Personagens de desenhos animados, super-heróis e heróis há décadas povoam o imaginário infantil. Do quase ingênuo Tom e Jerry ao mitológico DragonBall Z, gerações e gerações tiveram sua infância marcada por fantasias ligadas aos seres fantásticos da televisão e das histórias em quadrinhos.
Nessa história, pais zelosos em defender seus filhos do mal não precisam usar nenhum superpoder contra os heróis dos quadrinhos. Desde que não haja um excesso de atenção da criança ao personagem, e com a confusão de fato entre fantasia e realidade e limitação do seu repertório de informações e vivências não há com que se preocupar (o que também não significa deixar de prestar atenção a essa relação).
É natural e saudável que a criança se identifique com algum personagem. ''Qualquer ficção ou fantasia que fique concretizada num desenho, filme ou jogo é uma oportunidade para a criança poder colocar para fora aspectos do seu mundo interno'', destaca Maria Tereza Coelho, especialista em psicologia do desenvolvimento do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
''Vendo personagens que encarnam seus sentimentos, ela pode ver exteriormente algo que dificilmente veria em seu interior'', complementa a psicóloga. Isso vale tanto para aspectos positivos quanto para os considerados negativos, como agressividade, inveja, ciúme e competição exagerada.
Real e fantasia Para Maria Elisabeth Montagna, professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), o auto-reconhecimento da criança num personagem pode também ajudá-la a descobrir como operar no mundo real. ''A identificação com um herói, por exemplo, mostra a possibilidade de autonomia sobre as questões da realidade'', considera.
Não que a criança vá sair por aí tentando voar para salvar o mundo. ''Em geral, ela sabe distinguir aquilo que está na imaginação daquilo que é real. Mas, o que é importante se identifica como se estivesse vivendo aquilo.'' E, de certa forma, está mesmo na sua cabeça, no mundo que ela criou para realizar suas fantasias.
Maria Elisabeth destaca que em todas as épocas, histórias, desenhos e heróis estiveram ligados às questões do homem. ''Veja os mitos gregos, os heróis das navegações e os desenhos de hoje em dia. Eles se situam nas necessidades concretas do ser humano'', reflete.
Necessidades como manter a Terra fora de perigo? Se for o caso, essa é uma missão para Goku. Protagonista do DragonBall Z mais um da safra recente, recheado de símbolos e desafios entre o bem e o mal é o herói do momento para um mar de crianças e adolescentes. O personagem é um sayajin superdotado em outras palavras, um guerreiro de outro planeta, fisicamente humano, capaz de lançar magias, voar e se transformar num supersayajin, agregando ainda mais poderes.
O ritmo dos desenhos, assim como o do dia-a-dia da informação e da tecnologia, vem aumentando gradativamente. ''É bastante diferente do passado. Os desenhos são frenéticos, assim como esta geração é frenética. O computador, a tecnologia, a interatividade acabaram estabelecendo para ela esse ritmo'', considera Maria Tereza.
Ela observa ainda que isso não significa que a programação infantil da TV force os limites dos pequenos. ''Para a criança, não sei se faz tanta diferença, porque ela nasceu nesse ritmo. Quem fica fora de sintonia é mais o adulto.''
Curiosidade A psicóloga observa ainda o sucesso duradouro de desenhos como Tom e Jerry, Pernalonga, Pica-Pau e outros. ''A despeito da dinâmica e dos recursos utilizados pelas animações mais recentes, episódios de personagens do arco da velha têm público garantido graças à curiosidade que despertam'', sustenta Maria Tereza.
''Há muita coisa oculta que a criança tem de adivinhar. Pelo olhar do ratinho, ela pensa no que ele fará para escapar. E o Pernalonga é irônico. Em termos de texto, não deixa tudo explícito sempre tem algo a ser revelado'', argumenta. E isso é bom para o desenvolvimento da criança, sublinha a psicóloga. ''Explicitar tudo não dá margem à imaginação. Pode não fazer mal, mas também não vai ajudar.''
Para os pais preocupados com o conteúdo dos desenhos animados, Maria Tereza sinaliza que, antes de mais nada, é preciso ter uma relação próxima com o filho. Assistir ao desenho juntos, perguntar à criança e fazê-la pensar sobre o assunto são atitudes que ajudam a descobrir se a programação é ou não adequada a ela, se ela está sendo exposta a elementos que não tem condições de absorver adequadamente.
Maria Elisabeth concorda: ''A proibição é delicada. Uma experiência melhor seria analisar por que um desenho é mais ou menos importante, o que o mobiliza e o que se aproveita''. Afinal, contra os vilões, a melhor arma é a inteligência.n

mockup