Falta de orientação em relação aos riscos ambientais expõem as crianças e os adolescentes aos acidentes e à violência. No Brasil, os acidentes e a violência são a primeira causa de mortalidade a partir do quinto ano de vida até a adolescência, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Trata-se de uma questão de educação preventiva e de saúde pública com ônus para a sociedade e impacto sobre a morbi-mortalidade. Este foi um dos temas do 57º Curso Nestlé de Atualização em Pediatria, que termina hoje em Belo Horizonte, dando ênfase à Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes e Violência na Infância e Adolescência. Durante o evento foi apresentado um balanço da campanha, lançada em outubro de 98 pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e filiadas, em parceria com o Ministério da Saúde.
Outras duas fontes confirmam a importância destes fatores na causa da mortalidade infantil. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) comprova as ‘‘causas externas’’ – violência e acidentes domésticos – como segundo fator em importância. Já segundo o Ministério da Saúde, de acordo com dados de 1996, na faixa etária que vai de cinco a 19 anos, as causas externas estão em primeiro lugar. Naquele ano foram 22.012 óbitos na faixa abaixo de 19 anos, o que corresponde a 19,5% de toda a mortalidade. Em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, este percentual cresce, incluindo as crianças menores, na faixa de um a quatro anos.
Ações educativas Desde outubro de 98, a Sociedade Brasileira de Pediatria vem colocando em prática uma série de ações educativas em comunidades cujo risco de acidentes e violência com crianças e adolescentes é elevado. Este trabalho é realizado com apoio de parcerias estratégicas, envolvendo a Organização Panamericana de Saúde, a Unicef, o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, artistas e empresas. Foram feitas parcerias locais com prefeituras, secretarias estaduais e municipais de saúde.
A SBP, com apoio do Programa de Saúde da Família no Estado de Minas Gerais, conseguiu a aprovação de um projeto em lei estadual. Esta lei determina que quando o paciente passar em consulta nos postos de saúde e nas escolas deve, obrigatoriamente, receber informações sobre prevenção de acidentes e de violência doméstica. Para isso, os profissionais de saúde estão recebendo uma preparação para instruir de forma adequada os pacientes.
Prevenção Acidentes domésticos de todos os tipos ocorrem frequentemente com crianças brasileiras e, para cada uma dessas ocorrências que chega até um serviço médico, estima-se que 500 outras passam despercebidas, não são relatadas ou são subnotificadas, o que pode levar a sequelas e até mesmo incapacidade permanente das crianças. No entanto, muitos desses acidentes podem ser evitados e a violência prevenida.
Para a médica Maria Tereza Fonseca da Costa, presidente da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro, as causas externas podem ser prevenidas. Numa pesquisa sobre o tema, foi observado que em 80% dos casos de acidentes, os pais nunca haviam sido alertados sobre os riscos. ‘‘O pediatra tem um papel fundamental na prevenção dos acidentes. A informação e orientação para a família e o adolescente devem destacar os diferentes tipos de prevenção’’ comenta ela. E complementa dizendo que é fundamental investir na formação e capacitação do médico, para que se possa adequar e individualizar o atendimento da criança acidentada ou que tenha sofrido violência.
Os mais comuns Entre os acidentes mais comuns dentro de casa estão as quedas, os traumatismos, as queimaduras, as intoxicações, os afogamentos e a ingestão de corpos estranhos. Fora de casa são muito frequentes os acidentes de trânsito, picadas por animais peçonhentos e intoxicação de modo geral, além de violência contra crianças e adolescentes.
Existem também os fatores psicológicos que predispõem as crianças aos acidentes, incluindo comportamentos como introversão, impulsividade, tendência a ser facilmente sugestionável, pensamento fantasioso e incompreensão dos perigos. Esses fatores são agravados pelas condições do ambiente familiar, como superproteção ou rejeição, exemplos de atitudes perigosas por parte de familiares ou de personagens do TV e do cinema.
‘‘Acidente não é fatalidade, eles podem ser evitados com cuidados especiais e preocupações que devem se tornar um hábito familiar’’, comenta a médica Rachel Niskier Sanchez, coordenadora executiva da Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes e Violência na Infância e Adolescência.

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