Estima-se que a hepatite afete cerca de 700 milhões de pessoas no mundo (se somado o contigente de infectados pelos vírus da B e da C). Um número seis vezes superior ao de doentes com Aids. Para cobrar do governo a implementação do Programa Nacional para a Prevenção e Controle da doença, portadores da hepatite C farão domingo um manifesto nacional em diversas cidades brasileiras (leia texto nesta página).
De acordo com o médico infectologista José Luis da Silveira Baldy, os tipos mais conhecidos de hepatite por vírus são definidos pelas primeiras cinco letras do alfabeto. ‘‘A doença é semelhante para todos os tipos, manifestando-se de maneira parecida. Os principais sintomas são náuseas, vômitos, dor abdominal e icterícia (amarelo nos olhos e na pele). Eventualmente, há febre na fase inicial’’, explica.
Baldy informa que é comum a infecção ser inaparente, passando desapercebida. Quando causa sintomas, eles se confundem com doenças banais, como diarréia e infecção intestinal. ‘‘As hepatites A e E, têm o mesmo mecanismo de transmissão: ingestão de água e alimentos contaminados ou ainda por contato íntimo, já que ambas são transmitidas pelas fezes’’, diz ele, informando que a hepatite E ainda não é bem conhecida no Brasil e não tem vacina.
Já a hepatite A é muito comum no País, sobretudo em regiões onde a água não é devidamente tratada e as pessoas consomem verduras contaminadas por esgoto. É uma doença endêmica (ocorre continuamente) e mata uma criança em cada mil com menos de 14 anos. ‘‘Esse índice de letalidade aumenta com o passar dos anos. Em adultos com menos de 40 anos, fica por volta de 1%. Com mais de 40 anos, sobe para 2,5%’’, contabiliza o médico.
Ele observa que, quando a doença se manifesta na infância, a cura se dá de 15 a 30 dias. ‘‘Em 90% das crianças com menos de 5 anos, a infecção pelo vírus da hepatite A é assintomática. E, se elas não desenvolvem a doença, ficam imunes. É como se a natureza vacinasse a pessoa’’, compara, esclarecendo que o comportamento do vírus no organismo de uma pessoa acontece de forma individualizada. ‘‘Não dá para prever se a doença vai ser leve ou grave, se a pessoa vai se curar ou vai morrer’’, informa Baldy.
O ideal é que todas as crianças a partir de um ano de idade tomem a vacina, que ainda não é oferecida pela rede pública. É aplicada apenas em clínicas particulares, em duas doses, com intervalo de seis meses, e custa de R$ 50,00 a R$ 60,00 reais cada dose. Evitar o consumo de água suspeita e fazer o tratamento adequado dos legumes e verduras é a melhor forma de prevenção. ‘‘Água fervente mata o vírus da hepatite A’’, avisa o infectologista.
Bancos de sangue Nas hepatites B, C e D, o veículo do vírus é o sangue e a transmissão se dá através de agulhas e seringas contaminadas, sobretudo de usuários de drogas injetáveis. E também de mãe para filho no momento do parto. ‘‘A transmissão sexual tem um significado epidemiológico importante apenas para a hepatite B’’, afirma o médico.
Nos locais onde os bancos de sangue realizam os testes para o diagnóstico da hepatite B – uma exigência da legislação brasileira – não há perigo de transmissão na transfusão de sangue. ‘‘Nos grandes centros, isso é feito sem exceção’’, garante Baldy. A vacina é fornecida pela rede pública apenas para pessoas com até 19 anos de idade. É aplicada em três doses, com um mês de intervalo entre a primeira e a segunda doses, e cinco meses de intervalo entre a segunda e a terceira doses. Nas clínicas particulares, cada dose para criança custa R$ 30,00 e, para adulto, R$ 55,00.
Os sintomas da hepatite B também costumam passar desapercebidos, levando à imunidade na maioria das vezes e ao status de portador crônico do vírus em 5% a 10% dos casos. Baldy observa que a pessoa geralmente fica sabendo que é portadora do vírus nos bancos de sangue, no momento da doação. ‘‘Uma parcela desses portadores assintomáticos vai desenvolver hepatite crônica, cirrose e câncer do fígado, se viver tempo suficiente para que a doença tenha essa evolução’’, diz. O tratamento, com medicamentos específicos, é disponilibizado pela rede pública.
Vacina antes da adolescência
De acordo com o infectologista, estima-se que haja 400 milhões de infectados pela hepatite B no mundo. ‘‘É um problema sério de saúde pública. No sul do Brasil, cerca de 1% dos doadores de sangue apresentam teste positivo para o vírus’’, informa. Ao saber que é portadora, a pessoa deve procurar um infectologista para avaliar o seu estado com exames de sangue, contagem do vírus no sangue e, se dependendo do caso, biópsia do fígado.
O infectologista José Luis da Silveira Baldy ressalta que todas as gestantes devem fazer o teste para hepatite B durante o pré-natal, mas nem sempre é assim. ‘‘Se for positivo, o pediatra indicará a primeira dose da vacina nas primeiras 12 horas de vida da criança, evitando o risco da infecção’’, explica. Em Londrina, a vacinação contra a hepatite B (primeira dose), logo após o parto, é um procedimento de rotina no Hospital Evangélico, no HU e no Mater Dei.
Segundo o médico, quando a mãe transmite o vírus para o filho e a doença é descoberta, 80% a 90% dos casos evoluem para cirrose nos primeiros anos de vida e a criança acaba morrendo e insuficiência hepática. ‘‘O ideal é que a vacina da hepatite B seja aplicada o mais cedo possível ou, pelo menos, antes da adolescência, quando muitos jovens começam a ter contato sexual’’, adverte Baldy. Cerca de 1% das pessoas que têm hepatite B desenvolvem hepatite fulminante e morrem. ‘‘A grande esperança para os que descobrem a cirrose provocada pelo vírus da hepatite é o transplante hepático, cujo acesso é bastante limitado no Brasil’’, ressalta.
Baldy explica que a diferença mais significativa entre as hepatites B e C é que a maioria dos infectados pela C desenvolvem hepatite crônica, que vai evoluindo, ao longo de décadas, para a cirrose e o câncer de fígado. Como há um grande número de pessoas infectadas, há muitos doentes no mundo: de 250 a 300 milhões segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde. Ainda não há vacina para a C.
O tratamento, segundo o médico, é semelhante ao da hepatite B. Usa-se um medicamento injetável chamado Interferon, em associação com outros remédios via oral, todos fornecidos pela rede pública. ‘‘Infelizmente, o resultado não é dos mais animadores. Menos de 50% das pessoas infectadas respondem adequadamente ao tratamento em seis meses, um ano ou mais’’, revela Baldy.
Comum apenas na região amazônica, a hepatite D só ocorre em pessoas infectadas pelo vírus da B e sua evolução é bem semelhante. De acordo com o infectologista, as pessoas vacinadas contra a hepatite B ficam livres do vírus da D.

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