O mal da modernidade
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quinta-feira, 21 de março de 2002
Guilherme Sierra Agência Estado 
Os problemas de visão para quem passa o dia em frente ao computador são tantos que até ganharam nome simbólico: Síndrome Ocular do Executivo. Uma doença causada não apenas pelo excesso de tempo diante da tela, mas também por uma série de fatores existentes no próprio ambiente de trabalho.
Os olhos ficam cansados, vermelhos e lacrimejam sem parar; a dor de cabeça torna-se insuportável e é difícil focar objetos em posições diferentes. São os sintomas mais característicos, avalia o oftalmologista Renato Neves, que recebe dezenas de pacientes todos os meses para tratar exclusivamente do caso.
Aos 25 anos de idade e dono de uma consultoria de informática, o programador André Luiz Bili vinha sofrendo as consequências da sua atividade. Não é para menos: desde os 9 anos ele mexe com computadores. Quando estava na 3ª série do primário, ganhou o primeiro micro dos pais e, o que era brincadeira, transformou-se em profissão. O meu desejo sempre foi crescer profissionalmente e, por isso, me dediquei muito, passando cerca de 15 horas diárias em frente ao computador, conta.
Os sintomas não tardaram a somar. Sentia dor no fundo dos olhos. Míope, usava óculos porque nunca se adaptou às lentes de contato. Mas, com frequência, esquecia os óculos no fundo da gaveta. Vencido pelo incômodo, submeteu-se à cirurgia de correção em janeiro de 2001. Muda a vida. Enxergar melhor faz uma diferença impressionante, comemora Bili.
A cada uma hora de trabaho
deve-se descansar 10 minutos
Mesmo quem não apresenta problemas como miopia ou astigmatismo está sujeito a esse diagnóstico. Mas ele é geralmente reversível, bastando tomar algumas precauções. Parar para descansar por dez minutos, por exemplo, em intervalos de uma hora, e exercitar a vista olhando para pontos diferentes e distantes costuma funcionar. Desta forma, é possível render 10 horas por dia contra apenas 4 horas diárias de trabalho sem o descanso programado, explica Neves. É a famosa pausa para o cafezinho, brinca.
O oftalmologista Élcio Sato, do Departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), esclarece que, cientificamente, não está comprovado que o mal-estar visual no ambiente de trabalho implique lesão ocular. O problema é simplesmente um sobre-esforço que deve ser tratado com medidas básicas e fáceis, afirma. Quem é míope não vai ficar mais míope por causa disso, apenas é um agravante a mais, assegura.
Outro problema causado pela concentração ao se olhar ininterruptamente para o computador é o ressecamento dos olhos. A lágrima evapora mais rápido ao piscarmos menos, provocando a sensação de ardência, diz Sato. Nada que um colírio de lágrima artificial, vendido nas farmácias sem necessidade de prescrição médica, não resolva. A assepsia local com bastante água boricada é eficaz. Mas o ideal é consultar um especialista, pois não é muito recomendável a automedicação, adverte. (G.S)
Iluminação deve ser adequada
Às vezes desapercebido, o ar-condicionado em mau funcionamento no escritório vira o vilão da história. O filtro do aparelho defeituoso acaba produzindo o efeito inverso: despeja no ar partículas de sujeira que irritam os olhos. Sem contar que a exposição por longo tempo ao ar refrigerado também resseca. É que, para funcionar, o equipamento tira água do ar, tornando-o mais seco. Por isso, é indicado instalar umidificadores de ar e pisos frios (não acarpetados) no ambiente, ressalta Renato Neves.
Na tentativa de evitar a síndrome, os oftalmologistas alertam ainda para as condições da iluminação no ambiente de trabalho. Lâmpadas muito fracas fazem as pessoas forçarem a visão para enxergar melhor. As fortes demais ou instaladas em pontos ruins podem refletir na tela do computador, em espelhos e janelas, incidindo diretamente no rosto. (G.S)


