O que aconteceu com papai?
Angela Raizer Barbosa
Ele dá bronca? Pega no pé? Preocupa-se demais? Fica acordado a noite inteira esperando o filho chegar? Provavelmente, não. Se estivéssemos falando da mãe, com certeza, essas respostas seriam todas positivas. Mas, como o assunto é o pai, bem, a gente sabe que ele não se liga em sutilezas, não tem aquela intuição característica da mãe e, acima de tudo, é mais ausente e menos exigente. Enfim, é diferente. Mas, sempre foi assim? Para o médico psicanalista Marcelo Castro, é impossível falar do pai de hoje sem ter como referência o modelo de pai de outras gerações, em épocas que imperava a lei do mais forte.
O psicanalista sustenta que se compararmos o pai atual com aquele que monopolizava o poder familiar, constatamos que hoje essa figura está deteriorada. Um sinal disso é o declínio bastante evidente do perfil clássico do pai causado, principalmente, pelas mudanças comportamentais e tecnológicas dos últimos anos. O psicanalista cita o livro O Manto de Noé - Ensaio sobre a Paternidade, em que autor, Felipe Julien, caracteriza muito bem essa transformação da figura paterna na sociedade atual.
Marcelo Castro argumenta que o pai contemporâneo vive a era da globalização, da comunicação virtual, das crises econômicas, da fragmentação do poder, da fertilização in vitro - fazendo com que a mulher possa até dispensar a presença do homem para gerar um filho. Essas transformações segundo ele, modificaram o perfil familiar e acabaram com o modelo clássico de criação; consequentemente, está ocorrendo uma gradual renúncia do pai ao papel de educador e formador de gerações. A divisão de responsabilidades financeiras com a mulher, por exemplo, é muito mais frequente do que no tempo de nossos avós, o que faz com que o homem tenha que abrir mão também do poder tradicional. Isso sem falar da revolução feminista, que começou nos anos 70 e não parou mais. Ainda está faltando uma revolução masculina, no bom sentido, para o homem aceitar melhor os avanços da mulher, alerta o psicanalista.
Geração abandonada Marcelo Castro observa que muitos pais não se dão conta que também estão relegando à mulher a responsabilidade de manter a casa em ordem, em todos os sentidos. Dentro de casa, o pai está se confundindo com os próprios filhos, ou seja, é mais um filho para a mãe tomar conta, uma eterna criança. A mãe é provedora de afeto, disciplina e, sobretudo, de presença. Na opinião do psicanalista, a situação se complica quando a mãe também trabalha fora e o pai não divide com ela as tarefas domésticas e a educação dos filhos. É preciso que alguém esteja cuidando das crianças, conversando com elas, saber o que estão fazendo. No entanto, elas ficam à mercê dos amigos, da televisão, do computador e da Internet. É a geração de crianças e adolescentes abandonados. Depois, nos assustamos com os altos índices de consumo de drogas e de suicídios.
Marcelo Castro sustenta que muitas patologias e neuroses têm sua origem nesta falta de pai, que não se resume à presença física. Muitos sentem-se temerosos porque se esquecem que têm direito a aprender a ser pais, convivendo mais com os filhos. Estão meio perdidos, sem saber que rumo tomar, nem como se comportar. Entram em conflito porque querem repetir o modelo de educação no qual foram criados e não se dão conta que têm a chance de construir uma experiência única com os próprios filhos. Eu, por exemplo, tenho dois filhos e estou aprendendo com eles a ser pai. Como profissional e como pai sou testemunha que, quando nos aproximamos e conversamos com os filhos, temos uma experiência enriquecedora. Ousamos transgredir nossos temores e aprendemos a escutar o que os filhos têm a dizer. Sofremos também, na medida em que nos fazemos pais e participamos do dia-a-dia deles, acrescenta Marcelo Castro.
Limites Não há dúvida que a família está refletindo hoje a crise ética em que toda a sociedade está mergulhada. Para o advogado José Carlos Vieira, pai de Felipe, 15 anos, e Leonardo, 20 anos, não é a figura do pai que está em declínio; o padrão de comportamento moral é que está diferente, o que faz com que seja muito complicado educar. Ele argumenta que os jovens estão sendo bombardeados pela multiplicidade de ofertas de consumo e de informações, o que lhes dá mais independência e nos tira a autoridade. Nossos filhos estão conectados com o mundo desde crianças, e o conhecimento liberta as pessoas.
O drama, segundo ele, é saber estabelecer limites e tentar prevenir as consequências dessa liberdade numa sociedade massificada. Os adolescentes estão padronizados pelos valores difundidos pela sociedade de consumo - eles fazem as mesmas coisas, usam a mesmas roupas, falam as mesmas gírias e vão aos mesmos lugares. Assim fica difícil estabelecer uma conduta e exigir um comportamento individualizado, afirma. A dificuldade de os pais manterem o seu lado protetor também é percebida pelo advogado, preocupado com o fato de não conseguir proteger os filhos contra os perigos que rondam os jovens lá fora. Eles não perguntam mais se podem sair à noite, simplesmente nos comunicam que estão saindo. Se os obrigamos a ficar em casa, ficam revoltados porque todos os amigos vão sair, observa José Carlos Vieira. Para ele, no entanto, essa autonomia também tem suas vantagens. O relacionamento está mais aberto, mais amigável, não existe aquela figura venerável do pai, senhor da casa.Psicanalista afirma que transformações comportamentais e tecnológicas deterioraram o perfil clássico do pai
Daniel ProcópioO advogado José Carlos Vieira, com os filhos Felipe e Leonardo, diz que não é a figura do pai que está em declínio; o padrão de comportamento moral é que está diferente





