Os médicos não têm médicos
Arquivo FolhaSegundo o médico cardiologista José Eduardo de Siqueira, é comum os médicos tirarem dúvidas sobre sua saúde nos corredores dos hospitaisSão poucos os que têm coragem de assumir. A verdade, no entanto, é que a maioria dos médicos não se cuida como deveria. Segundo uma pesquisa americana, publicada no mês passado, pela Revista do Incor, de São Paulo, os médicos morrem de problemas cardíacos dez anos antes que pacientes comuns. Isso porque vivem sob stress, não controlam fatores de risco, adotam a automedicação e não costumam ir ao médico. Segundo o editorial da revista, os médicos, embora dotados de poder de cura e dedicados aos seus pacientes, negligenciam a própria saúde. São muitas as razões para esse comportamento: dificuldade em aceitar o papel de paciente, preocupação em não incomodar os colegas, falta de tempo, sensação de perda da invulnerabilidade e constrangimento devido ao não pagamento da consulta.
A prática mostra que, quando a questão é a saúde deles próprios, o conhecimento científico que esses profissionais possuem atrapalha mais do que ajuda, dando-lhes uma falsa segurança de que mantêm a situação sob controle ou provocando-lhes temor. Tanto de um jeito quanto de outro, a ida ao consultório de um especialista fica adiada. Segundo o médico cardiologista José Eduardo de Siqueira, ex-presidente da Associação Médica de Londrina, é comum os médicos tirarem dúvidas sobre sua saúde nos corredores dos hospitais, e, quando o colega sugere uma consulta, geralmente eles se esquivam. A verdade é que os médicos não têm médicos, diz Siqueira.
Várias sociedades médicas tentam conscientizar esses profissionais através de divulgação de dados sobre a realidade, mas o problema é cultural. Está na formação do médico. A mística em torno dele é muito grande. Até hoje o juramento do médico é o hipocrático, feito há quatro séculos antes de Cristo, que começa citando os deuses do Olimpo. E é claro que impregnado desses poderes especiais, que lhe são atribuídos, vivendo essa situação de um quase deus, o médico se sente incólume, critica Siqueira.
Para o cardiologista, o grande paradoxo da vida do médico é o fato de, técnicamente, dominar (até certo ponto) essas questões saúde/doença e vida/morte, ao mesmo tempo em que, como ser humano, temer a morte como qualquer outra pessoa. Na década de 70, a Associação Médica de Londrina, resolveu homenagear os médicos mortos que tinham feito parte da entidade, colocando um painel de fotos na sala de reuniões. Todos os médicos que entravam ali criticavam o painel, achando-o de mau gosto. Provavelmente, o que os incomodava era o fato de verificar que muitos daqueles que morreram eram jovens, e morreram por não controlar fatores que poderiam ter sido perfeitamente contornáveis, diz Siqueira.
Segundo ele, embora o tema morte esteja intimamente ligado ao dia-a-dia do médico, a questão nem sequer é discutida. O médico tem dificuldade em encarar sua própria vulnerabilidade enquanto ser humano. Temos que mudar isso. A Bioética é a matéria que trata um pouco mais desta questão, mas a única escola brasileira de Medicina que tem 34 horas dessa disciplina, é a Universidade Estadual de Londrina, lamenta.
A conscientização é a única maneira de mudar esse quadro, dizem os próprios médicos. E para isso é preciso lembrar dos conselhos que eles mesmo dão. Não esqueça que a vida é curta e que somos todos mortais. Consulte um médico e realize check-ups periódicos como prevenção. Outros pontos importantes, segundo eles, são: Não fumar, praticar atividades físicas, alimentar-se adequadamente e ter horários regrados de trabalho. Além de manter um hobby, estipular horários de lazer e não adiar férias, permitindo-se simplesmente ser humano. A família agradece, os pacientes também.





