Ronaldo Fraga é um dos maiores expoentes entre os criadores ‘‘made in Minas’’, mas não gosta desse rótulo. ‘‘Não quero ficar segurando bandeira de nada. Falei de Zuzu Angel, que é uma estilista mineira, mas já falei de Arthur Bispo do Rosário, já falei dos judeus’’, lembra. Falou e encantou. Há duas edições se apresentando na São Paulo Fashion Week, ele é unanimidade entre a crítica e já foi chamado de ‘‘a cabeça pensante da moda brasileira’’.
Sua carreira começou em meados dos anos 80, quando fazia assessoria de estilo para confecções de Belo Horizonte. A primeira grande oportunidade veio como prêmio do concurso de estilismo da Santista: uma bolsa de estudos na Parsons School, em Nova York. O destino seguinte foi Londres, onde lançou a marca ‘‘The Magic Toyshop of The Mind’’, em parceria com o irmão, Rodrigo, conquistando espaço nas feiras de rua. De volta ao Brasil, participou do Phytoervas Fashion e começou a estruturar sua marca. Até o ano passado, apresentava suas coleções na Semana de Moda – Casa de Criadores.

Agora, com a maior visibilidade proporcionada pela São Paulo Fashion Week, Ronaldo viu seus pontos de vendas dobrarem (em várias partes do Brasil) e sua produção aumentar significativamente. E se prepara para lançar, na próxima temporada, sua segunda marca, a grife De Fraga, que vai contar com jeans e malhas produzidos em maior escala.
Durante a edição mineira do Calendário Oficial da Moda, na qual reapresentou a coleção ‘‘Quem matou Zuzu Angel?’’, Ronaldo conversou com a Folha da Sexta sobre sucesso, processo de criação, escolas e imprensa de moda no Brasil. E fez uma sugestão. Para ele, o evento em Belo Horizonte deveria contar com marcas de outros estados também. ‘‘Aqui poderia ser um laboratório, antes de as grifes serem promovidas à São Paulo Fashion Week. Seria mais inteligente’’.
Folha da Sexta – Na mesa redonda sobre criação de moda no Brasil, falou-se sobre os problemas das escolas. Onde, na sua opinião, estão as falhas?
Ronaldo – Falar que as escolas não estão bem aparelhadas e bem montadas é mentira. Eu estudei em escolas lá fora e já visitei algumas no Brasil que dão um show em termos de estrutura. O problema, na verdade, é o material humano. Como esperar que a gente tenha alunos brilhantes em moda se nós não temos professores? Nós temos aí uma história de 10 anos de escola de moda no Brasil, isso é muito pouco. Acho que têm certos equívocos que vêm através dos canais de informação mais imediatos, que são os jornais. Eles têm um espaço muito pequeno, evidentemente, às vezes, optam por falar do glamour, do estilista, da modelo. Então, cria-se uma expectativa, uma idéia do que é a profissão, o mercado de moda, que não é verdade. E, não sendo verdade, não corresponde à necessidade do que a gente vive hoje. Às vezes, eu encontro com alunos de moda e pergunto o que eles querem ser e eles dizem, estilista. Eu digo que podem ser muita coisa. Porque a gente precisa de bons jornalistas de moda, de bons economistas na área de moda, de bons administradores, de bons publicitários. A gente está com uma puta indústria, um grande meninão e, às vezes, tenho a sensação que ele não sabe falar direito. Ele mal sabe andar.
Folha da Sexta – Qual é a solução?
Ronaldo – Procuro passar minha experiência, porque se eu tivesse tido um profissional que fizesse o que eu procuro fazer, acho que teria sido muito mais fácil para mim. Eu poderia ter resolvido muitas questões no Brasil antes de estudar fora. Principalmente entender o mercado brasileiro. Então, como investir nesses professores? Que todos os envolvidos se envolvam mesmo, que os bons jornalistas dêem parte do seu tempo no envolvimento com a escola. Tento sempre encaixar os convites que eu recebo para dar palestras e oficinas, e é com muito prazer. Não é essa coisa de ser bonzinho, porque eu também ganho com isso, acabo resolvendo uma outra questão minha, que é aquela necessidade que eu sinto de estar sempre voltando à escola.
Folha da Sexta – Você nunca deu aula?
Ronaldo – Vou começar a dar aula na Fumec, que é o primeiro curso superior de moda de Minas. Vai ter arquitetura, artes gráficas, design de interiores e moda, tudo junto. Isso vai ser muito bacana porque, aos moldes da Parsons, dos EUA, vai haver um diálogo maior entre essas formas de design dentro da mesma sala de aula. Estou fazendo parte do corpo docente de implementação do curso, não sei se continuo depois, mas eu quero dar a minha parcela de contribuição, porque acredito muito nesse curso.
Folha da Sexta – Você disse que a imprensa cobre equivocadamente os eventos. O que, na sua opinião, seria uma cobertura bacana?
Ronaldo – Quando eu falo da imprensa, eu cito um exemplo, porque acho que tudo o que se relaciona à moda está se vendo obrigado a se mexer. Como a nossa relação com moda é recente, ela esbarra no equívoco, sempre. Eu acho que a imprensa sempre fica entre os dois caminhos, ou falar bem ou falar mal. Falta análise e não só para a imprensa, mas para o estilista, para o empresário. Não adianta a gente falar que não tem um consumidor para consumir o que a gente produz se a gente não desperta, não passa essa olhar analítico sobre a moda e sobre o que está por trás da roupa. Eu raramente leio alguma coisa com uma linguagem analítica acima do falar bem ou do falar mal.
Folha da Sexta – Você acha que o fato de ter morado fora do Brasil contribuiu para a sua visão diferenciada de moda?
Ronaldo – Eu nunca me iludi e não me iludo. Eu quero morar e produzir no Brasil. Quando ganhei o concurso e fui estudar fora nunca tive a idéia de arrumar um emprego e ficar por lá. Para mim, a experiência foi importante no sentido de ver do lado de fora. De outro ângulo. É uma coisa meio que de família mesmo. Você só entende a sua família quando você olha de fora. Quando você está dentro dela, acaba sendo uma ramificação daquilo que você acha muito ruim. E quando você sai fora, entende todos os problemas. E consegue ter um olhar individual do grupo. A minha relação com a moda ao morar fora foi essa. Porque, na verdade, a grande escola, sem dúvida alguma, é a prática. Mas, o como fazer, como estimular e ser estimulado, você aprende na escola.
Folha da Sexta – É opinião meio unânime da imprensa especializada que você chegou, com seu jeito autoral de fazer moda, para dar uma chacoalhada no SP Fashion Week. Como você se posiciona diante disso?
Ronaldo – Olha, eu vou ser muito sincero. Às vezes, tenho a sensação de que saí do Phytoervas ontem à tarde. Porque tem uma coisa da vida real, do dia-a-dia, que eu considero mais difícil do que fazer um desfile. Ser estilista no Brasil é ser também empresário, cuidar do marketing, das finanças, de tudo. Qual é meu grande mérito como estilista? É estar fazendo uma coisa que eu sempre acreditei e, principalmente, estar com os salários dos meus funcionários em dia. Isso é uma grande dificuldade no Brasil. Na história da SP Fashion Week eu nunca parei para pensar, talvez porque eu tenha medo, porque eu acho que em moda, um dia se fala bem e no outro fala-se mal. Eu me policio para não me envolver com críticas positivas justamente porque eu acho que tem muito para ser feito, não acho que meu trabalho é perfeito, sei onde estão os meus buracos, eu preciso de crítica e análise para crescer.
Folha da Sexta – Como é o seu processo de criação?
Ronaldo – Nunca tem aquela coisa assim: vou começar a fazer o verão, então vou inventar uma coisa agora. Todas as coleções eu venho depurando ao longo do tempo. Já tem uns cinco anos que eu venho pensando na Zuzu Angel enquanto coleção. Agora, enquanto admiração, desde que eu era adolescente, nem pensava em ser estilista. Na época das Diretas Já, lia todos os livros sobre ditadura, fiquei impressionado com a história dela, tinha aquela coisa do Chico Buarque parar para fazer música para a estilista, e eu falava, poxa, que estilista é essa, eu quero saber mais. Com os judeus também foi a mesma coisa. Quando eu fui morar em Nova York, em 91, foi a primeira vez que eu vi um judeu ortodoxo. Em São Paulo, tem muitos, mas em Belo Horizonte não. Então, não acredito nessa coisa de inspiração. Acredito mais é no olhar. Você já tem um olhar para certas coisas, certos pontos. Se você for estudar mesmo as minhas coleções, na verdade, é uma longa história, é uma coleção única. É como se eu falasse da mesma coisa usando outras palavras. Então, quando falam assim: ah, o trabalho dele é supermineiro. Tá, eu até pego como elogio quando você, que é de Londrina, vem e me fala. Mas eu não gosto dessa bandeira, porque eu acho que a gente vive um momento, no mundo, de talentos individuais, de um olhar individual. Então eu não quero essa coisa de Belo Horizonte, que tem orgulho porque o Inácio nasceu aqui e a Clements Ribeiro faz sucesso na Europa. Isso é mérito dele, não tem nada a ver com moda mineira.
Folha da Sexta – É verdade que os judeus realmente compraram a sua última coleção de inverno?
Ronaldo – Foi muito engraçado porque as pessoas falavam assim: você está mexendo com uma coisa muito complicada, porque está falando em holocausto e tal. Falei assim, gente, mas eu estou falando de uma história de amor, e toda a história de amor tem que ser passional e visceral. Sabe, a relação com a roupa é isso. Eu sabia do risco que eu estava correndo. No dia seguinte, recebi convite para apresentar o desfile em colégio judaico, dar palestras em associações judaicas, e eu disse: o que eu sei, o que eu estudei, foi para fazer a coleção, eu não sou judeu. A comunidade judaica de Nova York comprou muita roupa, desde as peças que tem os nomes até as que têm o sangue. E eu pensei, gente, o recado foi dado.
Folha da Sexta – Você tem planos de ampliar a sua atual estrutura de produção?
Ronaldo – Na casa (onde funciona o showroom), eu tenho a loja na parte de baixo, meu escritório em cima, além do financeiro, da modelista e da expedição. Não preciso mais do que isso. E tem um outro núcleo da produção, que é em um bairro mais afastado. O cuidado que eu tenho é de segurar o meu pé e o tamanho que eu quero ter. Morro de medo da produção em escala muito grande e de diluir demais esse conceito do design da roupa. Hoje eu produzo de quatro a cinco mil peças por estação. Parece que essa coleção vai aumentar, de 10 a 15 mil. Tenho 20 pessoas trabalhando comigo. E tenho as costureiras que já trabalharam comigo e montaram facções em casa.
Folha da Sexta – Como você vê as pessoas que usam a sua roupa, você tem uma imagem disso?
Ronaldo – Isso é muito curioso, porque é uma pergunta difícil de qualquer estilista responder, principalmente no mercado em que gente vive. Mas eu diria que sempre procurei estimular esse olhar diverso. E a história da loja no escritório, para mim, foi a melhor coisa, acho que todo o estilista deveria passar por essa experiência. Às vezes, eu desço, tem senhoras de 70 anos, crianças, pré-adolescentes, tive até que colocar PP na coleção. Então, eu tenho hoje um cliente que tem várias caras. Evidentemente, tem sempre aquelas vítimas da moda, mas os meus vendedores mesmo costumam dizer que são poucas comparadas com pessoas que, ou se sentiram tocadas ou ficaram surpresas com a forma de ver, de falar de uma coisa que elas sempre tiveram medo de errar, que é a moda.

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