O flúor volta mais uma vez para o banco dos réus, reacendendo a polêmica entre os profissionais da área de saúde. No final do mês de julho, a Folha publicou uma matéria na qual o governo da Bélgica anunciava a retirada do mercado de comprimidos e gotas de flúor utilizados na prevenção das cáries.
Segundo o Ministério da Saúde daquele país, a ingestão excessiva do produto pode ter ''uma influência negativa no sistema nervoso''. O comunicado justificava ainda que diversos estudos feitos por cientistas encontraram uma relação entre a ingestão de flúor e a osteoporose.
Uma associação de dentistas se pronunciou dizendo que a medida não atingia os dentifrícios fluorados pois o contato do produto ocorre diretamente com os dentes, sem necessidade de ingestão. Já o governo belga, na mesma nota, dizia que a eficência do flúor contra as cáries ''está cada vez mais em dúvida''.
''Essa decisão não encontra nenhuma consistência científica'', rebate Maria Celeste Morita, professora de odontologia social e preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenadora do curso de odontologia da Universidade do Norte do Paraná (Unopar). ''O flúor, ao contrário do que afirma o governo belga, é o melhor aliado no combate à cárie. Por isso, o uso é recomendado pelos organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas)''.
Ao flúor, segundo a professora, já foi creditada a responsabilidade na causa de câncer e da osteoporose, mas pesquisas científicas comprovaram que não há riscos. Ele já foi utilizado no tratamento da osteoporose mas houve uma modificação na conduta porque não deu o resultado esperado. O produto, como afirma,''ajuda na mineralização dos tecidos até uma certa dose, acima disso, o efeito é contrário'' explica. ''A diferença entre o veneno e o remédio é a dose'', ilustra Celeste.
Na água O professor Luiz Reynaldo de Figueiredo Walter, da Bebê Clínica da UEL, diz que no Brasil já não existe a prática de se recomendar comprimidos e gotas de flúor. Isso porque o índice de cidades que incluem o produto na água oferecida à população é alto mais de 50%. No Paraná, 90% da população recebe água fluoretada seguindo indicação dos organismos mundiais.
Ele lembra ainda que, desde 1995 não se recomenda o uso de medicamentos com flúor para crianças até seis meses de idade e em grávidas, por não ser necessário. Luiz Walter diz que já está provado que a ação do flúor não é de fixação nos dentes, ou seja, ele age livremente no meio bucal. ''Ele é ingerido, metabolizado pelo plasma e excretado pela saliva. Cabe a ela a prevenção das cáries''.
Outro dado importante, segundo o dentista, é que nos últimos dois anos o índice de cárie no País tem diminuído. Londrina, como aponta, é um dos exemplos mais marcantes nessa redução da doença. A política de prevenção desenvolvida pela UEL, em conjunto com o município, onde a odontologia para bebês iniciada em 1985 foi o ponto de partida, dá à cidade números de primeiro mundo na saúde bucal da população. O índice de dentes perdidos, cariados ou obturados (CPOD) em crianças aos 12 anos é de 1,1 dente. A OMS preconizava para o ano 2000 um índice de 3 dentes.
Fluorose O uso abusivo ou desnecessário do flúor nos dentes, explica o dentista, provoca uma alteração na formação do esmalte dos dentes, a fluorose. Ela se manifesta desde manchas brancas localizadas até a perda da estrutura do esmalte e cavidades no esmalte.
O que preocupa, de acordo com Luiz Walter, são as altas dosagens do flúor contidas nas pastas dentais e a falta de conhecimento demonstrada pelas pessoas sobre o assunto. ''A pasta de dente é a maior responsável pelo uso excessivo do flúor'', alerta. O produto hoje oferece teores de flúor entre 1.000 a 1.450 partes por milhão (ppm). O ideal estaria próximo de 256 ppm.
Celeste Morita e Luiz Walter destacam que a quantidade de pasta que deve ser usada a cada escovação é igual a ''uma ponta da ponta da escova'', pois o que limpa os dentes é a forma como eles são escovados. ''Da pasta aproveita-se o flúor e o sabor agradável dado à boca''.
Fiscalização O gerente de odontologia da Secretaria Municipal de Saúde de Londrina, Domingos Alvanhan, destaca que devido aos números obtidos pelo município no combate às cáries, o uso do bochecho de flúor foi suspenso nas escolas municipais da área urbana em março de 2001. Isso porque o produto já não apresentava benefício algum.
O dinheiro gasto com o produto e com profissionais para orientar a aplicação, segundo ele, foi destinado para à conscientização das crianças sobre as técnicas de escovação, uso do fio dental e compra desses produtos para serem distribuídos nas escolas. No começo deste ano, a medida foi estendida também às escolas estaduais, já que o gestor dos recursos do Sistema Único de Saúde é o município. Nas escolas da zona rural o flúor ainda é aplicado pois a população não dispõe de água fluoretada.
Além do serviço odontológico oferecido pela maioria das Unidades Básicas de Saúde (para a população de 0 a 21 anos), a saúde tem programas dirigidos a gestantes. Desde abril deste ano, medidas preventivas e educativas estão sendo oferecidas às mulheres atendidas na Maternidade Municipal. Alvanhan destaca que o município está empenhado em obter recursos que permitam melhorar o atendimento à saúde bucal da população adulta.
Enfim, da medida adotada pelo governo belga, os especialistas consultados pela Folha da Sexta só concordam que deve haver mais fiscalização no uso do flúor em alguns produtos, como comprimidos, chicletes e pastas dentais, pois o risco à saúde, especialmente a bucal, só ocorre com o uso de concentrações altíssimas do produto. n

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