O psiquiatra Içami Tiba concorda com Richer e diz que o mundo da criança hoje é muito diferente do mundo em que os pais viveram. ‘‘O deslocamento geográfico aumentou, fazendo o circuito entre apartamento, playgrond do prédio, shopping e escola. Mas perdeu o contato com terra, rua, numa proteção extrema contra a insegurança física e a sujeira. Diz mais: ‘‘As crianças estão indo para a escola recém-nascidas, ficam em ambientes limpos demais. É o caos’’. Segundo ele, agora o prazer da brincadeira infantil está no dedo. ‘‘Criança adora apertar botões, dá um poder muito grande. Aperta um, aparece uma imagem na tela, aperta outro, o elevador sobe ou desce, aperta outros, a boneca fala, o carrinho se movimenta... e por aí vai. O mundo é outro e a diversão mudou. O risco maior é da poluição mental e não da sujeira corporal.’’
  ‘‘Sujar-se é parte inalienável do desenvolvimento infantil’’, garante a presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar, Marilena Flores. Ela prega o contato com a boa sujeira a partir dos 3 meses de idade, com exceção das crianças geneticamente alérgicas, que não podem ter contato com animais, pêlos, poeira. ‘‘Fora isso, água, terra, grama, plantas, insetos, aves e animais formam uma diversão enriquecedora. Não oferecemos mais a possibilidade de brincar com o pé no chão, mesmo em ambientes fechados’’, alerta.Para ela, ‘‘ até as escolas, notadamente as particulares, se transformaram em guetos, protegidas e limpas demais. Eu não quero que as escolas sejam sujas, mas que permitam brincadeiras ao ar livre, na terra. A natureza oferece todo o tipo de estímulo para os sentidos, é a maior aliada na educação e no desenvolvimento da criança’’, avalia. (A.R.B.)

mockup