O peso do saber
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
A farmacêutica e bioquímica Rosana Ribeiro Parra sempre ouve a mesma reclamação quando a filha, Lívia, 10 anos, chega da escola dor nas costas. ''Ela até pede para eu fazer massagem'', conta. A causa do problema é uma velha conhecida de muitos pais: mochila pesada demais.''A escola pede muito material. É um peso absurdo para a criança carregar'', protesta a mãe.
A alternativa mais indicada pelos especialistas mochila de rodinhas está fora de questão para Lívia. ''Há dois anos, ela ainda usava. Mas agora que está ficando mocinha diz que é coisa de criança'', relata Rosana. Outra justificativa da garota é a dificuldade de puxar a mochila de rodinhas nas escadas da escola. A solução mais viável, para a farmacêutica, é a intervenção da instituição. ''Na minha opinião, a escola tinha que planejar essa distribuição de material durante a semana. Ou ter um local para que a criança pudesse deixar o material mais pesado e levar apenas o caderno na mochila'', sugere. Segundo Rosana, o colégio particular onde a filha estuda disponibiliza armários, mas cobra uma taxa pelo serviço. ''E não é barato'', reclama.
Bom senso O ortopedista Leopoldo Hoffmann Storti observa que a resistência à mochila de rodinhas não é apenas dos pequenos. Muitas vezes, os próprios pais preferem o modelo tradicional porque a versão com rodas é mais difícil de ser transportada no carro.
De acordo com o médico, se tiverem que optar pela mochila convencional, os pais devem preferir os modelos que ficam na região cérvico-dorsal, com adaptação para os ombros. Devem ainda ficar de olho na forma como os pimpolhos carregam o peso. Nada de colocar a mochila em um só ombro ou carregá-la em uma das mãos.
O uso contínuo de mochilas demasiadamente pesadas, alerta Storti, pode piorar um desvio na coluna já existente ou causar problemas como escoliose, lordose e cifose, atendidos com bastante frequência no consultório. ''O excesso de peso carregado durante a infância vai se refletir na adolescência e na vida adulta'', avisa.
Segundo ele, não existe um peso mínimo que não traria prejuízos à criança indicado para cada faixa etária. ''Cada um tem um biotipo, alturas diferentes, mais ou menos massa muscular. É preciso existir bom senso por parte dos pais, das escolas e da criança para evitar excessos, que são bastante comuns. Tem criança que até anda torta'', observa o ortopedista.
Para se ter uma idéia dos exageros cometidos, Storti faz uma comparação: ''Se uma criança que pesa 30 quilos leva três quilos de material na mochila, está carregando 10% de seu peso corporal. Isso equivale a um adulto de 80 quilos carregar diariamente oito quilos''.
Para piorar o quadro, a maioria das crianças leva hoje uma vida sedentária, com pouca atividade física. O impacto das mochilas pesadas é bem maior em corpos com estrutura muscular pouco desenvolvida. ''Com uma massa muscular melhor, elas estariam mais preparadas para pequenos excessos de peso. Por isso, os pais devem incentivar seus filhos a fazer exercícios'', aconselha o ortopedista.
Modismo Armários individuais para guardar o material que não será usado nas aulas do dia seguinte foi a solução adotada pelo Colégio Universitário para poupar os alunos. ''Trabalhamos com livros didáticos e não com apostilas. É inviável carregar tudo'', constata a coordenadora de 5 a 8 série, Carla Rocco. Os alunos só têm que chegar um pouco mais cedo para utilizar o recurso, pois não é permitido pegar material durante as aulas.
De acordo com Carla, cerca de 98% dos armários disponibilizados pelo colégio estão ocupados. O uso das mochilas, para ela, é muito mais uma questão de modismo do que de necessidade. ''Eles carregam as coisas deles. Hoje tem muita novidade no mercado. E as mochilas têm repartições para guardar 'a casa inteira'. Mas o peso maior fica no armário. Esse tipo de reclamação a gente não tem'', diz.
No Marista, reclamações dos pais sobre o assunto são eventuais, relata a assessora pedagógica do ensino médio, Rosane Gomes. ''A escola procura facilitar, dentro do possível, o uso do material'', garante. Para isso, também instalou armários disponíveis aos alunos por uma taxa de R$ 65,00 anuais, destinados à manutenção: reposição de chaves em caso de perda, limpeza, pintura e pagamento do funcionário responsável pelos serviços.
Ano passado, dos 200 armários disponíveis, 130 foram ocupados. ''A maior utilização é feita pelos alunos dos ensino médio e de 5 a 8 série'', diz Rosane. De acordo com ela, a escola distribui um folder, no momento da matrícula, informando os pais sobre os perigos da mochila pesada e sobre a existência dos armários. ''A decisão sobre usá-los ou não fica a critério deles'', esclarece a assessora.n


