No shopping, nas ruas, na tevê. Tudo ao redor parece conspirar contra os solteiros. É como se de repente só existissem casais apaixonados e os solitários pertencessem a uma espécie de submundo – o dos ‘‘sem-ninguém’’. Para quem não está contente com a ‘‘liberdade’’, a coisa é ainda pior. Ao espalhar corações, imagens de beijos apaixonados e declarações de amor por todos os lados, o mercado se torna uma espécie de carrasco dos pobres coitados, como se denunciasse a total incapacidade de arrumarem um par.
A cena é um tanto quanto dramática – muitos hão de dizer. Afinal, quem é que já não passou, em toda a sua vida, pelo menos um Dia dos Namorados sozinho? Mas é exatamente como se sente a personagem de ‘‘O Diário de Bridget Jones’’, de Helen Fielding, livro que chegou ao topo das principais listas dos mais vendidos em todo o mundo (assim como a sua continuação, ‘‘Bridget Jones, no Limite da Razão’’) e já virou filme. Ainda sem data para estrear no Brasil, as desventuras românticas da inglesa de 30 e poucos anos, obcecada por dietas e livros de auto-ajuda, conquistou a terceira maior bilheteria nos Estados Unidos na semana de estréia.
Castigo Interpretada por Renée Zellweger (que contracenou com Tom Cruise em ‘‘Jerry Maguire’’), Bridget cai de amores e vive um affair com o seu chefe meio canalha Daniel (Hugh Grant) e depois descobre os encantos do (à primeira vista careta) advogado Mark Darcy (Colin Firth). Uma história banal e até previsível no dia-a-dia das mulheres modernas, solteiras e independentes – que querem apenas uma relação sólida com um adulto responsável – não fosse pelo fato de que toda a situação é mostrada sob o prisma da moça, que é bem atrapalhada e tem mania de anotar as suas neuras em um diário, incluindo a quantidade de cigarros fumados, as doses de bebida alcoólica ingeridas e os segundos que ela está sem fazer sexo.
Como toda solteira que se preze, Bridget tem alguns amigos bacanas, com quem divide as encanações e a solidão, e outros nem tanto, a quem ela chama de ‘‘casados convencidos’’, pois não perdem a oportunidade de perguntar sobre a sua vida amorosa e de lembrar como a situação vai ficando mais difícil para quem já passou dos 30 anos. Para agravar as coisas, há ainda as cobranças da família e a idéia de que lhe restam poucos anos de fertilidade. Pronto, o drama está feito. E o Dia dos Namorados parece um castigo.
‘‘Por quê? Por que o mundo faz com que as pessoas sem romance se sintam idiotas quando todos sabem que romances não funcionam? Basta ver a Família Real. Ou papai e mamãe’’, questiona a personagem. Mas, ao mesmo tempo em que deseja ser indiferente à data, Bridget se enche de esperança com a expectativa de receber flores, bombons ou um cartão, quem sabe de um admirador secreto. No dia D, frustrada e no metrô a caminho do trabalho, ela constata, em tom de auto-piedade: ‘‘Dava para ver quem tinha recebido cartão e quem não tinha. As pessoas se entreolhavam, tentando sorrir, ou afastavam o olhar’’, escreve.
Caindo na real A data não chega a incomodar tanto na vida real. ‘‘A mídia fala bastante, a propaganda é muito forte. Mas me habituei a passar este dia sozinha’’, diz a arquiteta Maria Augusta Ramos Amorim, 35 anos. No último relacionamento, terminado há seis meses, não foi diferente, pois o namorado era americano e as datas são comemoradas em dias distintos nos dois países. Para ela, ficar solteira tem dois lados. ‘‘A gente tem mais liberdade para fazer as coisas, mas também sente falta de companhia. É uma coisa natural do ser humano querer dividir as coisas’’, observa.
Ela lembra que, quando era mais nova, costumava ter namoros longos e sérios. Depois, passou a aproveitar as benesses de ser independente, pagar as próprias contas e não ter que dar satisfações para ninguém. ‘‘Comecei a curtir mais a vida e a viajar bastante’’, conta. Apesar de já ter passado por uma experiência chata em um Dia dos Namorados, quando saiu com uma amiga e voltou rapidamente para casa porque só encontrou casais no local, Maria Augusta garante que não vai ficar deprimida na próxima terça-feira. ‘‘Tenho tanto trabalho a fazer que nem vai dar tempo de pensar nisso’’, diz.
O dia 12 de junho também não assusta a arquiteta Lílian Simões, 34 anos, solteira há dois anos. Mesmo porque a data tem outro significado para ela. ‘‘É aniversário da minha sobrinha e a minha família sempre se reuniu para comemorar’’, explica. A idéia de estar sozinha nos outros 364 dias do ano, entretanto, não lhe agrada nem um pouco. ‘‘Não sou uma solteira bem resolvida. Curto muito ter alguém’’, confessa. Mas encontrar uma pessoa legal para ter um relacionamento saudável – sonho de 10 em cada 10 mulheres – não é uma missão fácil nos dias de hoje. ‘‘Por isso, passo longos períodos sem ninguém’’, justifica.
Para Lílian, a idade acaba dificultando as coisas porque torna as pessoas mais críticas e precavidas, com medo de arriscar. Mas, ao contrário de Bridget, ela não acredita ser menos atraente porque já passou dos 30 anos. ‘‘É claro que noto as rugas que aparecem; isso me incomoda um pouco, mas nada que me deixe em pânico. Acho que estou superbem, me gosto mais do que quando eu tinha 18 anos. Naquela idade, vivia em conflito, me comparando com as outras garotas. Hoje me aceito como sou e me sinto feliz comigo mesma’’, diz ela, fazendo valer a máxima ‘‘antes só do que mal acompanhada.’’
Serviço:
‘‘O Diário de Bridget Jones’’, de Helen Fielding, Editora , Livraria e Papelaria Life

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