Elizabeth Lorenzotti
Agência Estado
Menopausa é carta de alforria, diz a cinquentona Rita Lee. ‘‘Chega de derramamento de sangue.’’ Rita está muito feliz por ‘‘fugir às regras.’’ Um trecho da letra de sua canção ‘‘Menopower’’ abre o livro da psicóloga gestaltista Selma Ciornai, de 50 anos, ‘‘Da Contracultura à Menopausa – Vivências e Mitos da Passagem’’, lançado em São Paulo este mês, é tema de sua tese de doutorado no Saybrook Institute, na Califórnia (EUA).
A geração que participou dos movimentos de contestação dos anos 60 e 70 envelheceu. Um assunto desagradável, numa sociedade voltada à juventude. Como enfrentam essa fase as mulheres que militaram nos movimentos feminista, hippie, na resistência à ditadura, que desafiaram e romperam valores?
Carioca, militante estudantil e feminista, no fim dos anos 60, Selma Ciornai saiu do Brasil, como tantos de sua geração, para escapar a uma situação de medo e opressão. Ficou 11 anos entre Israel e Estados Unidos, onde se especializou em sua área e participou de vários movimentos.
De volta ao Brasil, há cerca de seis anos, começou a sentir os sintomas que desconhecia: ‘‘Mergulhei numa crise existencial, senti uma depressão violenta, uma tristeza enorme sem saber porqu꒒, diz. Selma não entendia o que estava acontecendo. ‘‘Procurei um terapeuta, que também é médico, procurei psicólogos, mas ninguém me perguntou – e eu tinha 44 anos – como vão seus hormônios?’’
Climatério Somente quando começou a conversar com algumas amigas soube do que se tratava: era o climatério. ‘‘É um período que se estende geralmente por dois a dez anos antes da menopausa, que é o fim da menstruação, até dois a cinco anos após. Aí então eu me senti melhor, pois sabia o que era’’.
Selma ficou espantada com seu próprio desconhecimento sobre o assunto – e o de suas amigas, do médico, dos terapeutas. ‘‘Não ocorria a ninguém relacionar idade e sintomas e, quando alguém falava sobre menopausa, era com vergonha.’’
Então, resolveu tomar o assunto como tese de doutorado. ‘‘Voltou aquele meu élan de contestação dos anos 60; eu pensei: por que estou aceitando esse tratamento preconceituoso, essa sensação que, daqui pra frente, minhas oportunidades como mulher acabaram?’’
Foram entrevistadas 30 mulheres, todas de nível universitário, realizadas em suas profissões. ‘‘Muitas, que sentiam vários sintomas, disseram que iam ao médico deprimidas, perguntando se não se tratava de problema hormonal e ouviam: ainda falta muito para você chegar à menopausa. Eles acham que você só tem sintoma quando chega à menopausa’’, diz Selma.
Sexismo A linguagem médica só fala em deficiência, em perda, acentua. ‘‘A Organização Nacional de Saúde das Mulheres dos EUA tem contestado esse modelo de doença da menopausa no Ocidente, argumentando que os mitos que envolvem essa fase são uma forma de controle social, legitimando o sexismo e o preconceito contra o idoso sob a máscara de ciência.’’
Maria Amélia, uma das entrevistadas, contou que sofria de hemorragias e os médicos queriam tirar seu útero. ‘‘Um deles me disse: pra que uma mulher de 50 anos precisa de útero? Eu respondi: E por que um homem de 50 anos quer manter a próstata? Por que os homens, quando precisam, operam a próstata em vez de tirá-la? Ele não soube responder.’’
Algumas têm sintomas, leves ou violentos, outras não sentem nada. Muitas têm vida sexual ativa, entre elas algumas têm companheiros mais novos, outras mais de um. Algumas se sentem bonitas, charmosas, outras optaram por deixar de se colocar sexualmente. ‘‘Essas mulheres se sentem valorizadas, produtivas, importantes, não são só donas de casa’’, acentua Selma. ‘‘A sensação de inserção social é diferente. Elas tomam posição política, educam os filhos de forma avançada. Mas nesse âmbito, tão profundo e delicado passam, da mesma forma, em silêncio.’’
Hormônio Ao fazer uma revisão de literatura a respeito de terapias para a menopausa, Selma concluiu que não existem certezas. ‘‘Não dá para saber se daqui a dez anos quem tomou hormônio se arrependerá de ter tomado, ou quem não tomou de não ter tomado’’, afirma. ‘‘Mas é crime recomendar sem informar os riscos ou não recomendar.’’
Para a autora, as mulheres caminham para criar uma nova mitologia da menopausa. Embora seja uma questão multifatorial, há certamente uma prevalência cultural. Uma pesquisa feita na casta Rajput, na Índia, em 1975, não registrou mulheres com depressão ou outro sintoma. Elas esperam ansiosamente pela menopausa, pois não têm mais de usar véu e viver reclusas: estão livres.

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