'O dia em que abracei uma árvore'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
''Estava eu lá, sentada no meio da mata, olhando para um monte de troncos caídos no riacho quando me dei conta de que tudo o que eu precisava saber sobre mim mesma estava logo ali, na minha frente. Aquela bagunça, aquela imperfeição de árvores, que mesmo destruídas ainda geravam vida, aqueceu meu coração me dando coragem para mudar uma realidade que há muito estava parada.
Descobertas à parte, só o fato de deixar Londrina por um fim de semana e me aventurar com estranhos em meio à natureza já é motivo suficiente para comemorar. Depois de produzir uma matéria para o caderno Saúde da FOLHA, há mais ou menos um mês, resolvi me inspirar e fazer o tal curso que fala da linguagem dos sentidos e sua relação com os chacras.
Tudo o que eu sabia sobre o tema era apenas o que a Adriana, a terapeuta que daria o curso, me disse no dia da entrevista, mas a curiosidade falou mais alto e resolvi experimentar na prática o que há tempos vinha tomando conta da minha mente e do meu coração. Dois anos atrás tive o primeiro contato com as chamadas terapias alternativas: me interessei pelos mistérios dos florais e por um ano regulei minhas emoções com gotinhas de flores maceradas no rum.
Para alguém com autoestima comprometida, tentar se conhecer melhor é sempre uma boa opção e eu não imaginava que dois dias imersa na natureza seriam capazes de mudar 28 anos de desaprovações. Pode parecer piegas, mas deitar na grama, subir a blusa até o umbigo e deixar o sol da manhã penetrar no seu corpo realmente faz toda a diferença.
Pequenos exercícios de respiração e estímulos do olfato, tato, paladar e audição me levaram para um mundo nunca antes explorado: o das sensações extremas. Por alguns minutos me vi com os olhos vendados sendo conduzida por alguém que acabara de conhecer: Norma me levou para ouvir o rio correr pela mata e me fez tocar nos galhos das árvores. Foi estranho, mesmo sabendo que estávamos num campo aberto, só conseguia imaginar-me numa floresta densa, onde poderia esbarrar numa árvore a qualquer momento.
Horas mais tarde repetimos o exercício no meio da mata. Trocamos as duplas e dessa vez foi Lu quem me conduziu pela floresta verde e úmida da chuva recente. Pavor foi tudo o que consegui sentir quando ela me fez tocar cipós e troncos de árvores cobertos de musgo. Conscientemente eu sabia que ela não me levaria a lugares perigosos, mas o afastar repentino das mãos a cada toque me fez chorar: não tanto de medo, mas de raiva por me sentir incapaz de superar o pavor aparente. Esta foi a experiência mais marcante de todo o fim de semana e certamente a que mais contribuiu para o modo como eu encararia o resto do curso. E a mim mesma, daquele momento em diante.
Para tentar relaxar, Adriana nos fez ''conversar'' com uma árvore. Já sem a venda, foi mais fácil sentir o veludo do musgo entre os dedos. Me lembrei da Lu me abraçando quando chorei de medo no exercício anterior e senti que estava protegida, mesmo rodeada de elementos naturais desconhecidos.
Toquei a árvore com a testa e senti a energia que emanava dela. Foi mágico. Olhei para cima e percebi que seu tronco se dividia em dois e ali ganhei a resposta para a pergunta que havia feito pela manhã, quando a terapeuta nos fez refletir sobre o porquê da decisão de estar ali. O encontro com os troncos caídos no riacho se daria um dia depois e mal sabia eu que tudo estaria interligado.
Na tarde do sábado fiz minha primeira trilha e a palavra que melhor define o que senti ao subir e descer pequenos morros, atravessar o riacho gelado e me equilibrar por uma ponte feita de um fio de corda é superação. Algo muito diferente de solidão também tomou conta daquele momento já que todo mundo se ajudava o tempo todo. Ao deixar a mata, quase duas horas depois, a plenitude tomou conta e tudo o que eu queria era comemorar a iniciativa de ter me dado uma chance de me conhecer melhor.
No domingo de manhã, Adriana nos pediu para desenharmos a textura de algo que nos chamasse a atenção na estância. Escolhi lírios da paz e não sei porque razão os desenhei em todas as fases, desde o botão até a flor já quase morta. Durante a interpretação do desenho, cheguei a pensar que o negativismo havia tomado conta da minha mente novamente, mas aos olhos das companheiras e da terapeuta, aqueles traços mostravam que eu estava mesmo era em busca de vida. Aí veio mais choro e um abraço coletivo que fez toda a diferença. Se a Simone, mesmo tão introspectiva durante os dois dias inteiros, não estivesse ali naquele momento, a experiência não teria sido a mesma, com certeza.
Decidi compartilhar meus sentimentos numa reportagem porque percebi, entre as quatro mulheres com quem convivi por dois dias inteiros, que a humanidade tem muito mais de parecido entre si do que imagina. Nos bate-papos, dividimos ideias e sensações mesmo vivendo rotinas completamente diferentes e saimos, certamente, muito melhores e mais confiantes em nós mesmas e na capacidade de amar o próximo, incondicionalmente''.
Serviço - Mais informações sobre o curso A Linguagem dos Sentidos, os Chacras e a Natureza com a terapeuta Adriana Vitorino no telefone (43) 3341-4949.


