Como explicar ao filho que ele não será mais o único ''queridinho'' do papai e da mamãe? De que forma minimizar a perda do ''trono'' sem que isso cause um sofrimento muito grande à criança? E, mais importante, como fazê-lo entender que amor não ocupa espaço e que, portanto, o bebê não representa uma ameaça?
Em menor ou maior grau, essas questões rondam a mente de todas as mulheres durante a segunda gestação. Não foi diferente com Marina Troppia Carioba, 32 anos, mãe de João, 4 anos e Antônio, 3 meses e meio. Mas a forma serena de enfrentar a situação garantiu que a transição fosse feita sem maiores problemas. Desde o início, o primogênito participou de todos os momentos referentes à chegada do novo integrante à família. ''Levamos o João junto para buscar o exame de gravidez e explicamos: 'nesse papel está escrito que você vai ganhar um irmãozinho''', lembra a mãe.
Marina conta que tinha muito medo do primeiro encontro entre os filhos, mas ele aconteceu de maneira tranquila. ''É no dia-a-dia que a coisa pega'', brinca. ''Muitas vezes, quando estou amamentando, o João solicita atenção. Procuro atendê-lo na medida do possível. Às vezes ele se chateia, mas depois passa. Assim vai aprendendo que há coisas que ele tem que aceitar. Tem hora para o João, tem hora para o Antônio e tem hora para os dois'', decreta. Nos momentos de exclusividade para o primogênito, Marina não economiza energia. ''Brinco com ele, levo na escola e, quando vamos sair para almoçar e tem alguém para ficar com o Antônio, levamos o João com a gente''.
Impossível, entretanto, poupá-lo de sentimentos desagradáveis diante de situações corriqueiras quando se tem um bebê em casa, como a chegada de amigos e parentes com presentes. ''Sinto que ele fica amuado. Ainda mais agora que o Antônio já ri e faz gracinha. Todo mundo se derrete. Antes, toda essa atenção era para o João'', observa Marina, reconhecendo que a pior fase já passou. ''Agora, ele está lidando bem com isso. Nos dois primeiros meses, teve duas viroses. Acho que foi uma somatização''.
Pequenos episódios mostram, entrentanto, que mesmo em casos bem-sucedidos como o de João, o ciúme está sempre presente. Marina teve que interromper, por alguns minutos, a sessão de fotos para esta matéria: Antônio estava com fome. Antes de retornar aos flashes, ela molhou os cabelos do bebê para que os fios acentassem. João nem pensou duas vezes ao desfazer o penteado que a mãe lhe havia feito: apareceu para o segundo tempo dos clicks com as madeixas molhadas.
Ciúme natural A psicóloga Fátima Comte aconselha: os pais não devem reforçar, nem supervalorizar as reações do filho diante da chegada do irmãozinho, mas encará-las com serenidade. ''Aceitar o outro no nosso mundo, ter ciúme e inveja são coisas naturais. A criança precisa aprender a conviver com esses sentimentos. São até saudáveis até certo ponto'', diz.
Outro comportamento que deve ser evitado é o de fazer, na frente da criança, comentários do tipo: 'agora ele não me larga mais'. É até um pouco de vaidade dos pais contar que os filhos sentem ciúmes deles'', alfineta Fátima. Punir a criança pelas pequenas sabotagens que ela fez com o bebê (como roubar a chupeta ou tirar a mamadeira) ou querer compensá-la com presentes também são atitudes equivocadas. ''O importante é mostrar que ela vai continuar sendo importante e especial'', ensina Fátima.
Para que o filho não sinta tanto a perda de exclusividade nos cuidados maternos, Fátima atenta para a importância da presença de outros membros da família, como pai, tia, avó e até mesmo empregada. ''É preciso ajudar a criança a fazer essa transição da forma mais natural possível. Quanto mais mais suave for essa mudança de papel, menos reações adversas pode-se esperar'', garante. De acordo com ela, as dificuldades de entender as mudanças e aceitar o irmão serão maiores quanto menor for a criança.
Preparar o primogênito desde o início da gestação do segundo filho é fundamental para que a perda do trono seja menos dolorosa. ''É importante que se converse antes com a criança, que ela acompanhe a gravidez, participe das compras. E que receba um extra nesse período para que se sinta importante e vá mudando de papel: agora ela será o filho mais velho, saberá mais que o irmãozinho, ajudará a cuidar dele'', orienta Fátima.
Ela observa que, às vezes, os pais criam uma expectativa irreal para o filho, dizendo que o irmãozinho vai brincar com ele, que será o seu companheiro. Mas não falam que isso só vai acontecer daqui a uns cinco anos. Aí chega aquele bebezinho de quem nem se pode chegar perto''.
O processo de adaptação à nova realidade deve ser gradual. A psicóloga alerta que, se a criança tiver que passar por tudo de uma só vez, os riscos de trauma serão maiores. Um bom exemplo é o dos pais que, assim que o bebê nasce, mandam o filho mais velho para a escola, onde ele terá que se adaptar a um ambiente cheio de gente desconhecida. E, ao chegar em casa, encontra os pais cansados, a avó cuidando do irmãozinho, a empregada atarefada. ''Seria bom que as mudanças não viessem todas juntas, que fossem bem graduais e serenas'', aconselha. n

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