O que querem as mulheres quando traem?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de abril de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Quando se fala em traição, muitas questões são levantadas e poucas respostas vem à tona. Quando o tema é traição feminina, a coisa quase se transforma em tabu, assunto proibido. Isso porque, para a maioria das pessoas, a traição feminina é algo inusitado, uma atitude pouco estudada e compreendida pela sociedade. Mesmo os dados existentes sobre o tema são confusos e conflitantes. Uma pesquisa feita pela antropóloga Miriam Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou que 47% das 1.300 mulheres entrevistadas são infiéis aos companheiros. Já em um estudo realizado pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas de São Paulo, o número de mulheres infiéis caiu para 23%.
A diferença nos resultados mostra o quanto é difícil para a população feminina assumir uma traição, ainda que seja apenas em uma pesquisa. Isso porque a sociedade não encara da mesma forma as traições do homem e da mulher. O homem que trai está apenas confirmando sua masculinidade, seguindo seus instintos, mas a mulher é vista como uma pecadora, inconsequente, que não merece respeito ou perdão.
Segundo o psicanalista Marcelo Castro, essa distinção entre os sexos realmente existe e tem uma explicação psicológica. ''O homem, desde pequeno, tem que sair de casa e buscar o amor de outra mulher, que não a sua mãe. Já a menina fica sempre sendo a princesinha do papai e leva esse amor paterno para a vida toda, na forma de respeito e dependência. Podemos dizer que a conquista é uma necessidade masculina'', explica.
Embora as mulheres tenham esse comportamento tipicamente masculino, algumas também também traem por vários outros motivos. Para a jornalista Lílian Víveros, autora de ''O Livro da Traição Feminina'', o motivo maior para a traição feminina é o amor, ou a falta dele. Para a autora, que ouviu inúmeras histórias de mulheres que traíram ou traem seus maridos, a infidelidade ocorre quando a mulher se vê apaixonada por outro homem ou quando percebe que não existe mais amor em seu relacionamento. ''Ninguém é infiel porque um dia acordou com vontade de ter um amante e quis experimentar'', afirma. Para ela, o estopim para uma traição é a crise nos relacionamentos misturada com a imaturidade dos parceiros envolvidos. ''Quem trai está enviando uma mensagem ao traído de que a relação precisa passar por uma análise mais profunda. Mas essa é uma maneira primitiva de fazê-lo'', diz.
De acordo com Lílian, um bom diálogo seria a melhor maneira de resolver problemas e evitar uma traição. ''O adultério não acaba com a angústia de quem traiu e ainda cria um problema a mais à relação, que é a mentira. Se as pessoas fossem mais honestas com elas mesmas, diminuiria muito o número de casais que traem'', comenta. Mas o caminho para resolver uma crise com o diálogo não é tão simples. Expôr mágoas e ouvir reclamações e críticas não é nada fácil, assim como também não é fácil mudar a maneira como nos comportamos com o parceiro. Mais simples e até interessante é buscar um novo amor, uma nova pessoa que vai trazer de volta a alegria da paixão, a emoção da descoberta e a deliciosa sensação de se sentir atraente e desejada.
Esses sentimentos são o grande diferencial quando se tenta discriminar a traição feminina da masculina. Segundo a autora, quando os homens traem, na maioria dos casos, estão à procura de sexo. Já a mulher quer romance, fantasia e sensualidade. ''Há casos em que o titular é melhor na cama do que o reserva'', completa. No estudo feito pela antropóloga Miriam Goldenberg, 41% das mulheres que afirmaram ter traído os maridos foram perguntadas sobre os motivos que as levaram a tal atitude. A maioria das respostas foi: insatisfação com o parceiro, falta de amor, atração por outra pessoa, vontade de experimentar outro homem.
Para Marcelo Castro, a coisa não é tão simples assim. Ele cita a pergunta feita, e não respondida, pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud: ''O que querem as mulheres?'' Segundo ele, a traição feminina é díficil de ser justificada. ''Se você perguntar a uma mulher o que ela quer de um homem, provavelmente ela terá dificuldades em responder. A mulher trai por não saber o que quer'', afirma.
Talvez seja realmente difícil dizer o que as mulheres querem de seus companheiros, mas a pergunta fica mais fácil quando é voltada para os amantes. No livro de Lílian Víveros são três as necessidades que as mulheres procuram suprir nos braços de outros homens que não os companheiros.
A mais comum, principalmente nos casos de namoros ou casamentos mais longos, é a busca de novidade. Segundo a autora, a mulher quer vencer o tédio e a rotina de um relacionamento de longa data. ''Não estamos falando de amor. Esse sentimento está reservado ao marido. O escolhido é visto como um príncipe de contos de fadas, que vai dar o beijo na bela adormecida e a fará despertar para a vida'', diz. Outra necessidade que a mulher busca suprir com um amante é o romance. Com tantas histórias de amor perfeito, vendidas pelo cinema, literatura e televisão, as pessoas passam a desejar algo parecido para suas vidas. No ínicio, o marido parece ser esse homem especial mas, com o tempo, as diferenças e dificuldades normais da vida a dois mostram que não é bem assim. ''A mulher se sente fragilizada e tenta repetir a fantasia adolescente de reviver um grande amor'', explica.
Infelizmente, depois de algum tempo, até o amante passa a apresentar os mesmos problemas, ou outros até piores, e a relação esfria e acaba. Um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que apenas 10% dos casais de amantes se casam ou ficam juntos depois do rompimento do outro relacionamento. ''É preciso ter em mente que um único parceiro não vai atender às nossas necessidades todos os dias, todos os anos'', esclarece Lívian. Por último, de acordo com a jornalista, existem as mulheres (uma minoria, ainda) que traem pela mesma razão dos homens: afirmação da sexualidade. Elas colecionam homens para reforçar a feminilidade, a sensação de atrair alguém diferente. Geralmente, elas não se envolvem emocionalmente com os amantes e vão trair seus companheiros sempre, ou até que o marido descubra. ''Em nossa sociedade, a mulher até aceita as puladas de cerca do marido por algum tipo de comodidade. Já o homem dificilmente aceita continuar com a mulher compulsiva por sexo'', alerta.
E mesmo com qualquer tipo de traição, o homem e a sociedade ainda têm dificuldades para aceitá-la quando parte da mulher. Para o psicanalista Marcelo Castro, talvez esse seja o motivo de as mulheres terem a fama de melhores mentirosas. ''A mulher é mais reprimida e precisa tomar mais cuidado com as traições, uma vez que sabe das dificuldades de ser perdoada pelo parceiro. Já o homem é mais desatento e deixa pistas dos casos extra-conjugais'', comenta. No entanto, Marcelo ele desmente a idéia de que existem pessoas que são traidoras natas. ''O ambiente é fundamental para que a infidelidade ocorra, seja feminina ou masculina. E ela sempre acontece a dois, entre o próprio casal, antes da chegada da terceira pessoa. Proibições, mágoas reprimidas e falta de diálogo também são traições'', garante. n
Serviço: ''O Livro da Traição Feminina'', de Lílian Víveros, Editora Matrix, R$ 15,90 na Bom Livro.


