O mito do casal perfeito
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
Erica Shimamura<br> Reportagem Local 
Cultivar um relacionamento amoroso não é tarefa fácil para ninguém. Alguns casais conseguem passar por desentendimentos, tropeços, crises, e ainda assim sobreviverem numa boa. Outros não têm tanta sorte. Logo nos primeiros anos, o relacionamento acaba. Então fica a dúvida sobre quais as variáveis que influenciaram a história do casal que não deu certo. Uma das hipóteses levantadas pela psicóloga Simone Oliani, especialista em análise do comportamento, está ligada aos mitos que acabam atrapalhando o relacionamento íntimo entre homens e mulheres.
Máximas como ''o casal tem de fazer tudo junto'', ''marido e mulher devem ser os melhores amigos'', ''o casamento vai ser a realização dos meus sonhos'' ou ainda ''preciso fazer o outro feliz'' fazem parte de uma lista imensa de crenças que não fazem muito sentido à primeira vista, mas que permeiam, lá no fundo, os anseios de muita gente quando o assunto é projetar um futuro a dois.
O romantismo exacerbado também está no rol dos mitos que podem afetar negativamente o relacionamento. A psicóloga explica que, normalmente, esse sentimento está mais associado às mulheres, que acabam criando uma expectativa romântica de que o outro sempre vai lembrar de todos os momentos e datas especiais de maneira surpreendente. ''Às vezes, o homem se lembra ou deu uma atenção especial à mulher, mas não da forma que atendesse às expectativas criadas'', comenta. De acordo com a especialista, geralmente, o aspecto romântico em uma relação está ligado à história de cada um, ou seja, é preciso analisar qual é o significado que aquela data específica significa para ele ou para ela.
A idéia de que os parceiros precisam ser os melhores amigos é outra questão equivocada na visão da psicóloga. A especialista entende que isso não quer dizer que o companheirismo e a cumplicidade sejam deixados de lado. O importante é o casal continuar cultivando amizades e manter um bom grupo social. ''Os dois devem ter outros amigos com os quais possam compartilhar seus problemas porque, se eles tiverem um conflito na relação, terão com com conversar'', recomenda.
E se os mitos são aprendidos socialmente, significa que eles também podem mudar ao longo das décadas. Simone explica que valores religiosos, aspectos culturais e históricos vão influenciar a construção dos mitos do relacionamento. Um exemplo clássico dessas mudanças é a idéia que se tem atualmente do casamento. ''Se antigamente não se concebia a mulher trabalhando fora e dividindo as tarefas da casa com o marido, hoje é bastante comum encontrar casais que vivem assim. No passado, as pessoas também achavam que era melhor um casamento infeliz do que um lar desfeito'', relembra.
Comunicação afetiva
Diante de tantos mitos e crendices, como resolver os problemas de um relacionamento? Para a especialista, a principal causa das dificuldades vividas por um casal está na falta de comunicação efetiva. E reside nessa questão um mito bastante corriqueiro. ''Acredita-se que quem ama de verdade deve adivinhar o pensamento do outro. Dentro do romantismo, esse mito se encaixa muito bem porque você pode até amar o outro, mas se ele não confessar o que espera de você, não é possível adivinhar'', afirma.
Discutir a relação pode ser a solução para muitos problemas do casal, mas nem sempre é o melhor caminho a ser seguido. Para Simone, quando o casal briga, geralmente não consegue ouvir o outro já que as conversas podem ser encaradas como um festival de críticas, que ao invés de esclarecer servem para magoar o parceiro. ''Sob a influência de fortes emoções o confronto pode resultar em mais brigas'', aponta.
Quando buscar ajuda
Segundo a psicóloga, o principal sintoma a ser identificado na hora de pensar em buscar ajuda é o sofrimento. Se um dos parceiros identifica que está acontecendo uma crise, pode ser a hora de buscar ajuda. ''Quando um dos dois se sente insatisfeito e começa a sofrer, já tentou melhorar o diálogo e não conseguiu, é importante procurar ajuda profissional para poder avaliar o problema, partindo de uma outra perspectiva''.
A terapêutica pode ser feita com o casal ou de maneira individual, na verdade tudo depende do conflito apresentado. ''É importante eles terem conhecimento mais profundo de quais variáveis estão presentes para que aquele sintoma de sofrimento apareça. A terapia de casal vai trabalhar a causa e não o sintoma. A análise é um pouco mais profunda'', explica.
Assim, o profissional vai procurar fazer uma integração de aspectos históricos, individuais de cada parceiro na relação, e as expectativas que eles têm no momento presente. ''O passado é importante para compreender o presente'', acrescenta Simone.


