O novo homem - Ele cuida da pele, do corpo e do guarda-roupa com a mesma dedicação feminina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de abril de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Há alguns anos, sair de uma sessão de esfoliação e dar de cara com um homem na sala de espera da clínica de estética só tinha três prováveis explicações: 1 o sujeito em questão era um marido que aguardava a esposa; 2 era o técnico responsável pela manutenção das máquinas de bronzeamento artificial; 3 ou o representante de um novo produto de beleza. Se o tal sujeito não se encaixasse em nenhuma dessas possibilidades, as chances de ele olhar para uma mulher com interesse eram as mesmas de a celulite dela sumir completamente depois da drenagem linfática...
Pois hoje, o tal cara não apenas flertaria com a tal mulher como também poderia indicar a ela, com total conhecimento de causa, o melhor tratamento para acabar com os pneuzinhos indesejáveis. Se a tática dele funcionasse e o papo se estendesse em um jantar, ela certamente se encantaria com o cavalheirismo e mais ainda com o visual dele (ainda que relutasse contra a idéia de que homens de verdade não se vestem tão bem assim). Essa cisma se agravaria quando ela notasse que ele depilou as sobrancelhas e um arrepio lhe percorreria a espinha ao constatar que as mãos dele estavam tão bem-feitas quanto as dela.
A idéia aterrorizante que começaria a torturá-la de que com ele seria mais provável trocar receitas do que beijos ardentes se dissiparia no final da noite, depois de horas de conversa sobre spas inesquecíveis, cinema de boa qualidade e viagens internacionais. E a cisma acabaria de vez, quando, ao pagar a conta, ele, sedutoramente, fizesse a clássica pergunta: na minha casa ou na sua?
Testosterona Ao contrário do que muitas mulheres podem estar imaginando, homens assim não existem apenas na ficção. Eles são bem reais e pertencem a uma nova categoria masculina: a dos metrossexuais. O termo foi criado há 10 anos pelo jornalista inglês Mark Simpson, mas só ganhou força ano passado, por conta de um estudo especial, feito por uma agência de Londres, que causou rebuliço no mercado de produtos dedicados à vaidade masculina. Segundo a pesquisa, os tais metrossexuais correspondem a nada menos do que 15% dos homens com idade entre 25 e 45 anos que vivem nas grandes cidades ou próximas a elas.
Na definição da categoria, entram aspectos como usar cremes faciais e corporais diariamente, visitar o cabeleireiro pelo menos uma vez por mês, preferir vinho a cerveja, não ter vergonha de chorar durante um filme, usar somente roupas de qualidade e estar antenado com as tendências da moda. Em suma, características marcantes de outro público adorado pelo mercado fashion: os gays. Mas, apesar de estarem posicionados no mesmo segmento mercadológico, ambos têm preferências sexuais distintas: o metrossexual é macho.
Para quem duvida disso, a melhor resposta foi dada pelo símbolo supremo da categoria, o jogador de futebol inglês David Beckham, que provou ter alto teor de testosterona no corpinho torneado pelo esporte: suas escapadas extra-conjugais viraram assunto preferido da mídia dias atrás. Roupas elegantes, unhas pintadas, sobrancelhas depiladas, cabelos com luzes (e até o uso das calcinhas da mulher) são alguns itens na biografia do craque-celebridade.
Apesar de o padrão típico de comportamento do metrossexual estar mais presente nos grandes centros urbanos, a tendência já pode ser observada em todos os cantos. De acordo com a reportagem que popularizou o termo, publicada pelo The New York Times, cada vez mais homens comuns começam a apresentar qualidades metrossexuais mesmo sem saber.
Madeixas em dia O publicitário e apresentador de TV Rafael Laffranchi, 28 anos, acha que o público masculino está cada vez mais vaidoso. E que hoje o hábito de se cuidar começa cedo. ''Nas festas que eu cubro, vejo garotos de 15 anos caprichando na produção; estão preocupados com a aparência'', observa ele, que não fica atrás. ''Procuro estar por dentro das tendências e sempre que posso leio revistas bacanas como a Audi e a Daslu Homem'', conta.
Cliente da Zoomp, que ''tem um corte que cai bem e roupas que duram anos'', Rafael atribui o seu zelo com o visual aos tempos do estágio no departamento de marketing do grupo Odebrecht, em São Paulo. ''Lá, as pessoas trabalham muito bem vestidas'', justifica. Mas os cuidados com a aparência não se limitam ao seu guarda-roupa. Por conta do trabalho na TV, Rafael precisa ter as madeixas sempre em dia e, por isso, frequenta o cabeleireiro duas vezes ao mês. De olho na balança, se exercita três vezes por semana e, para manter a pele em dia, submete-se a sessões de esfoliação mensalmente.
No final das contas, ele calcula que 20% de seu salário é dedicado aos gastos pessoais. A namorada agradece, sobretudo quando ele banca o chef. ''Não cozinho regularmente, mas gosto e tenho alguns livros de receitas'', conta Rafael, que entre um copo de cerveja e uma taça de vinho, nem pensa duas vezes. ''Fico com o vinho, com certeza''.
Apontado por todos que o rodeiam como um vaidoso de carteirinha, o personal trainer Renan Goulart, 25 anos, é rigoroso com a alimentação: dispensa açúcar e frituras, come alimentos integrais e raramente bebe. Seus cuidados com a forma física chegam a ser quase obsessivos treina de cinco a seis vezes por semana e adora um espelho. ''Não posso engordar uma grama. Tem que ter só pele no abdome'', diz. Apesar de reconhecer a própria vaidade, ele é categórico: ''Passo longe desse metrossexual''.
Para Renan, o apelo visual ainda tem que ser da mulher, que, segundo ele, não dá tanta importância assim à aparência masculina. ''Ter auto-estima e se sentir atraente para a namorada é saudável, mas tudo tem limite. Um cara muito vaidoso até incomoda a mulher. Fica uma competição'', acredita. Modelo desde os 18 anos, ele já passou por situações que considerou embaraçosas para a sua masculinidade. ''Quando eu tinha que fazer bronzeamento artificial, chegava na clínica e toda mulherada olhava. Eu fazia questão de perguntar, em voz alta, se alguém da agência tinha ligado. Queria deixar bem claro que estava ali por causa do trabalho''.
O comportamento de Beckham não tem nada de autêntico para Renan. ''O cara é um astro, lança moda. É marketing pessoal puro, uma forma de se destacar entre os outros jogadores. Ele não tem um dos maiores salários do meio só porque é bom de bola'', argumenta.


