Os filhos depois do divórcio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de junho de 2006
Vera Fiori<br> Agência Estado 
Apesar do seu título sugestivo, o livro ''Amor, Casamento, Família, Divórcio... e Depois, Segundo as Crianças'', da editora Summus, não é exatamente uma publicação escrita para os pais, avisa uma das autoras, a psicóloga e mediadora familiar Rosane Mantilla de Souza, que também coordena o projeto DaquiPraFrente (www.daquiprafrente.com.br), atendimento aos familiares envolvidos direta ou indiretamente com a separação conjugal.
O foco do livro são os terapeutas e os profissionais de saúde e educação. No entanto, a perspectiva das crianças e adolescentes em relação ao amor, a conflitos familiares, ao divórcio e novos relacionamentos interessa ao público leigo, acostumado com uma literatura na qual são os adultos que dão a sua versão dos fatos.
Há cerca de cinco anos, Rosane e a co-autora do livro, Vera Regina Ramires psicóloga, pesquisadora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, Rio Grande do Sul deram início a duas pesquisas qualitativas. Foram ouvidos 85 participantes, com idades entre 5 e 15 anos. ''Numa primeira etapa, para quebrar o gelo, pedimos às crianças que desenhassem uma família e, depois, fomos aprofundando as questões.''
O que ficou evidente na pesquisa, segundo as psicólogas, é a idéia de que, para as crianças, as pessoas se casam por amor e se separam quando o amor acaba. Ou seja, a crença de um relacionamento conjugal indissolúvel não faz mais parte do imaginário infantil. Segundo as terapeutas, essa visão talvez favoreça o enfrentamento da experiência do divórcio, imaginado como algo possível e provável no relacionamento dos pais.
Geração precoce Um dado interessante, segundo Vera, é a flexibilidade das crianças e a capacidade de compreenderem esse momento de transição. Isso vai contra o ponto de vista traumático, à margem do ideal de família, apontado pela literatura especializada. A nova geração, bem diferente das anteriores, é precoce e atenta ao tema. ''A informação pode vir da interação com amigos filhos de pais separados, casos na família e da própria mídia'', fala Vera.
Sobre a percepção das crianças à idéia do divórcio, os sentimentos descritos foram de tristeza, alívio, culpa por sentir alívio (em função das brigas constantes dos pais) e aceitação. Rosane lembra que os pequenos têm sua saúde mental associada ao bem-estar dos pais e à qualidade do relacionamento entre ambos. Assim, estarão sob risco quando crescerem numa família na qual o casal esteja em conflito.
Por outro lado, os filhos poderão ser bem ajustados quando a separação contiver a escalada de conflitos entre os cônjuges, e a mãe ou o pai que estiver com a guarda das crianças for capaz de lhes proporcionar um ambiente de cuidado positivo. Quanto ao namoro e casamento posteriores, o livro mostra que a maior resistência a novos parceiros vêm das crianças menores, por muitas vezes fantasiarem um final feliz para os pais. ''Alguns filhos até ficam chateados quando os pais brigam com os respectivos namorados, se a relação posterior for boa.''
As especialistas dizem que é importante conversar com as crianças, mesmo as pequenas, desde que contextualizando o assunto de acordo com a idade. Não falar sobre o divórcio, com receio de que a idéia as perturbe, não faz com que o problema deixe de existir. A notícia deve ser dada por ambos, pois isso diminui o medo, as fantasias de culpa ou de possibilidade de os pais reatarem.
''O impacto da separação mais as mudanças que podem vir junto, como a queda do padrão econômico, podem ser devastadores.'' Se os pais, após o divórcio, não souberem lidar com a situação começarem, por exemplo, a usar a criança como moeda de troca o melhor é procurar ajuda em grupos de apoio e serviços de orientação.
A dor de ver os pais separados é inevitável. Segundo estudos, o divórcio, mais que um evento isolado, é um longo e complexo processo, envolvendo múltiplas mudanças. É possível que seja necessário um período de até quatro anos, a partir da separação, para que todos os ajustes familiares tenham ocorrido. ''Pode-se levar mais ou menos tempo até cicatrizar. Vai depender da idade da criança e da qualidade dos vínculos que pai e mãe vão manter com o filho'', observa Vera.


