetizado ou siliconado.
A Zapping reforça sua imagem plugada nas ruas e na tecnologia. Coloca no seu balcão self-service camisetas navalhadas, com cara de eu mesmo fiz. No cardápio da grife constam também xales e ponchos que viram saias, estampas brecholentas, calças com pompons laterais e mais uma descolada versão do tênis All Star, agora em coturno plataforma de couro. Coloridíssima, a Fit resolveu acrescentar alfaiataria ao seu estilo tradicionalmente esportivo. E também adicionou pitadas de brilho aos simpáticos looks. O melhor momento, no entanto, são as aconchegantes estolas e boás com aspecto de folhas.
Sempre polêmico, o desfile-performance da M.Officer virou um manifesto. Notadamente conhecido pelas suas pesquisas de tecidos de última geração, Carlos Miéle trouxe à tona também o avesso da evolução tecnológica. Pensou nos excluídos e criou a roupa de fuga feita de material resistente ao fogo, à prova de bala e que pode se transformar em corda. Mas o glamour também estava lá: paetês em belas padronagens, rendas bordadas, jeans com detalhes de pêlos, vestido cortados à laser e muitas peles, como manda o figurino da estação. A novidade fica por conta dos vestidos de fibra ótica, semente do que Miéle acredita ser o futuro das roupas, com memórias interligadas.
Com uma das mais belas coleções apresentadas no evento a mesma que será mostrada em Nova Yorque na próxima semana Fause Haten vive mesmo sua época de ouro. Talvez por isso tenha apostado tanto na cor, que se mistura ao jeans e aparece em casacos dupla face e faixas marcando a cintura. Belíssimos efeitos navalhados, quadriculados à la Mondrian e o underwear sem costura, desenvolvido pela Scala, são outros hits. Trabalhar tecidos tecnológicos de forma artesanal é um dos segredos do sucesso do estilista.
Walter Rodrigues surpreendeu sua platéia habitual e não colocou nenhum vestido longo na passarela. Queria mudar a forma como as pessoas me vêem, justificou o estilista, inovando também ao contratar, pela primeira vez, um stylist. O resultado não poderia ser melhor. Com objetividade, mas sem perder sua poesia, ele abriu o desfile com amarelos de aspecto matelassê, prosseguiu com pretos vazados, efeito conseguido graças ao corte por ultra-som, e arrasou com os cinzas salpicados de brilho, numa referência aos metais de Paco Rabbane.
Alexandre Herchcovitch mostrou, mais uma vez, sua apurada técnica em alfaiataria. Seja no paletó de forma arredondada, nas pregas e plissados que surgem discretos na manga da camisa e se desdobram em pantalonas gigantes, ou na blusa listrada com casaquinho embutido de um lado só. Sutilezas de quem já é mestre no ofício. Já Marcelo Sommer, fiel a seu público clubber, mas agora com faro comercial dividiu a coleção em rua e clube, investindo em formas divertidas, estampas óticas, geométricas e temáticas, como os naipes de baralho, que já nascem objeto de desejo.
Sem compromisso com tendências, Reinaldo Lourenço e Glória Coelho deram um show de estilo próprio. Ele construiu uma silhueta compreensível por poucos, estreita em cima e alargando-se na barra, com direito ainda a cachecol e minipelerines acoplados às peças, trench-coats, macacões, muitas pregas e babados. Os tons são escuros, iluminados por vermelho, azul e rosa claros e prata.
A G fez um dos desfiles mais longos, dissecando os inúmeros temas de seu inverno. Todos costurados por sua inspiração central, a Holanda. Boinas e tamancos bordados acompanham todos os looks. A coleção se sofistica com os casacos de manga vazada e mantôs com longos boás. E atinge seu ponto alto com os vestidos de fada nervurados e levemente armados, revelando absoluto perfeccionismo.
Renato Loureiro traduziu sua paixão pelo Japão com incríveis saias origamis em tafetá de seda, criadas a partir de casas de abelha gigantes totalmente feitas à mão. O trabalho com o jeans também merece destaque: cortado em rodelas foi aplicado sobre tecido de chita floral, num efeito escama. E os tricôs vêm com mangas amplas e retorcidas.
Celebrando as orgias da vida, Lino Villaventura criou sua atmosfera de fantasia com cenário de galhos secos e cristais. Seus tradicionais nervurados vêm agora esfiapados, dando aspecto invernal a tecidos leves. O jeans, desenvolvido com exclusividade pela Santana Têxtil, ocupa grande parte da coleção, mas vem totalmente transformado: estampado e revestido com gaze de seda pura, fica praticamente irreconhecível. Pássaros e borboletas completam o imaginário fértil do estilista, que parece querer compartilhar seus sonhos com a platéia de seus desfiles.
* A jornalista Rosângela Vale viajou a São Paulo a convite da organização do MorumbiFashion.
* Confira os desfiles masculinos na próxima edição da Folha da Sexta.





