O elixir que veio do Oriente
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quinta-feira, 09 de setembro de 2004
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Já se sabe que saúde e alimentação estão intrinsecamente ligadas. A idéia de que comida é mesmo um santo remédio vem sendo difundida e assimilada com voracidade nos últimos tempos. Alimentos passaram a ser classificados por suas funções especiais na prevenção e tratamento dos mais diversos males. E a escolha do cardápio pelo menos entre os mais conscientes já não se pauta apenas em sabores e gostos pessoais. É neste contexto que o chá verde, velho conhecido dos orientais, chega à mesa dos brasileiros.
Diversas pesquisas têm provado os benefícios desse chá, originário da planta Camellia sinensis. Tudo por conta dos flavonóides e polifenóis, substâncias antioxidantes que ajudam a neutralizar os radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento celular precoce. Estudos também indicam que o chá verde ajuda a diminuir as taxas de colesterol e ativa o sistema imunológico, aumentando a proteção natural contra as infecções, inclusive contra a gripe.
A Sociedade Brasileira de Médicos Antroposóficos vai além e defende que o consumo frequente do produto ajuda a prevenir alguns tipos de câncer, artrose, aterosclerose e outras doenças degenerativas. As virtudes desse chá na prevenção do câncer derivam dos bioflavonóides e catequinas, substâncias bloqueadoras das alterações celulares que dão origem aos tumores.Para alguns pesquisadores, o hábito de beber chá (ao invés de café) é um dos fatores responsáveis pelo menor índice de infarto em países do Oriente.
Prevenção Mas os benefícios não param por aí: dados de um estudo realizado na Suíça indicam que o chá verde acelera o metabolismo e ajuda a queimar gordura corporal. Ao acompanhar três grupos que seguiram a mesma dieta, os pesquisadores concluíram que as pessoas que tomaram chá verde tiveram aumento de 5% na queima de calorias em relação aos outros dois grupos pesquisados.
Outro estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition demonstrou que, por conta das altas concentrações de antioxidantes como catequina, polifenóis e cafeína, o extrato de chá verde pode aumentar a utilização de energia acima dos efeitos da cafeína pura. Mas a nutricionista Elaine Cristina de Mello avisa que ainda não existe nada de concreto sobre o poder emagrecedor do chá verde. ''O que existe é a indicação de que é benéfico para a saúde por causa dos efeitos antioxidante e vasodilatador: ele aumenta o calibre dos vasos sanguíneos e a irrigação dos tecidos, melhorando a circulação'', esclarece.
De acordo com a nutricionista, por causa dessas propriedades muitas doenças podem ser prevenidas, inclusive as degenerativas. Ela informa ainda que esses mesmos benefícios podem ser encontrados na uva, no vinho tinto, no chocolate meio amargo e nas oleaginosas, como castanhas e nozes. ''É que o chá verde é a vedete do momento'', justifica. Elaine faz um alerta às pessoas com problemas gástricos: a ingestão desse chá pode trazer problemas por causa da alta concentração de cafeína.
O médico Paulo Sakurai também é cauteloso ao falar sobre o assunto. Ele não acredita nas propriedades curativas do chá verde, mas, sim, nas preventivas. Os benefícios seriam consequência do consumo contínuo, ao longo da vida. ''Não são um ou dois anos de uso que vão resolver. Tem que ser um hábito'', pondera. Acostumado a tomar chá verde desde criança, o médico sempre recomenda o produto a seus pacientes. ''É calmante e digestivo'', define. A aceitação, segundo ele, tem sido grande. ''Todas as pessoas com conhecimento razoável, que querem ter saúde e vitalidade, estão buscando os alimentos funcionais'', relata.
Contra os efeitos do sol Mas há quem já está sentindo na pele, literalmente, o poder revigorante do chá verde. A indústria de cosméticos começou a enriquecer os produtos com os princípios regeneradores da Camellia sinensis, que prometem recuperar o viço dos cabelos, limpar e equilibrar peles oleosas e dissolver gorduras localizadas. A mais recente novidade é a proteção contra os efeitos nocivos do sol. ''Está sendo provado que, além dos polifenóis, a cafeína também tem um efeito benéfico contra os radicais livres'', informa a médica dermatologista Rosa Calland. Segundo ela, as pesquisas têm mostrado que as células danificadas pelo sol diminuem com a ingestão do chá verde, evitando a inflamação causada pelos raios solares.
O assunto foi um dos mais comentados no último congresso da Academia Americana de Dermatologia, por conta de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Nova Jersey. Eles descobriram que o chá, transformado em creme (com concentração de 2,5% a 10%), melhora o sistema de defesa das células da pele contra os raios ultravioleta tipo B, responsáveis pela vermelhidão. Ao reduzir a inflamação causada por essa radiação, o chá verde aumentaria a proteção contra o câncer de pele.
Segundo Rosa, não vai demorar a surgir no mercado uma enxurrada de produtos que associam, nas suas fórmulas, chá verde e filtro solar. ''No meio médico e farmacêutico, só se fala em proteção solar complementada com anti-radicais livres'', relata a dermatologista.
O segredo está na água O chá verde é da mesma família do chá preto: a Camellia sinensis. A diferença entre os dois está no grau de preparação das folhas. O verde é obtido na primeira fase do processo de desidratação. A etapa seguinte dá origem ao chamado ban-chá e, na sequência, com um grau muito maior de secagem e torrefação, é produzido o chá preto. O segredo da variação de sabor entre eles está exatamente no grau de desidratação, ou seja, quanto mais desidratada for a folha, mais amarga ela se torna.
É possível encontrar chá verde em supermercados e casas de produtos naturais. Há a versão em pacote com as folhas desidratadas e também em saquinhos prontos para infusão. E até restaurantes e casas de chá já o incluíram no cardápio, como o Jasmim, que o serve diariamente, das 15h30 à 20h30. O produto é solicitado com mais frequência pelos orientais.
A maior produtora em solo brasileiro é a Yamamotoyama, que usa tecnologia japonesa nos cultivos em São Miguel do Aranjo (SP) e Araucária, no Paraná. De acordo com a professora do departamento de Geo Ciências da UEL, Ruth Tsukamoto, 95% da produção é exportada para o Japão. No Brasil, o mercado ainda é pequeno. ''Aqui, só se toma chá quando se está doente'', observa ela, que viajou ao Japão para pesquisar sobre o assunto e concluir sua tese de doutorado.
A professora conta ter aprendido com os japoneses que a qualidade da água é o segredo para realçar o sabor do chá. ''Quanto mais pura, melhor''. Para prepará-lo, basta uma colher de sopa para um litro de água. As folhas não podem ser fervidas, devem somente ficar em infusão por dois a três minutos. A bebida pode ser tomada quente ou fria, de preferência sem açúcar ou adoçante, para que não perca suas propriedades funcionais. n


