O fantasma do ex
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quinta-feira, 05 de junho de 2003
Rosângela Vale<BR>Reportagem Local 
Quem é que nunca teve que conviver com o fantasma do ex-namorado ou da ex-namorada? Mesmo que o novo relacionamento esteja naquela fase inicial da paixão, as dificuldades são grandes quando se tem que encarar a presença de um antigo amor. As pessoas geralmente acreditam que vão construir uma relação sem segredos, como num livro aberto. Mas alguns ''ex'' têm o talento de infernizar a vida de qualquer casal, seja com a presença constante no mesmo círculo de amigos, espalhando fofocas e até dando escândalos em lugares públicos.
Aceitar o ponto final de uma história de amor é uma tarefa extremamente difícil para algumas pessoas. Mas o médico psicoterapeuta Moacir Costa lembra que viver do passado implica um custo muito alto para todos os envolvidos, pois a impressão é de que há uma sombra pairando eternamente sobre os novos relacionamentos. As razões desse ''nó que não desata'' são compreensíveis. ''Há casos em que a relação sexual era vibrante e incendiária. Em outros, havia uma afinidade de idéias muito grande'', enumera Costa.
O resultado sempre é danoso para o novo romance, pois as comparações, que nesse caso não têm nenhuma utilidade prática, serão inevitáveis. Para a psicoterapeuta jungiana e corporal Sônia Vaz, a explicação para essa fixação no ''ex'' esbarra em duas questões. ''Em primeiro lugar, o corpo vicia. Viciamos na pele, no cheiro, no jeito de fazer sexo do outro. É uma liga difícil de desfazer. Num segundo momento, podemos falar de fixação projetiva. Tendemos a projetar no outro um ideal de parceiro'', diz.
Segundo ela, quando nos interessamos por alguém, colocamos uma energia libidinal na pessoa. Se a relação termina e a tal energia não encontra um novo objeto, vai permanecer no antigo parceiro. Se ainda existe desejo em relação ao ex, e ele já definiu que a relação acabou, o melhor a fazer, de acordo com a terapeuta, é criar uma distância por algum tempo. Já a pessoa que rompeu a relação, e realmente não a deseja mais, deve colocar um limite de forma transparente e objetiva. ''Não se pode ficar dourando a pílula'', avisa.
Finitude A regra também vale para os ex-casados com filhos. ''É preciso deixar claro que ambos só estarão juntos quando os papéis de pai e mãe exigirem'', aconselha Sônia. Quando isso não acontece, a pessoa fica transmitindo uma dupla mensagem, ''segurando'' o ex por perto e arrastando a relação. ''É muito egoísta. Eu não amo mais o outro, mas amo o amor que ele tem por mim''. Muitos, ainda, podem se sentir lisonjeados em serem objeto de disputa entre o parceiro antigo e o atual.
Portanto, é preciso ser absolutamente claro para libertar a outra pessoa da ilusão de que é possível reatar a relação. ''O tapa não pode ser com luva de pelica. Deixar o outro se iludir é mais cruel do que ser franco e objetivo'', argumenta Sônia. O ponto central, entretanto, é que longe de ser apenas um problema de comunicação, a questão exige uma boa dose de honestidade com os próprios desejos e sentimentos. ''Parece simples, mas não é. Nós não temos um só desejo. Temos vários. O processo desejante é sempre múltiplo, nunca singular. Não temos controle sobre isso'', afirma ela, lembrando que podemos controlar apenas nossas escolhas e respeitar as do outro.
''Se a gente está falando da coisa mais básica do ser humano, que é o amor, estamos falando de vida. Como controlar isso?'', indaga a psicoterapeuta. Ela observa que, como tudo na vida, existe a morte, o corte, o limite. ''Uma relação sempre vai acabar, dure uma semana, um mês ou 60 anos. É preciso ter essa noção de finitude, até mesmo para vivenciar o amor com mais fome, mais prazer. Não se desligar do outro é uma não aceitação dessa finitude, uma tentativa de eternizar o que não é eterno'', enfatiza. n


