Uma das receitas para manter uma vida saudável e feliz é ter um trabalho compensador, tanto na questão financeira quanto na emocional. O sonho de boa parte da população é se preparar e encontrar um serviço que as realize. Mas, por mais estranho que isso possa parecer, até pessoas que têm bons salários e trabalham nas profissões que escolheram podem apresentar o estresse originário do trabalho.
Em muitos casos, os problemas ultrapassam o limite do estresse. É quando a pessoa começa a sofrer do que os psicólogos chamam de Síndrome de Burnout (do inglês burn out: queimar-se por dentro). A síndrome foi descrita pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1974, mas ainda é pouco conhecida e acaba sendo confundida com o já famoso estresse. Segundo a psicóloga Ana Maria Tereza Benevides Pereira, organizadora do livro ''Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador'', existe realmente uma relação entre a síndrome e o estresse, mas com características próprias. ''O Burnout é uma cronificação do estresse ele apresenta as mesmas características, como irritabilidade e cansaço, mas também possui outras bem mais sérias'', afirma.
Sintomas O profissional que é acometido pela síndrome, de acordo com Ana Maria, apresenta uma exaustão emocional muito grande, uma baixa realização pessoal com o trabalho e forte desumanização. ''A pessoa se sente física e mentalmente no limite, em estado de esgotamento profundo. Como reação, ela passa a tratar os colegas de trabalho e as pessoas que precisam de seus serviços como coisas, de forma fria e distante'', completa. Para a psicóloga e autora do artigo ''Auto-eficácia e burnout'', Anna Edith Bellico da Costa, a característica mais forte da síndrome é o desânimo. ''Burnout é a desesperança que acomete aqueles que desistem, pois perderam a confiança em seu poder de modificar circunstâncias, é falar da impotência diante do que parece irreversível'', escreve.
Outra diferença entre o estresse e a síndrome são suas vítimas. Na maioria dos casos, as pessoas que gostam muito de seu trabalho, idealista e dedicado, são as que desenvolvem a doença. ''Geralmente são indivíduos que lidam com outras pessoas no trabalho, como médicos, professores. Eles se decepcionam com o trabalho ou gastam muita energia com ele, sentem dificuldade de se desligar dele. É o médico que se envolve com as histórias dos pacientes e não consegue esquecer quando um deles morre, ou a professora que se sente incapaz quando não tem condições de trabalhar dignamente e vê que os alunos não aprendem corretamente'', esclarece. A especialista diz que cerca de 10% da população é atingida pela síndrome. ''Geralmente são pessoas com pouca experiência, com dois ou três anos de trabalho'', completa.
Perigo Como consequência, surgem todas as complicações citadas e outras mais graves ainda. ''Muitos funcionários acabam se envolvendo com drogas ou álcool para tentar superar a crise e, em casos mais sérios, apresentam problemas físicos e precisam se ausentar do trabalho, além de terem uma baixa na produtividade. As empresas deveriam se preocupar mais com a saúde mental de seus trabalhadores'', comenta Ana Maria. Isso porque grande parte das frustrações sofridas pelos empregados vêm do local onde eles trabalham. ''As instituições públicas estão cheias de burnouts. A burocracia é a grande responsável por isso. As pessoas se sentem incapazes de mudar sua situação. O capitalismo, que prega a busca incessante do sucesso e a competitividade entre os funcionários também é um perigo'', alerta.
Mas algumas atitudes particulares também são importantes para evitar o problema. Manter uma vida equilibrada, com boa alimentação e atividades físicas e de lazer, ajuda a garantir a saúde do corpo e do espírito também. Procurar entender que todos temos limites no trabalho e que nem tudo pode ser como gostaríamos, é um bom caminho para superar as frustrações.
Em casos onde as consequências são muito grandes, a psicóloga aconselha procurar ajuda de um profissional. ''Às vezes é necessário o uso de remédios também, porque a síndrome é mais difícil de ser superada do que o estresse. Para quem sofre desse mal, tirar férias, por exemplo, não adianta. A pessoa leva cerca de três semanas para começar a relaxar, de tão afetada que está. Conheci uma enfermeira que abandonou a profissão e se tornou professora porque não conseguia superar os problemas'', comenta.n

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