As campanhas estão sempre reforçando a necessidade do aleitamento materno para a saúde do bebê, no entanto, as mães brasileiras ainda não se conscientizaram dessa importância. Pesquisa realizada recentemente pelo Ministério da Saúde nas capitais e no Distrito Federal, revelou que as mães ficam longe do período mínimo de 180 dias de aleitamento recomendado pelos médicos.
Em média, as crianças tomam leite materno apenas durante os primeiros 34,8 dias de vida. As cidades com piores índices são Cuiabá (8,3 dias) e Belo Horizonte (9,6). Já Fortaleza e Belém apresentaram os melhores índices: 77,2 e 70,7, respectivamente. Porém, mesmo assim ficam longe do período ideal. Apesar de ter sido realizada apenas nas capitais, a pesquisa reflete uma realidade nacional.
Mudar esse quadro exige um trabalho que tenha o envolvimento da mãe, da família e do profissional da saúde. Essa constatação faz parte da dissertação de mestrado de Lilian Póli, enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde e professora do Cesulon, defendida na Universidade Federal de Santa Catarina. ‘‘A cultura e as histórias familiares passadas de geração para geração influenciam muito no processo de aleitamento materno, principalmente através das crenças populares’’, afirma a pesquisadora.
Leite fraco Ela lembra que é muito comum a avó ou a tia dizerem para a mãe: ‘‘Seu filho chora muito porque seu leite é fraco e não sustenta ele’’, levando a mulher a introduzir a mamadeira. ‘‘Com isso, ela passa a amamentar cada vez menos até parar definitivamente. Entretanto, isso não passa de uma crença porque não existe leite fraco’’, observa a enfermeira. Lilian esclarece também que outro mito é dizer que a criança precisa mamar nos dois peitos numa mesma mamada.
‘‘Em cada mamada, o bebê precisa esvaziar a mama porque assim ele garante o leite do começo e do fim. O leite do final é o que possui mais gordura, sendo necessário para saciar a fome e engordar a criança’’. A enfermeira explica que a forma como o bebê abocanha a mama também influencia na mamada. ‘‘Se ele colocar apenas a ponta do bico na boca não conseguirá sugar todo o leite. Além disso, causará fissuras na região, tornando o processo doloroso para a mãe’’.
Segundo Lilian Póli, outra crença muito comum é dizer que se a mulher fica uns dias sem amamentar, o bebê não pode voltar a mamar porque o leite estraga. ‘‘Isso é pura lenda’’, afirma. A enfermeira diz que até os 6 meses, a criança deve ser alimentada apenas com o leite materno. ‘‘Só após esse período deve-se introduzir outro tipo de alimentação’’.
Na escola Como o tempo é razoavelmente longo, Lilian ressalta que a colaboração da família é muito importante, principalmente do marido. ‘‘Durante minha pesquisa constatei que as mulheres que contam com a colaboração do parceiro amamentam mais tempo’’, informa. Partindo desse princípio, a enfermeira reforça a idéia de que o processo de aleitamento materno, para ter sucesso, não pode envolver apenas a mulher. ‘‘Existem muitos fatores externos que influenciam na decisão da mulher parar de amamentar antes do tempo. Um deles é o trabalho. Muitas empresas ainda não se conscientizaram disso e criam obstáculos para liberar a mãe para a amamentação, mesmo sendo um direito garantido por lei’’.
Mesmo destacando a importância do aleitamento materno para a saúde da criança, a enfermeira observa que isto deve ser uma decisão da mulher. ‘‘Ela não pode ser obrigada, mas conscientizada. Até porque a amamentação precisa ser um momento prazeroso para ter o efeito desejado’’. Ela esclarece que o ato de amamentar envolve dois hormônios: a prolactina, responsável pela produção do leite, e a ocitocina, que libera o leite da mama. ‘‘Este último é muito influenciado pelo estado emocional da mulher. Se ela estiver nervosa ou ansiosa, a ocitocina não deixa o leite descer’’, explica.
Lilian Póli sugere que a campanha de aleitamento materno comece a fazer dos currículos escolares, envolvendo meninas e meninos. ‘‘Seria importante também que as indústrias de brinquedos se preocupassem com isso. Porque fabricar apenas bonecas que tomam mamadeira e não que amamentam’’, questiona a enfermeira. ‘‘Essa seria uma forma de incentivar a menina sobre a importância do aleitamento materno’’, acrescenta.

mockup