O fim da tortura
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quinta-feira, 16 de agosto de 2001
Celso Mattos 
Existe uma realidade que não ser pode negada: ninguém gosta de ir ao dentista, mesmo que seja para fazer uma simples profilaxia. Entretanto, quando o diagnóstico é um tratamento de canal, sentar na cadeira do dentista fica ainda mais traumático. Afinal, é um procedimento dolorido, demorado e obriga o paciente a ficar muito tempo de boca aberta, tempo suficiente para dar câimbras na musculatura da face.
Mas, graças aos avanços tecnológicos e a disposição de alguns profissionais da área em desenvolver técnicas menos agressivas, o tratamento de canal no estilo convencional pode um dia ser apenas uma vaga lembrança. O cirurgião-dentista Carlos Alberto Spironelli Ramos, professor do curso de Odontologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), com doutorado na USP de Botucatu, conhecida como uma das melhores faculdades de Odontologia da América Latina, desenvolveu uma técnica automatizada em que o tratamento de canal é realizado em apenas uma sessão.
A técnica utiliza um instrumento chamado localizador apicar eletrônico que serve para medir o dente, eliminando a utilização da lima manual (aqueles agulhinhas que são introduzidas várias vezes no dente). ''Essa lima é substituída por um instrumento de níquel de titânio, acionado por um motor especial. Ele alarga o canal de maneira mais efetiva, rápida e eficiente, pois o motor é mais preciso que a mão do dentista'', esclarece Carlos Alberto Spironelli.
Menos dor Segundo o cirurgião-dentista, o paciente sai do consultório com o canal obturado, voltando apenas para restaurar o dente. ''O tratamento leva em média uma hora para ser feito'', afirma. E para quem tem medo da anestesia, Carlos Alberto tranquiliza: ''É usada uma agulha de insulina e a injeção do líquido é controlada por um micropistão. Com esse método, o paciente não sente dor'', acrescenta. De acordo com Spironelli, o que dói na anestesia não é a picada da agulha, mas a entrada do líquido nos tecidos. ''Quando a anestesia é aplicada manualmente, é muito difícil para o dentista controlar o movimento da mão. Nessa técnica, a injeção do líquido é feita em décimos de gotas de anestésico'', explica.
A praticidade e a redução da dor não são as únicas vantagens dessa nova técnica: no tratamento convencional, um especialista em canal leva em média três sessões para concluir o procedimento, dependendo das condições do dente, e utiliza em torno de três a quatro radiografias. ''Na técnica automatizada, é feita apenas uma radiografia, o que diminui o tempo de exposição do paciente à radiação e, consequentemente, diminui os custos do tratamento'', observa Carlos Alberto.
Outra vantagem, segundo o professor, é a redução do tempo de deslocamento do paciente até o consultório, facilitando a vida daqueles que trabalham. ''Reduz o número de aplicação de anestégico e a qualidade do tratamento é muito superior. Pesquisas demonstram que a porcentagem de insucesso num tratamento convencional de canal feito por um clínico geral é de 20% a 30%, quando é feito por um especialista, esse índice cai para 10% a 20%, já com a técnica automatizada a porcentagem de insucesso é de apenas 5%'', afirma.
Reconhecimento ''Se por um lado, esse método diminui os custos para o paciente, aumenta o ganho para o cirurgião-dentista, pois se no tratamento convencional ele consegue fazer, por exemplo, 10 procedimentos por semana, com essa técnica ele faz 20, devido à rapidez'', informa. O professor acrescenta que esse tratamento também pode ser usado em crianças que sofrem fraturas nos dentes em quedas ou na prática de esportes.
Carlos Alberto Spironelli começou a desenvolver a técnica em 1990, e hoje já tem dois livros publicados sobre o assunto, um deles é ''Endodontia Fundamentos Biológicos e Clínicos'', escrito em parceria com o professor Clóvis Monteiro Bramante, da Faculdade de Odontologia da USP/Botucatu. Além disso, é coordenador do curso de Endodontia da UEL, na graduação, e coordenador do curso de especialização em Endodontia na Unopar, que é o único curso de especialização do Brasil que tem uma carga horária específica para ensinar esse método.
Desde que começou a desenvolver a técnica automatizada, o professor tem sido convidado para dar cursos em várias capitais do Brasil. ''Este ano, estou indo para o México para apresentar a técnica'', informa. Carlos Alberto é um dos 12 membros brasileiros da Associação Americana de Endodontistas. O reconhecimento científico do novo método também está sendo confirmado em 10 dissertações de mestrado que estão sendo realizadas em Londrina.


