Os males da tireóide
Marcelo Almeida‘‘Se uma população está submetida à falta de iodo, certamente vai estar sujeita a problemas de tireóide’’, afirma o endocrinologista Vicente Florentino AndradeVivian de Albuquerque
Pouca gente tem conhecimento das funções dos chamados hormônios T3 e T4 no organismo humano. Produzidos pela tireóide, uma pequena glândula que pesa cerca de 20 gramas localizada na região central do pescoço, eles são os responsáveis pelo controle do nível de atividade das células de todo o corpo. E é justamente aí que ‘‘mora’’ o problema.
O processo é simples. A glândula, que deriva do tubo digestivo, fabrica os hormônios, retirando uma matéria-prima básica da corrente sanguínea: o iodo. E, se este componente estiver faltando no corpo humano pode surgir uma série de problemas capazes de afetar seriamente a tireóide e, consequentemente, todo o equilíbrio do organismo.
É por isso que algumas pessoas engordam demais, enquanto outras emagrecem sem a menor causa aparente. Depois, quando a doença fica mais grave, podem surgir os tremores, os inchaços, as unhas e os cabelos quebradiços e o desânimo permanente.
Disfunções ‘‘O iodo é fundamental na economia da tireóide’’, explica o médico endocrinologista Vicente Florentino Castaldo Andrade. ‘‘Se uma população é submetida à falta do iodo, certamente vai estar sujeita a problemas de tireóide. Basta observar aquelas populações que vivem em regiões distantes do mar. Consumindo pouco peixe ou outros frutos do mar, elas ingerem quantidades mínimas de iodo. E, por isso, estão mais sujeitas a desenvolver doenças. Se faltam os hormônios T3 e T4, diminui o consumo de energia das células e aí entram as duas disfunções mais comuns da glândula: o hipertireoidismo e o hipotireoidismo’’.
Geralmente, os sintomas são os mesmos. No caso do hipertireoidismo, por exemplo, quando a glândula fabrica hormônios demais, o consumo de energia é muito grande. Com isso a pessoa sente muita fome, come demais e, mesmo assim, acaba emagrecendo. ‘‘É o resultado da queima excessiva de energia‘‘, explica Andrade. ‘‘E o coração tem que responder. Surge então a palpitação, a tremedeira, a insônia, a ansiedade, o calor, a sensação de desmaio e, muitas vezes, dependendo do grau do problema, o crescimento da tireóide. É o chamado bócio, que aparece na parte externa do pescoço, como se fosse um caroço’’.
ReproduçãoA tireóide pesa cerca de 20 gramas e está localizada na região central do pescoçoFalta de hormônios Já o hipotireoidismo é exatamente o contrário. A baixa fabricação de T3 e T4, faz com que haja uma diminuição do gasto de energia. A pessoa começa a engordar, as mãos e a área próxima aos olhos ficam inchadas, a pele fica ressecada e a memória cada vez mais fraca. ‘‘É como se fosse uma plantinha’’, compara Andrade. ‘‘Tudo vai ficando mais lento, quando você pára de aguá-la. E, quando o processo leva muitos anos sem ser tratado, a falta total dos hormônios pode até fazer com que a pessoa entre em coma. Hoje em dia isso não é comum, apenas nas regiões mais isoladas. Mas antigamente costumava acontecer com mais frequência’’.
Segundo o especialista, nas crianças o problema pode ser ainda mais grave, caso não haja um tratamento adequado e imediato. Isso porque, muitas vezes, a doença se desenvolve ainda na vida intra-uterina e, quando o bebê nasce e é cortada a ligação com os hormônios da tireóide da mãe, surgem as complicações. Uma delas é o cretinismo. A criança tem baixa estatura, fisionomia típica do cretino e problemas com o desenvolvimento do cérebro. ‘‘Por isso, é muito importante o teste do pezinho’’, alerta o endocrinologista. ‘‘Se as alterações forem confirmadas, o tratamento pode ser iniciado imediatamente. Já houve épocas em que o cretinismo era uma doença endêmica. Por isso, durante muito tempo, o governo passou a subsidiar o iodo para que as empresas produtoras de sal acrescentassem o componente ao produto.
CausasA maioria das pessoas que desenvolve o problema de tireóide já têm uma doença auto-imune da glândula. Isso ocorre quando o organismo não reconhece um determinado órgão e passa a fabricar anticorpos para destruí-lo. No caso específico da tireóide, a disfunção é chamada de Tireoidite de Hashimoto, onde o ataque das células de defesa acaba provocando uma inflamação crônica da glândula que, aos poucos, passa a ser substituída por cicatrizes.
O processo leva, automaticamente, a uma diminuição da produção de hormônios, até que chega o momento em que eles passam a fazer falta no organismo. E o resultado disso pode ser o aparecimento do hipotireoidismo. ‘‘Ainda não se sabe exatamente a causa, mas esta é uma doença muito comum nas mulheres’’, explica Andrade.‘‘A princípio, o mal de Hashimoto não requer tratamento. Mas, se o bócio incomodar esteticamente pode ser tratado com uma reposição dos hormônios T3 e T4’’.
Mas há ainda outras causas, ainda que menos frequentes, para o aparecimento do hipotireoidismo. Entre elas problemas congênitos como o da tireóide ectópica. A glândula se desenvolve num lugar fora do normal, como o assoalho da boca do bebê. A criança nasce normal e só bem depois é que começam a aparecer os problemas. Ou então a glândula, ainda não se sabe porque, não se forma, gerando a chamada Aginesia da Tireóide.
Já no caso do Hipertireoidismo, duas patologias aparecem como as principais causas: a doença de Graves Basedow e a doença de Plummer. Na primeira, os anticorpos produzidos pelo corpo fazem com que a glândula cresça muito e produza muito T3 e T4. Isso faz com que, além do surgimento do bócio, os olhos fiquem saltados, no processo conhecido como exoftalmia. Na segunda, é apenas uma parte da tireóide que cresce exageradamente, ou vários nódulos isolados.
O tratamento é feito com medicamentos via oral, os anti-tireoideanos, ou com o uso de cirurgia e iodo radioativo.
Câncer É no terceiro e último grupo que aparece uma das mais graves doenças, a dos chamados nódulos da tireóide. São eles a manifestação mais comum do câncer da tireóide, que é facilmente curável, desde que diagnosticado precocemente. E para isso o ideal é investigar constantemente qualquer bolinha que apareça na região.
O diagnóstico completo, em qualquer um dos casos, pode ser feito através de quatro tipos de exames. A dosagem dos hormônios T3,T4 e TSH, dos anticorpos anti-tireoideanos, a cintilografia da tireóide, com a ingestão de iodo radioativo e, finalmente, a ecografia ou ultrassonografia.

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