No filme ''Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças'', os personagens vividos por Jim Carrey e Kate Winslet se submetem a um tratamento para esquecer um do outro depois de um relacionamento amoroso conturbado e doloroso. Se a possibilidade fosse real, provavelmente milhares de pessoas gostariam de apagar sentimentos ruins da memória, fazer de conta que nunca existiram para reencontrar a felicidade.
No filme, a experiência não dá certo para o casal. Talvez por uma teoria que vem ganhando força entre alguns psicólogos: sofrer pode ser o caminho para melhoras significativas na vida, inclusive para adquirir a paz interior. Esses profissionais trabalham com a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), desenvolvida pelo terapeuta americano Steven Hayes, autor de 27 livros, entre eles Get Out of Your Mind, Get into Your Life, de 2005, (EUA), um dos mais vendidos na época do lançamento.
Diferentemente do que prega a terapia cognitiva, método que predominou nos consultórios nas últimas décadas e que aconselha os pacientes a não manter pensamentos e sentimentos negativos, a ACT acredita que aceitar a dor emocional é fundamental para encontrar a alegria e superar problemas graves como depressão e Síndrome do Pânico.
A psicóloga londrinense Maria Zilah Brandão trabalha com a técnica e explica que evitar o sofrimento pode trazer consequências sérias para o indivíduo. ''Sofrer é algo comum do ser humano. Negar esse sentimento pode levar a uma estagnação, ao medo de experimentar as coisas. Um exemplo disso é a pessoa que tem uma desilusão amorosa e não aceita sofrer por isso. Com medo de passar pela dor do fim do relacionamento, ela deixa de se envolver verdadeiramente com alguém. Para evitar o que é ruim, nos afastamos também do que é bom''.
Segundo a especialista, é comum essas pessoas fugirem do sofrimento por outros meios. ''O abuso de álcool e outras drogas e excesso de sexo são escapes comuns porque amortecem as sensações. As pessoas precisam perder a compulsão de tentar se livrar de sentimentos negativos e entender que a tristeza passa com o tempo'', explica.
Porém, aceitar o sofrimento pela técnica da ACT passa longe de uma atitude conformista e passiva. ''O que ensinamos aos pacientes é que não tentem controlar o sofrimento no sentido de evitá-lo. Não significa que devemos nos resignar e seguir sofrendo, mas superar as experiências ruins e nos abrirmos para oportunidades novas'', aconselha.
A terapia trabalha em duas frentes. Ao mesmo tempo em que aceita o sofrimento, admitindo a dor e falando sobre ela, o paciente deve buscar aquilo que realmente precisa ser valorizado. ''Por isso usamos as palavras aceitação e compromisso: aceitar o problema e se comprometer em agir, seguir com os objetivos de vida'', diz Zilah.
Outro ponto abordado pela especialista é o distanciamento da realidade. ''Muitas vezes as pessoas fantasiam sobre o ruim e o bom, dando dimensões muito maiores. O medo do sofrimento geralmente vem da crença de que esse sentimento vai ser muito pior do que ele realmente é. Quando perdemos um amor, por exemplo, sempre achamos que nunca mais vamos encontrar outro. Mas sabemos que não é bem assim, outros amores surgem'', comenta.
Para usar a técnica em casa, Zilah aconselha a conversar, ler e assistir filmes que ajudem a aceitar a dor, e encontrar no trabalho, na família, nos amigos e no lazer o apoio e o motivo para agir positivamente. ''O tempo de sofrimento vai depender de cada um, mas é importante que o sentimento vá diminuindo ou se tornando aceitável com o tempo.''

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