Os holofotes do mundo da moda nacional estão redirecionando seu foco. Além de festejados modelitos, alguns estilistas andam criando em seus croquis projetos de cunho social. ''A moda para mim é comunicação, e nada mais apropriado do que usar esse meio para fazer alguma coisa por este País'', diz Oskar Metsavaht, criador da Osklen, badalada marca de sportswear.
Tratando-se de colocar a mão na massa, Oskar não dorme no ponto. Em parceria com a ONG Esplar e com a tecnologia da Embrapa, a sua grife subsidia a plantação de algodão orgânico numa comunidade do Ceará, comprando toda a colheita. ''A gente tem de investir em ações que preservem a natureza, já que esse tipo de agricultura não polui os lençóis freáticos (reservas de água subterrânea)'', afirma. ''Ao mesmo tempo, dá trabalho para a população.''
Junto com amigos, Oskar criou, há um ano, a ONG E-Brigade (www.e-brigade.org), que se propõe a combater a desinformação dos jovens, chamando-os para a educação, principalmente, a ambiental. No Xingu, a Osklen também ajuda a manter duas tribos, comprando peças exclusivas feitas pelos índios. Com tudo isso, Oskar foi convidado para ser embaixador da Unesco no País, dentro do projeto Empreendedores Amigos do Brasil.
Outra ação de peso internacional é desenvolvida, há quatro anos, por Carlos Miele, dono da M. Officer. Não é mais novidade, mas o trabalho que o estilista realiza na favela carioca da Rocinha brilha a cada ano. Nos desfiles da marca, é possível conferir a exuberância das peças criadas por artesãs, que, sob sua batuta, passaram a aliar alta-costura a técnicas próprias de confecção de fuxico, nozinho, crochê e frufru.
As mulheres da Rocinha também aprenderam a sistematizar a produção e a se organizar em cooperativa. Daí surgiu a Coopa-Roca, que pôde empregar várias delas, em sua maioria, mães solteiras. O entusiasmo por esse projeto é tanto que Miele doou um terreno na Rocinha, onde será construída nova sede da cooperativa.
Artesanato O objetivo do estilista Mário Queiroz de criar um elo entre as tendências na moda e o artesanato veio valorizar o trabalho dos artesãos do Cajueiro de Pirangi, uma comunidade de Natal. A convite do governo do Rio Grande do Norte, ele ministrou workshops na região. ''Há muitos talentos espalhados pelo Brasil, que precisam de suporte técnico e de atualização para atender à demanda de mercado'', observa Queiroz. ''Depois desse projeto, não pretendo parar mais.''
Um dos primeiros a dar um toque fashion ao tradicional artesanato brasileiro foi Walter Rodrigues. As rendeiras de Morro da Mariana, localizada na região norte do Piauí, vivenciaram uma ''revolução'', comandada pelo estilista. Acostumadas a trabalhar apenas com o algodão, ele apresentou a essas mulheres novos fios, como os de lycra e viscose, e muitas outras cores.
''Elas descobriram que suas rendas poderiam ser renovadas'', conta Rodrigues. ''É muito gratificante poder utilizar não só o meu talento, mas também toda a mídia que envolve a moda para divulgar uma atividade assim, que, além de perpetuar uma tradição, fornece trabalho, dinheiro e auto-estima para essa gente.''
Simples ações também beneficiam gente talentosa, mas esquecida na periferia de São Paulo. A estilista Clarice Borian, dona da marca Brazoo, foi atrás de costureiras para incentivá-las a resgatar muitos dos trabalhos manuais que haviam sido abandonados. ''Juntei um grupo para trabalhar nas coleções da Brazzo, dando toques manuais às roupas'', fala Clarice. ''Pelo menos, duas vezes por ano, fazemos uma oficina onde todas podem brincar, criar e desenvolver novas técnicas.'' Na fábrica que fica no Bom Retiro, no centro de São Paulo, funciona também o ateliê especial, onde portadores de doenças mentais, coordenados por uma terapeuta, aprendem pintura.
Camisas engajadas Em parceria com a Toddy , o jovem estilista Marcelo Sommer lançou mil camisetas, que serão vendidas em sua loja. O valor arrecadado será destinado, integralmente, à Fundação Gol de Letra, que educa 200 jovens da Vila Albertina, periferia da zona norte de São Paulo. ''Não acho que o que estou fazendo seja um grande feito, mas sim uma obrigação, uma vez que há problemas sociais graves no País'', avalia Sommer. ''É o momento de cada um fazer a sua parte.''
O poderoso da Forum, Tufi Duek, lançou com estardalhaço na mídia a campanha nacional A Camisa do Brasil, com apoio de Milu Villela, presidente do Faça Parte, Instituto Brasil Voluntário. Palavras como fé, esperança, respeito, honestidade e luta foram estampadas em camisetas, que foram postas à vendas em vários pontos do País. O lucro líquido será revertido totalmente para projetos sociais.
Alexandre Herchcovitch também aderiu à onda social, criando camisetas para arrecadar fundos para o Projeto Adote um Leito. A iniciativa ajudou o Hospital Santa Marcelina a saldar parte de seu déficit financeiro que, atualmente, está em torno de R$ 2,5 milhões por mês. Para quem não sabe, o hospital é uma entidade filantrópica que atende mais de cinco mil pessoas carentes por dia.
A marca Patachou fornece restos de tecidos para oficinas e projetos culturais, como a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais-APAE, Equipe de Abaeté-Projeto Marias da Terra, Instituição Cidade Ozanan e Colônia Santa Izabel. Tereza Santos, a estilista e criadora da marca, contrata os serviços de bordadeiras e artesãos de terceira idade como forma de valorização e apoio ao trabalho do idoso.
O estudante de moda João Paulo Porangaba não fez bonito apenas nas passarelas da última edição do Amni Hot Spot, evento ligado à São Paulo Fashion Week, dedicado aos novos talentos da área. Considerado revelação, o novo estilista estreou seu desfile com peças confeccionadas por costureiras do Moda na Comunidade, projeto do Senac que tem como meta levar informação de moda a costureiras de baixa renda.
''Fiquei surpreso com o trabalho delas: foram superprofissionais, cumpriram prazo de entrega e revelaram qualidade nos acabamentos'', conta Porangaba, que também é dono da nova marca J. Pig. ''As costureiras da periferia da zona norte de São Paulo estavam limitadas a consertos de roupas; depois dessa experiência, foram abertas novas possibilidades profissionais e isso é gratificante para ambas as partes.'' q

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