No filme ‘‘Náufrago’’, o funcionário dos correios norte-americano Chuck Nolland, interpretado por Tom Hanks, após um acidente aéreo, fica perdido por cinco anos em uma ilha deserta. Para não ficar louco, ele começa a conversar com uma bola de beisebol que restou de sua bagagem, dando a ela o nome de Wilson. Para Wilson, Nolland conta seus segredos, seus planos e, de vez em quando, trava uma briguinha.
Essa referência ao filme é importante quando se fala em solidão, afinal, ninguém vive sozinho. ‘‘O homem nasceu para interagir com o outro’’, afirma a psicóloga Antonia Mara Tomaseti Marcondes. Para ela, a solidão não consiste em estar só, mas ser solitário, sentir-se só. ‘‘Portanto, é um sentimento, não é um fato. A pessoa está rodeada de amigos, mas sente-se sozinha’’, acrescenta.
A psicóloga ressalta que, às vezes, a solidão é saudável porque o ser humano precisa de um momento só seu para se conhecer melhor. ‘‘Experimentar a consciência do Ser. Basta observar um bebê, ele fica horas e horas sozinho no berço olhando para o teto e fazendo gestos com as mãos, ouvindo os sons e observando as formas, no entanto, ele não se sente sozinho. É nesses momentos que ele aprende a conhecer o mundo’’, compara Antonia Mara. A solidão, segundo ela, se torna um problema quando a pessoa se recusa a interagir com os outros, quando é um sentimento ‘‘ad eterno’’.
Para a psicóloga existem três momentos de grande solidão em nossas vidas: o nascimento, a passagem da infância para a adolescência e o momento da morte. ‘‘São três momentos só nossos. Ninguém, por exemplo, pode morrer pela gente’’. Mas Antonia Mara aponta também o desenvolvimento urbano e a tecnologia pela individualização das pessoas. ‘‘Hoje, somos muito valorizados pelo que temos e não pelo que somos. Existem pessoas que não têm valores internos para valorizar a si mesmas, tudo o que elas têm são bens materiais, o que pode provocar um profundo vazio’’, observa.
Dentro desse contexto, a psicóloga cita como exemplo pessoas que quando não se vêem projetadas na sociedade, sentem-se abandonadas. ‘‘São indivíduos muito dependentes da realidade externa e não interna’’. Segundo a psicóloga, para sair da solidão é preciso ser solidário, dar um pouco de si aos outros. ‘‘Quando sou solidário, eu abro espaço para o outro’’, específica Antonia Mara.
A solidão do cientista
Existem determinadas atividades que exigem uma solidão voluntária. A do cientista e a do escritor, por exemplo. ‘‘No entanto, essa é uma solidão diferente. Ela funciona como recurso de concentração e produção, não expressa insatisfação’’.
Porém, isso não deve ser motivo para ninguém se isolar da sociedade. ‘‘Viver é trocar capacidades, e ninguém pode se dar ao luxo de se afastar disso, dessa lei da vida’’, defende Antonia Mara. Segundo ela, mesmo que muitas vezes essa troca não seja favorável a nós, não podemos fugir dela’’.
É o que acontece em ‘‘Náufrago’’, quando Nolland vivia para o trabalho, não encontrando tempo sequer de partilhar seus sentimentos com a namorada e com os amigos. Mas, quando fica sozinho na ilha, descobre a importância do outro e precisa transformar uma bola em um amigo para não enlouquecer. (C.M
Características do solitário
• Tem dificuldade de interagir
• Não se expressa e não dá opiniões
• Não fala de seus sonhos e sentimentos
• Geralmente são pessoas pouco ousadas

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