Aquela máxima de ‘‘o que os olhos não vêem, o coração não sente’’ perde todo o sentido quando o assunto em questão é a violência moral, que geralmente é difícil de ser percebida, mas que é muito mais presente do que a agressão física.
  ‘‘Esse tipo de violência causa grandes seqüelas psicológicas e, pelo fato de a pessoa não ter instrumentos (recursos internos) para lidar com essa questão, ela acaba encarando aquilo como verdade’’, explica Rosa Maria Cardoso, psicóloga escolar e educacional.
  Segundo a especialista, geralmente a vítima de violência moral nas escolas atinge o aluno mais fragilizado, que possui características que o difere dos demais alunos. ‘‘Aí entra a questão de culpabilizar, no sentido de que ‘ele não faz as mesmas coisas que eu faço’ ou ‘ele tem uma atitude diferente da minha’. É como se fossem justificativas para esse aluno ser vítima e até para a autoria da ação’’, diz ela, que considera violência moral tudo aquilo que mexe com a auto-estima da pessoa, como apelidos, situações humilhantes, xingamentos, exclusão, além de conceitos de bullying – termo em inglês, utilizado para descrever atitudes agressivas, intencionais e repetidas, sem motivação aparente.
  Mas, o que motiva essa agressão? De acordo com ela, quem agride é sempre aquele que acha que tem o poder e que precisa se auto-afirmar, mostrando que é o melhor. ‘‘Se detectada alguma agressão moral, deve-se agir tanto com quem agride quanto com o agredido, pois quem agride precisa de tantos cuidados quanto a vítima. Esse tipo de atitude é um sinal de alerta de que algo não está bem com aquela pessoa’’, afirma.
  E para contornar as situações de conflito, Rosa defende que a escola tem o dever de trabalhar questões de respeito às diferenças, sensibilidade, humanidade e, principalmente, estimular o aluno a refletir sobre essas questões, na busca de uma solução para uma sociedade mais justa e igualitária.
Meninas x Meninos
  A psicopedagoga Kátia Pupo defende a idéia de que meninas e meninos enxergam a violência moral de formas bem diferentes. Segundo ela, as meninas esperam que eles sejam mais agressivos do que realmente são devido a um modelo social machista reproduzido na vivência escolar. Essa é a conclusão de seu mestrado, defendido pela Faculdade de Educação da USP.
  Kátia também afirma que mesmo desacreditados no poder do diálogo para resolver conflitos, esses adolescentes podem se sensibilizar na hora de escolher soluções pacíficas diante problemas interpessoais.
  Para chegar a tais conclusões, a psicopedagoga aplicou um questionário a 96 estudantes da 7ªsérie e do 2º ano do ensino médio, de escolas públicas e privadas, após apresentar uma cena hipotética de violência moral branda, na qual um aluno é desrespeitado na fila da cantina, sendo impedido de comprar o lanche.
  Nas questões apresentadas, os alunos falaram sobre o lugar da vítima, as alternativas para solucionar o problema e o que esperavam da reação da vítima caso fosse do sexo oposto. ‘‘Encontrei diferenças significativas nas representações femininas e masculinas, especialmente no que diz respeito à ação esperada do sexo feminino e masculino’’, diz.
  O resultado mostrou que 79% das meninas esperam dos meninos um comportamento violento, mas apenas 13% dos garotos desejariam reagir violentamente à situação. E isso levou a especialista a questionar a forma como alunos e alunas são orientados frente a situações de conflito, além de rever condutas arraigadas sexistas, que acabam reforçando os estereótipos de gênero construídos social e historicamente, na prática educativa no interior da escola.
  Para ela, a escola precisa discutir os papéis sexuais na sala de aula. ‘‘Não existe mais um modelo de comportamento para a mulher. O universo feminino foi ampliado e o masculino continuou preso a modelos tradicionais. Há uma pressão muito grande sobre eles em relação à honra, ao machismo, e por isso são estimulados a ter um comportamento violento’’, argumenta.
  A melhor solução, segundo ela, é que o profissional de educação reconheça em sua prática que existem diferenças e que elas estão presentes em qualquer situação educativa. ‘‘Não se pode, portanto, tratar de maneira igual alunos de sexo oposto, já que são diferentes, pensam diferente e têm atitudes e expectativas diferentes. Se o professor mantiver a neutralidade estará legitimando um modelo de conduta machista’’, ressalta ela, que também defende a necessidade de tirar da invisibilidade a violência que acontece na escola entre os alunos, desnaturalizá-la e torná-la motivo de indignação e reflexão.

Sem estatísticas
  A cena apresentada pela psicopedagoga Kátia Pupo para a pesquisa é leve, se comparada ao que realmente acontece diariamente nas escolas. A assessora técnica-administrativa da Secretaria Municipal de Educação de Londrina Karen Bettina Ikeda de Ortiz conta que recebe diversas denúncias de casos de agressão escolar, mas que não há estatísticas quando se trata de violência moral.
  ‘‘Geralmente, a própria escola faz a intervenção e, por isso, não há números sobre os casos de agressão moral, até porque costuma ser de difícil percepção. Porém, quando a violência se torna gravíssima, chegando a extrapolar o âmbito escolar, buscamos tratar o caso pessoalmente’’, explica ela, confirmando que os mais graves são incidentes nas turmas de 5ª à 8ª série.
  Para atender pais, professores e escolas em geral, Karen revela a existência de uma Comissão de Orientação e Investigação dos Casos Excepcionais, que atua em parceria com o Ministério Público, Conselho Tutelar, Grupo Sentinela e Juizado da Vara da Infância e Juventude.
  Quando procurada, a comissão orienta a escola e os professores a observarem todos os detalhes que possam indicar algum comportamento diferente por parte do aluno. ‘‘O segundo passo é dialogar e trabalhar valores de solidariedade, justiça e humanidade com todos os alunos, mas isso não deve ser feito só quando há necessidade e, sim, todos os dias. A violência moral fere a alma da criança, matando a oportunidade dela ser feliz’’, defende.

mockup