O risco está na boca
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de maio de 2000
Angela Raizer Barbosa 
Afinal, o que a gengiva tem a ver com coração, pulmões, rins, fígado? Segundo pesquisas recentes, pacientes com ateroesclerose, diabetes, nefrites, endocardites, hipertensão, stress, doenças do pulmão e do fígado, entre outras, podem apresentar aumento das reações inflamatórias quando sofrem de periodontite infecção na gengiva causada por bactéria. A entrada das bactérias orais no fluxo do sangue vem sendo relacionada, principalmente, às doenças do coração. Isso porque as bactérias provocam reações inflamatórias na boca e, a distância, podem facilitar a formação de placas gordurosas nas artérias coronárias vasos sanguíneos do coração contribuindo para a formação da aterosclerose coronariana que pode levar ao infarto.
Para o médico cardiologista Ricardo José Rodrigues, essa doença é causada pelo colesterol elevado, mas além dele existem outros fatores de risco como diabetes, hipertensão arterial, tabagismo e a questão genética, que aceleram essa doença a ponto de ela se manifestar precocemente, fazendo com que pessoas jovens sejam acometidas de infarto. No entanto, 35% dos portadores de aterosclerose que infartam não têm esses fatores de risco. Baseada nesse índice, a medicina vem estudando outras causas como a homocisteína e lipoproteína a aumentadas, infecções virais, clamídia e doenças inflamatórias crônicas, como é o caso da periodontite.
O cardiologista explica que a periodontite não é aceita pela comunidade científica como fator de risco maior, porém, sabe-se que contribui para a aceleração ou evolução da placa aterosclerótica. O bom senso exige que uma vez detectado o infarto, o paciente tenha suas gengivas examinadas para detectar a possível existência de periodontite. Não posso afirmar que ela seja responsável pelo infarto, mas é um fator a mais que pode atuar frequentemente na idade adulta. Ele cita estudos atualizados mostrando que pacientes portadores de doenças arteriocoronarianas têm maior prevalência de doença periodontal do que pessoas com boa saúde oral.
Como se manifesta Quando existe a doença periodontal, o suporte do osso do dente e a gengiva são destruídos, formando-se bolsas periodontais, onde a gengiva perde a aderência aos dentes, acumulando placa bacteriana entre a gengiva e a raiz. A periodontite é normalmente indolor e silenciosa até sua fase avançada. Segundo o cirurgião-dentista Antonio Eduardo Ribeiro, especializado em periodontia, as principais características da doença são retração e sangramento das gengivas, pus entre as gengivas e os dentes, mau hálito, mobilidade dos dentes e dor em casos agudos.
A maior incidência da periodontite ocorre em adultos, na faixa etária de 30 a 50 anos, o que não impede que idosos e crianças também apresentem a doença, só que em menor proporção. O diagnóstico e o tratamento podem ser feitos já na sua fase inicial, garante o dentista.
Como essa é uma doença que envolve várias outras, foi criado em Londrina o Centro de Integração e Atualização em Periodontia (Ciapec), com o objetivo de promover um estudo mais intenso, contando com o trabalho de uma equipe multidisciplinar de profissionais da área de saúde. O Centro atende gratuitamente pacientes de alto risco com doença periodontal, como cardiopatas, nefropatas, hipertensos, diabéticos, pneumopatas, entre outros, encaminhados por hospitais, centros de saúde, médicos e dentistas. Para Antonio Eduardo Ribeiro, idealizador desse projeto inédito no Brasil, o Ciapec busca a integração das áreas médica e odontológica na pesquisa e tratamento da periodontite.
Trabalhos científicos recentes mostram a necessidade desse enfoque não segmentando do paciente e da necessidade de um tratamento multidisciplinar, até pela complexidade da doença. O dentista faz, inclusive, um apelo aos médicos e dentistas da região para que encaminhem pacientes ao Ciapec, onde receberão tratamento gratuito. O Centro, que atua em parceria com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Estadual de Londrina, está instalado à Rua Ibiporã 1.001 esquina com Avenida J.K., fones 327-7421 e 327.0843 ou ainda no site www.ciapec.com.br, no qual pode ser acompanhada uma aula experimental. Através da Internet, os interessados poderão também tirar dúvidas com os membros do corpo clínico do Ciapec, a respeito de seus pacientes de risco, além de ter acesso aos artigos científicos e todas as novidades relacionadas à periodontia.


