O sertão já virou moda
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quinta-feira, 23 de junho de 2005
Karla Matida<br>Enviada ao Rio de Janeiro 
Na semana passada, os termômetros do Rio de Janeiro oscilaram entre 25 e 28 graus. Se, às vésperas do inverno, as altas temperaturas causaram estranheza, também serviram de clima ideal para o lançamento das coleções Verão 2006. Durante seis dias, a sétima edição do Fashion Rio mostrou 33 desfiles (além de outros dois do evento paralelo Rio Moda Hype, para novos talentos) em quatro passarelas montadas no Museu de Arte Moderna. Mesmo com a praia do Flamengo logo ao lado, o evento carioca foi muito além dos biquínis e cia. e viajou longe, bem longe.
O sertão nordestino não só se fez presente como inspiração, mas também como forte tendência. A primavera-verão para os estilistas que se apresentaram no Rio chega árida, principalmento nos tons crus, geralmente vistos nos desertos e caatingas. Se a seca castiga o solo e coloca o branco e o bege como cores-chaves, a modelagem vem em abundância. Formas amplas garantem o ''shape'' da estação.
As saias ganham generosos metros de tecido e vão até os pés. As regatas se esticam meio que querendo se transformar em vestidos, que aparecem em todas as coleções. Podem ser frente-única, tomara-que-caia ou com as alcinhas clássicas. O linho, revisitado para o Verão 2006, está mais fino e teve destaque nas passarelas. Até mesmo na não-passarela da Tessuti, que fez seu desfile na Ilha Fiscal, que no passado recebeu bailes da monarquia.
Apesar dos looks lisos e quase sempre monocromáticos serem, na prática, a cara do sertão, as estampas também tiveram vez. Para Lucy in The Sky, o passeio pelo Japão trouxe as flores dos quimonos nipônicos. As belas cores e desenhos fazem suspirar gueixas ou não. A capixaba Lei Básica usou xilogravuras dos pernambucanos J. Borges e J. Miguel como inspiração e como estampa. O pássaro Asa Branca e o casal Lampião e Maria Bonita passeiam elegantemente pelas saias e vestidos. Pura emoção ao som de Luar do Sertão.
Para a estreante Redley, a colaboração especialíssima do estilista Maxime Perelmuter (British Colony) foi muito bem sentida no mix de estampas e no patch de tecidos. Outra boa estréia foi a de Alessa Migani, que brinca o fálico e o que se faz entre quatro paredes nos desenhos de seus vestidos e calcinhas mostrados na instalação fashion montada em sua própria casa-ateliê.
Gisele Bundchen à parte (se é que isso é possível), a Colcci aposta no vintage para dar a cara de décadas passadas ao Verão 2006. O crochê se destaca nas saias e nas blusas de mangas volumosas. A baiana Marcia Ganem inova ao trabalhar a poliamida de um jeito bem nordestino, fazendo a saia em renda de bilro.
As flores de tecido nos colares da Maria Bonita Extra também colocam em destaque o artesanal e todo o romantismo que deve tomar conta das ruas a partir de meados de agosto, início de setembro. É quando começam a chegar as primeiras fornadas da nova coleção. Mas não sem antes acontecerem os 52 desfiles da São Paulo Fashion Week, que terá início no dia 28.
No Fashion Rio valeu a canção que diz que o sertão vai virar mar. Não por acaso, o azul surge como estrela para contrastar com os tons áridos. Do índigo ao turquesa, lembrando que a água é essencial. Mais ainda no verão. Mara Mac descobre a caatinga nas texturas e no dourado dos reflexos do sol. O azul se faz presente, assim como na coleção da mineira Graça Ottoni, que fala de amor numa festa junina.
Na cartela de cores também há espaço para os verdes e amarelos, porque o Brasil está na moda. Quarenta convidados internacionais se revezaram nas primeiras filas para ver o que é que moda brasileira tem. O destaque para a moda praia fica para uma próxima edição.
Já o pink acende o desfile de Walter Rodrigues, que volta a fazer com a maestria de sempre os elegantes vestidos longos. O preto está de volta às passarelas. E foi em preto-e-branco que Karlla Girotto voltou a desfilar. Suas duas últimas participações no evento carioca foram instalações inusitadas.
Mais para branco do que para preto, o desfile paz e amor da Cavendish teve a participação ao vivo das Devotas de Hare Krishna, cantando enquanto as modelos apresentavam batas e calças saruel. O tal modelo de gancho bem baixo já vem ensaiando uma tomada de território há algumas estações, mas não vingou. Será que agora vai? E o que dizer da saia balonê? As grifes seguem tímidas nas suas apostas.
Para a Permanente, a forma do verão traz o conjunto volumoso de saia e camisa. Para viajantes modernas e práticas. Poderiam muito bem passar pelo Marrocos, inspiração-mor da TNG. Que venha o Verão. As fichas já estão na mesa.
* A jornalista Karla Matida viajou ao Rio de Janeiro a convite da organização do evento


