‘‘O uso regular e frequente de analgésicos transforma, a longo prazo, a
dor que não era constante em sintoma que se manifesta todos os dias’’, alerta
Getúlio Daré Rabello, responsável pelo Ambulatório de Cefaléia do Hospital de de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É certo que nove a cada dez pessoas já sofreram de dor de cabeça ao menos uma vez na vida. No Brasil, pelo menos 30 milhões de pessoas conhecem bem a aflição de sofrer de enxaqueca.
O problema está justamente em como essas pessoas estão se tratando. O hábito de consumir analgésicos sem prescrição ou acompanhamento médico é corriqueiro no Brasil. Quando não é o próprio paciente com cefaléia que se automedica com um determinado analgésico já conhecido, são os balconistas das farmácias, amigos ou vizinhos que recomendam medicamentos nos quais confiam.
Ao tentar se automedicar sem combater as causas da dor e sem orientação para
um tratamento preventivo, os pacientes geralmente relatam que seus sintomas
evoluem gradualmente para a piora: ‘‘Sob constante ação de analgésicos, o
sistema serotoninérgico vai sendo mais neutralizado e perde suas defesas,
causando a tolerância e a dependência. Um círculo vicioso bem conhecido é
construído. Primeiro a dor, depois o uso de analgésicos e em seguida a
melhora. Depois, novamente a dor, mais analgésicos e assim por diante’’,
explica o médico Abouch Valenty Krymchantowski, diretor e fundador do Centro de Avaliação e Tratamento da Dor de Cabeça do Rio de Janeiro.
Os riscos associados ao consumo indiscriminado de analgésicos vão de uma
reação alérgica, que em casos graves pode resultar em asfixia mecânica e
morte, até doenças renais, depressão e hipersensibilidades próprias de cada
paciente, incomuns, que resultam em reações inesperadas e que, não sendo
diagnosticadas a tempo, também levam ao óbito.
Por ser, em grande parte dos casos, uma doença bioquímica do cérebro transmitida geneticamente, a enxaqueca – um tipo de cefaléia – não pode ser totalmente curada. Porém, tratamentos corretos e eficazes podem reduzir a incidência, a intensidade e a duração das crises em mais de 90%. ‘‘O mais importante é esclarecer e orientar o paciente, o que também envolve conscientização da população contra a automedicação abusiva’’ , diz Krymchantowski.

mockup