O teste do pezinho, que hoje é obrigatório em todos os hospitais e maternidades, pode evitar lesões irreversíveis como, por exemplo, a deficiência mental. Apesar disso, a lei que estabelece sua aplicação é bastante recente no Brasil. No Paraná, ela está completando 13 anos e foi sancionada em 9 de dezembro de 1987, pelo então governador Álvaro Dias.
O que poucos sabem é que a aprovação desta lei aconteceu após um fórum sobre deficiência mental promovido pelo Lions Clube Londrina-Centro. O evento destacava a importância da realização do teste do pezinho na prevenção de inúmeras doenças. Treze anos depois, a lei consta do Estatuto da Criança e do Adolescente, mas ainda não é aplicada em 100% dos recém-nascidos brasileiros. Muitas crianças que nascem na zona rural e em pequenas cidades do interior não são beneficiadas por este exame.
Segundo o médico ginecologista e ex-professor do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Henrique Alves Pereira Júnior, inicialmente o teste do pezinho foi concebido apenas para detectar a fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito. ‘‘Atualmente, além deste teste básico, já existem o teste ampliado e o plus para diagnosticar patologias como fibrose cística, galactosemia, toxoplasmose congênita e deficiência de biotinidase’’, informa o médico.
O teste do pezinho é feito com amostras de sangue coletadas do pé do recém-nascido a partir do terceiro dia de vida. ‘‘Os distúrbios metabólicos detectados podem ser tratados quando o diagnóstico é precoce, antes que a doença se manifeste’’, esclarece. O índice de doenças detectadas através do teste do pezinho é estimado em 1 a cada 3 mil nascimentos. Embora pareça pouco, o diagnóstico desses casos significaria a prevenção de mais de 60 casos de deficiência mental por ano em um Estado como o Rio Grande do Su, por exemplo.
Troca de leite Henrique Alves Pereira lembra que no final da década de 70, o pediatra e professor da Universidade de São Paulo, Benjamin Schimidt foi ridicularizado por defender o teste do pezinho. ‘‘Ele foi um dos primeiros a destacar a importância da realização deste exame. Entretanto, muitos profissionais da área de saúde achavam sua luta desnecessária porque o índice era muito baixo. A questão é como explicar para os pais que o filho será um deficiente mental porque o teste do pezinho não foi realizado, considerando que o índice de detecção da doença é muito pequeno?’’, questiona o médico.
A fenilcetenúria é uma das patologias mais conhecidas e temidas, porém, é totalmente curável se diagnosticada a tempo. ‘‘Esse defeito se deve à ausência da enzima que transforma o aminoácido fenilalanina, existente em todos os leites, em outro aminoácido, chamado tirosina. Quando isso acontece o fenilalanina se torna nocivo ao organismo, levando ao retardo mental’’, explica o médico.
Para evitar isso, basta que o pediatra orienta que o leite normal seja substituído por um especial que não contenha o aminoácido. ‘‘Como se vê, uma simples troca de leite pode salvar uma família de uma tragédia cruel’’, constata Henrique Alves. Outro defeito congênito é hipotiroidismo que pode ser detectado através da coleta de sangue do calcanhar do recém-nascido. ‘‘Essa doença também leva ao retardo mental’’, acrescenta o médico.

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