O trabalho dignifica a mulher
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quinta-feira, 03 de março de 2005
Karla Matida<br>Reportagem Local 
A mulher nasce, cresce, casa, tem filhos e os vê crescer até a chegada dos netos... Durante muito tempo, para muitas mulheres, os dias e os anos eram vividos em casa e em função da casa. Não se sabe quem mudou mais, se foram os tempos ou as mulheres. Mas a verdade é que não é de hoje que elas já não são mais criadas única e exclusivamente para constituir família e ponto final.
A psicóloga Noemia Fabiano, 60 anos, sempre ouviu em casa ''que mulher minha não trabalha''. A frase dita pelo pai para sua mãe acabou marcando boa parte dos primeiros anos de casada da psicóloga. ''Minha mãe, que hoje tem 83 anos, trabalhava quando era solteira, mas meu pai rasgou sua carteira profissional quando eles se casaram'', lembra.
''Tive que vencer meus próprios preconceitos. Eu sabia que a vontade estava lá dentro, querendo sair para o trabalho'', conta Noemia, que casou aos 18 anos e aos 20 já era mãe. Mãezona aliás. ''Passei uns 10 anos só cuidando dos meus dois filhos'', diz. Quando os meninos foram para a escola, a psicóloga viu a chance de voltar a estudar.
''Fui me dedicando devagar, me envolvendo com o estudo aos poucos. Tive que me organizar para estar em casa e também poder sair para estudar'', afirma. Noemia fez todo o colegial, passou por duas faculdades e ainda segue estudando. Sempre me interessei pelo ser humano e nas aulas de educação física percebi que o corpo é movido pela alma e aí fui atrás do curso de psicologia'', explica.
Só depois de 20 anos de casada é que a psicóloga foi ter seu primeiro emprego. ''Fiquei no vazio quando meus filhos foram estudar fora. Fui fazer análise e percebi que tinha outras qualidades além de ser mãe e esposa'', lembra Noemia. Com a maturidade dos seus 60 anos, ela observa os pontos positivos que a idade lhe trouxe e que são utilizados na profissão. ''Tenho pacientes homens e crianças, mas as mulheres são maioria. Já fui criança, adolescente, tive filhos e agora vejo os netos. Tenho toda essa experiência. Muitos pacientes mais velhos se sentem mais à vontade em falar com uma senhora'', avisa.
Ter mais idade também influencia e muito a carreira profissional da vendedora de jóias Solange Jorge, de 50 anos. ''Nessa idade, a pessoa tem mais credibilidade'', acredita. Tanto é que, desde que resolveu trabalhar fora pela primeira vez, aos 47 anos, Solange nunca teve problemas em arrumar emprego. Com três filhos criados e encaminhados, a mudança de cidade e de estado civil, Solange resolveu que estava na hora da virada, depois de passar um ano introspectiva só estudando. ''Sabia que precisava sair de casa'', lembra.
Como já tinha alguma experiência com roupas, quando revendia em casa mesmo algumas peças para amigas, resolveu que seria o setor por onde começaria e se candidatou a um emprego numa butique. ''Mesmo assim tudo era muito novo'', explica Solange que tem recebido de braços abertos todas as novas experiências. ''A dificuldade existiu, mas num instante já passou'', conta sorrindo. ''A maturidade faz você ver as coisas com outros olhos. De tudo você tira uma lição, mas é bem mais leve'', completa Solange.
Para a vendedora, hoje numa joalheria em Londrina, o trabalho não só trouxe satisfação profissional como também uma sucessão de reencontros. Como morou aqui até os 18 anos, muitos amigos ficaram na cidade quando ela se mudou. Agora que voltou tem reencontrado muitos deles já que trabalha numa joalheria cinquentenária da cidade. ''Mas também fiz muitos amigos novos'', sorri.
A apresentadora de televisão Paula Piccinin Medeiros estava se posicionando no mercado de trabalho depois de se formar em administração de empresas e concluir a especialização, quando os gêmeos vieram. Parou tudo para se dedicar aos filhos. ''Eu me voltei para eles e estava tão plena, tão realizada que não precisava de mais nada'', lembra.
Foi só quando eles já estava com cerca de sete anos é que ela resolveu voltar ao batente fora de casa. ''Na minha área, ficar tanto tempo afastada é complicado'', garante. Mas isso não foi empecilho para Paula, que passou a trabalhar com o marido no ramo imobiliário. ''Quase na mesma época, engravidei outra vez. Mas aí não parei porque como já tinha tido dois de uma só vez, com um apenas foi mais fácil'', brinca.
A grande novidade surgiu um ano atrás, com o convite inesperado para apresentar um programa de televisão. ''Quando era modelo, até evitava fazer comerciais porque não me sentia à vontade, mas a proposta do programa foi um desafio'', explica Paula, que foi fazer apenas um teste de vídeo e acabou ficando. ''Acho que sou da última geração das mulheres que foram criadas para ficarem apenas em casa. Hoje a mulher se forma de olho no mercado de trabalho'', afirma a apresentadora, que diz que sempre contou com o apoio do marido. ''Ele deu força para eu aceitar a proposta'', completa.
''Se meu marido não tivesse me apoiado, quando resolvi estudar e trabalhar, acho que o casamento não teria seguido'', avisa Noemia Fabiano, que planeja formar grupos de trabalhos com mulheres para discutir casamento, carreira, família, ''algo no estilo de mulher para mulher'', antecipa. Segundo a psicóloga, paira no ar uma preocupação da parcela de mulheres de 30 e poucos anos, 40, que não se casaram e não constituíram família. ''Mas é mais fácil para elas mudarem isso do que foi para mim e outras mulheres começarem a trabalhar'', garante. n


