Objetos do desejo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de julho de 1998
Francelino França 
O contato constante com obras de arte é um incentivo para muitos arquitetos se apaixonarem por um determinado tipo de objeto de arte, raridades de antiquários, mobiliário tradicional ou peças com design contemporâneo. E dessa paixão até começar uma coleção é questão de impulso (e dinheiro). Impulso difícil de ser controlado, principalmente quando eles viajam e se deparam com irresistíveis objetos do desejo.
O badalado arquiteto paulista João Armentano, por exemplo, coleciona livros de arte, xícaras das mais variadas procedências e peças de decoração em forma de porco (ele é palmeirense). Em suas viagens, sempre que possível, Armentano procura aumentar sua coleção, voltando com as malas abarrotadas.
Já o decorador mineiro Márcio Ferreira de Carvalho Filho, 33 anos, possui em seu apartamento em Belo Horizonte uma respeitável (e invejável) coleção de 1.300 santos (!), expostos num grande armário de ferro e vidro. São peças escolhidas a dedo, reunidas num ambiente contemporâneo. Ele diz que montou o apartamento para abrigar essas peças. O investimento desses colecionadores acaba se tornando dispendioso - para formar uma coleção considerável levam alguns anos de empenho, dedicação e até estudos.
O arquiteto londrinense Álvaro Côrtes define essa paixão de muitos profissionais da área como um vício. Há oito anos, ele começou uma coleção de peças de arte sacra. Em suas viagens, Côrtes costuma visitar igrejas pequenas e antigas, cemitérios, antiquários e museus. Não estou à procura de determinada peça histórica, nem se ela é utilitária ou não, observa. As peças que tiveram uso e possuem história são mais representativas para Álvaro. Geralmente, são desconhecidas do público, pois muitas foram quebradas ou danificadas pela ação do tempo, ficando encostadas, sem restauração.
Com dedicação e empenho, ele acaba encontrando peças que são verdadeiros achados. Uma delas é um Menino Jesus do século XVII. Outras, quase que de forma mágica, vão surgindo nas mãos do arquiteto. Santos, sacrários, naveta, quadros, cortador de hóstia, estolas e outras raridades restritas à arte sacra fazem parte de sua coleção. Álvaro Côrtes considera que os santeiros brasileiros são mais criativos, por isso esse tipo de peça possui uma maior riqueza de detalhes.
São as vestimentas e paramentos usados nas igrejas que possuem um valor sentimental maior, confessa o arquiteto. Sua maior aquisição foi um conjunto de manto e complementos usados na celebração de missas. Resistindo ao tempo, as peças possuem mais de 400 anos e foram obtidas numa cidadezinha portuguesa, a 180 km de Lisboa, chamada Santo Antônio do Marmeleiro. Apesar de o tempo ter deixado marcas irreparáveis nos paramentos, o valor histórico e sentimental para o arquiteto é enorme. Ele relembra que o padre responsável pela igrejinha portuguesa não podia comercializar as vestimentas. Em troca das preciosidades, Álvaro Cortez ofertou a pintura da igreja.


