Alexandre Herchcovitch ainda era um adolescente quando encontrou nas férias em Salvador uma previsão para o seu futuro. ''Você vai ter uma profissão legal, mas muito difícil no Brasil. Seu sucesso será tanto que atravessará mares e oceanos'', disse a mãe-de-santo para o jovem Herchcovitch. Anos depois de encarar realmente um profissão difícil - estudou na então única faculdade de moda do País, a Santa Marcelina - ele vê seu nome ser projetado em outros continentes. Em março, o estilista abriu a primeira loja em Tóquio e há anos tem participação garantida na semana de moda novaiorquina.
Não por acaso, ele foi convidado pela Editora Campus para escrever para a coleção ''Cartas a um jovem...'', que reúne nomes como o chef Laurent Saudeau e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sincero, Herchcovitch fala do glamour, mas não esconde o trabalho duro além dos flashes.
''Um conselho que não canso de dar a quem acabou de abraçar a moda como profissão: é preciso testar um leque bem amplo de opções, como modelagem, produção ou edição de moda, comprador de multimarcas... Pensar diferente é confirmar aquele preconceito que coloca todos os profissionais de enfermagem como frustrados porque não conseguiram graduar-se em medicina. É evidente que existem enfermeiros e modelistas realizados em suas escolhas, que desenvolvem trabalhos de qualidade, imprescindíveis a seus ramos de atuação'', ensina o estilista.
Para ele, ''outro ponto preocupante é que existe uma geração saindo das escolas de moda com muita vontade de obter respostas comerciais em tempo recorde, esquecendo que ali é a hora e o lugar certo de experimentar, apurar o olho, definir seu estilo. Um dos talentos mais notáveis que um criador deve ter é o faro aguçado para se cercar de profissionais e de uma equipe afinada, em que cada um saiba exatamente seu papel dentro da engrenagem'', completa.
A boa notícia é que os novos cursos de design de moda (que aos poucos vão substituindo os cursos de estilismo) já seguem as tais diretrizes indicadas pelo estilista. Alunas do terceiro ano da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Monique Bordin, 21 anos, Juliana Videla, 22, e Mariana Brandini Vanso, 19, receberão no final do ano que vem o diploma de designers. O trio faz parte da primeira turma de design da UEL e já perceberam que serão profissionais mais completas. ''O curso engloba mais etapas e a nossa formação é mais ampla'', explica Mariana, que no segundo ano do curso foi uma das três finalistas do concurso de jovens talentos do Catuaí Collection.
''Durante o curso criamos produtos de moda, como acessórios e até móveis, e não só roupas'', conta Juliana. Inspirada com todo esse aprendizado, a estudante planeja ter uma loja de departamentos. Mas não dessas lojas gigantes, mas ''uma que tenha vários produtos e serviços no mesmo lugar'', avisa.
Aos 15 anos, Juliana ganhou de presente uma máquina de costura. Antes disso costurava à mão as próprias roupas. Coincidentemente, foi o mesmo presente que acabou incentivando o jovem Herchcovitch. E Juliana trilhou um princípio de caminho parecido, recebendo elogios ainda na faculdade.
''Muita gente entre no curso só porque a moda está na moda'', explica Monique. ''Nas aulas é que essas pessoas percebem que a carreira exige muita dedicação'', lembra a estudante. Mesmo sem ser obrigada pelo currículo, Monique já passou por dois estágios voluntários - numa lavanderia industrial e numa estamparia.
Para Mariana Vanso, que chegou a pensar em cursar fisioterapia, o futuro além da faculdade já está bem traçado. A mãe abriu uma loja depois que Mariana entrou no curso, que poderá se transformar na grife da filha diplomada.
Durante a última década e meia, com o advento de semanas de moda como a São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio e a profissionalização do setor, o Brasil viu a moda realmente entrar na moda. Com os designers entrando no mercado, o País pode se preparar para um novo futuro da moda. É esperar para ver.

Serviço: Cartas a um jovem estilista - Editora Campus, 137 páginas. R$ 29,90 na Livrarias Porto

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