O casamento perfeito
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quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Márcio Oyama<br> Agência Estado 
Nas telas, diferenças sociais nunca são empecilhos para grandes romances. Fora da ficção, a coisa é bem diferente, dizem psicólogos. Na ficção, o amor não liga para dinheiro, nível de escolaridade, formação cultural. Namoro e casamento entre pessoas de diferentes classes sociais são sempre possíveis - e recorrentes na maioria das novelas e filmes.
Hollywood também não se cansa de levantar a bandeira do amor-vence-tudo em suas produções românticas. Julia Roberts deixou a fama e a fortuna de lado para se entregar à vida simples do livreiro Hugh Grant em 'Um Lugar Chamado Nothing Hill' - na vida real, a bilhardária atriz acabou nos braços de um cameraman. Já a camareira Jennifer Lopez se deu bem ao conquistar o endinheirado Ralph Fiennes no longa 'Encontro de Amor'.
Se as diferenças sociais são facilmente superadas pelos casais formados nas telas, fora delas, a realidade é bem diferente. Especialistas garantem: pares com grande discrepância financeira e cultural raramente ficam juntos por muito tempo. ''Pesquisas mostram que a grande maioria dos relacionamentos que dão certo é baseada no princípio da homogamia, ou seja, da igualdade'', diz o psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor de Relacionamento Amoroso da Faculdade de Psicologia da USP e autor do livro ''Mapa do Amor'' (Editora Gente, 320 págs.), que também trata da seleção de parceiros. ''A possibilidade de sucesso em um relacionamento entre pessoas muito diferentes existe, mas é a exceção. E a classe social acaba sendo um agravante, porque pressupõe um pool de variáveis. Não se trata apenas de dinheiro, mas de cultura, escolaridade, entre outras questões. A condição social resume uma série de características.''
Segundo Silva, para que dois mundos tão distintos se acertem, é preciso que haja em ambos aspectos que minimizem a diferença. ''Algo tem de compensar no parceiro a falta de afinidade, como a beleza, a personalidade.''
Um estudo feito pelo economista Luiz Guilherme Scorzafave, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP de Ribeirão Preto (SP), mostrou que, dentre 150 mil mulheres casadas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos anos de 1982 a 1997, a maioria tinha a mesma renda dos maridos - média de R$ 100 entre os casais mais pobres e de R$ 1,2 mil entre os mais ricos. Além disso, o levantamento revelou que, quanto mais abastado o parceiro, maior o nível de escolaridade da mulher - 2 anos e meio de estudo entre as mais pobres e 11 anos entre as mais ricas.
Se na vida real as chances de um casal formado por pessoas de situação social oposta prosperar são tão baixas, por que, então, alguns insistem em entrar nesta barca furada? De acordo com o psicólogo Thiago de Almeida, pesquisador do Centro de Estudos da Timidez e do Amor Romântico (Ceta) do Instituto de Psicologia da USP, há quem escolha - ainda que inconscientemente - seus parceiros pelo princípio da heterogamia (da diferença). ''A busca por um par segue critérios definidos. Para algumas pessoas, estes critérios são os da diferença'', explica. Almeida conta que já atendeu em seu consultório uma adolescente de classe média que só se sentia atraída por garotos mais pobres. ''Ela não se interessava por meninos com as mesmas características que as dela. Foi levada até mim porque namorava um garoto da favela. A mãe não aceitava.''
Ainda segundo o psicólogo, existem desigualdades que são bem-vindas, porque complementam o casal - uma mulher baixa que procura um homem mais alto ou uma jovem que procura alguém mais velho, por exemplo. No entanto, quando as características são muito discrepantes - um homem alto demais ou velho demais -, a coisa desanda mesmo. ''Nestes casos, não pode existir nada além de atrito, impaciência e discórdia.''


