Rosângela Vale
Já vai longe o tempo em que para criar moda só eram necessários tecido, linha e alguns esboços no papel. Hoje, o ofício exige mais que habilidade técnica e apuro estético. Tampouco basta estar bem informado sobre as últimas tendências e notícias da área. Os que querem se sobressair nesse competitivo mercado de egos e talentos inflados têm que aprender a decifrar a sociedade em que vivem. ‘‘Daí a idéia de criador como uma antena, que capta as oscilações de comportamento transformando fenômenos sociais em tendências de moda’’, observa o sociólogo Dario Caldas, que esteve em Londrina recentemente a convite do curso de Estilismo em Moda da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Especialista em moda pelo Institut Français de la Mode, em Paris, e pela Domus Academy, de Milão, Dario atua como consultor de tendências socioculturais e como professor em vários cursos de graduação e pós-graduação na capital paulista. A relação entre moda e sociedade foi o tema da palestra que reuniu alunos e profissionais do setor no Cine Catuaí 1. O sociólogo falou sobre a importância do estudo do comportamento para a criação e comercialização de produtos.
Radares ligados De acordo com ele, o criador só realiza seus objetivos quando consegue dar uma resposta a um tipo de comportamento perceptível. ‘‘É a captação do espírito do tempo’’, define, apresentando alguns exemplos desse faro fino que originaram movimentos internacionais, mobilizaram a indústria e marcaram a década de 90. O perfume CK One é um deles. O estilista Calvin Klein percebeu que a androginia (meninos e meninas assumindo os mesmos padrões estéticos) estava no ar, e mais que um produto, acabou lançando um conceito, o de perfume unissex.
Outro estilista que soube traduzir muito bem um fenômeno social para o terreno da moda foi Giorgio Armani. ‘‘Ele foi o primeiro criador a detectar os efeitos da crise masculina, detonada pela crise do capitalismo no final dos anos 80, que fez os homens reverem seus valores’’, observa o sociólogo. Armani sentiu que era hora de mudar a silhueta rígida da época, o power dressing, evidenciado por grandes ombreiras. Propôs, então, um shape mais natural, com paletó desestruturado de três botões, abotoamento mais alto e calças menos largas, como se vê hoje em todas as vitrines.
O sociólogo cita ainda a grife italiana Prada, fenômeno de moda internacional, que vem se mantendo no topo criativo pelos seus radares aguçados e constantemente ligados. Dario lembra que, ao assumir a marca, Miuccia Prada teve a sensibilidade para perceber a estética que dominaria a década de 90 – o minimalismo – além de atentar para a demanda de seu público por praticidade. ‘‘O resultado foi a fusão entre o esporte e o urbano, que tem desdobramentos na moda até hoje’’.
No início da nova década, a grife acerta o alvo novamente. A fórmula de sucesso agora é o new-chic, que já virou tendência mundial. ‘‘Depois de um longo período de casualização da moda, era de se esperar que a contra-tendência seria o gosto pela formalidade. Todo o vocabulário da coleção de verão da marca remete a isso: chemisier, lencinho no pescoço, bolsa de mão e um olhar muito forte para Yves Saint-Laurent’’, analisa o sociólogo.
Luxo e ostentação Segundo Dario, o pódio criativo conta com mais um nome. Ao lado do prêt-à-porter de luxo da Prada está a alta-costura de John Galliano para a maison Dior. ‘‘Ambos têm perfis diferentes, mas são extremamente coerentes na estratégia de alimentação da imagem da marca’’, afirma. O desfile verão 2000 da Dior ilustra bem isso. Inspirado no modo de vestir dos mendigos, como fazia o pauperismo japonês, Galliano apresentou estampas de jornais, mangas desfeitas, peças aparentemente mal acabadas. Além de causar polêmica ao mexer com a temática da desigualdade social, ele traz à tona os anos 80, maior referência para a moda atual.
‘‘É a primeira vez que se revisita uma década tão próxima’’, ressalta o sociólogo. E não é à toa. ‘‘Hoje, todas as pesquisas feitas naquela época estão sendo revistas. Estamos passando por um processo revisionista de todo o politicamente correto’’, ressalta Dario. Os reflexos desse fenômeno na moda são evidentes. As peles naturais voltaram aos desfiles, assim como o desejo de luxo, glamour e até ostentação. Um sintoma é a logomania, que foi retomada por várias marcas nas últimas temporadas.
Ter essa visão ampla da sociedade – saber filtrar e interpretar as informações – é o grande desafio que se impõe aos estilistas. Nas palavras do sociólogo ‘‘pegar carona na moda é muito fácil, difícil é dirigir o automóvel’’. Seguindo esse raciocínio, Dario foi o primeiro a idealizar um curso online de moda no Brasil – e no mundo – dentro do projeto de ensino à distância da Universidade Anhembi-Morumbi.
Acessível pela Internet desde 97, o curso passou por diversas estruturações, ganhando também a versão em papel. No livro ‘‘Universo da Moda – curso
online’’, o sociólogo traz um amplo panorama sobre o métier, apresentando-o de forma didática, mas sempre com olhar crítico. ‘‘Trata-se de um guia com um elenco de assuntos que o futuro profissional de moda precisa saber’’, define. Dario Caldas tem outro título no currículo. Foi o organizador do livro ‘‘Homens’’ (editora Senac), uma coletânea de artigos sobre o comportamento masculino contemporâneo.

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