O bê-á-bá da passarela
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quinta-feira, 12 de setembro de 2002
Rosângela Vale<br> Reportagem Local 
A consolidação do calendário de lançamentos brasileiros, representada pela São Paulo Fashion Week, trouxe ao interior do País o desejo (e a necessidade) de fazer desfiles. Em Londrina, nos últimos anos, cada vez mais lojistas e estilistas vêm realizando apresentações das coleções ao público e transformando setembro época de chegada do verão nas lojas no mês mais concorrido em matéria de agito fashion. Mas, como cultura de moda não é algo que se adquire em poucos anos, alguns equívocos facilmente evitáveis vêm sendo cometidos constantemente.
Entre etiquetas penduradas nas roupas (deplorável) e ''não modelos'' na passarela (por quê?!), o mais gritante deles é, sem dúvida, o interminável tempo de duração dos desfiles: alguns chegam a ultrapassar a absurda marca de uma hora. Na ânsia de querer mostrar tudo o que está nas araras para despertar o desejo da compra, o lojista/estilista (que normalmente organiza tudo sozinho, sem a ajuda de um profissional da área) acaba fazendo justamente o contrário. Bocejos, distração e cansaço são as principais reações do público depois dos primeiros 30 minutos de vaivém na passarela.
''O tempo ideal de desfile é 15 minutos. Com isso, dá perfeitamente para passar o recado. O público tem que ficar com sabor de quero mais'', ensina o diretor Ruy Furtado, responsável pelos desfiles da Forum, Triton, Rosa Chá, Vide Bula e Renato Loureiro na última edição da São Paulo Fashion Week. De acordo com ele, o objetivo deve ser vender a idéia da coleção e não as peças. Para isso, dois itens são obrigatórios na opinião do diretor: stylist e iluminação, que além de ajudar a traduzir o conceito da coleção, possibilita boas fotos.
O stylist, denominação mais moderna para produtor, é quem organiza o desfile. O seu ''olhar'' sobre a coleção determina a maneira de apresentá-la. ''Ele vai pincelar as coisas mais fortes em termos de conceito e montar os looks de uma maneira menos óbvia, buscando uma imagem nova'', explica a stylist Flávia Pommianosky, que fez o último desfile da Blue Man no Fashion Rio.
Ansiedade Ainda que a intenção do desfile seja declaradamente comercial, é preciso ficar de olho no relógio. ''É possível mostrar uma quantidade razoável de modelagens, cores e estampas e, paralelo à isso, passar um conceito, através de uma edição não monótona em, no máximo, 25 minutos. Não há necessidade de apresentar o mesmo vestido em todas as cores. Fica repetitivo, cansativo e não emociona o público'', avisa.
Desfiles muito técnicos, que mostram todos os looks da coleção, devem ser feitos, segundo Flávia, em show-rooms, com o objetivo específico de venda. ''Para um evento aberto a convidados, imprensa e formadores de opinião, tem que mostrar conceito. Não pode ser comercial porque não há glamour. Desfile, no fundo, é show'', ensina a stylist.
Ninguém melhor do que o estilista Lino Villaventura sabe disso. ''Desfile não pode ser longo; deve ser impactante'', diz ele, com a competência de quem, ano após ano, consegue manter a mesma reação no público depois das suas apresentações: deslumbre e encantamento. Consenso entre público e crítica, ele é um exemplo de que quantidade não tem realmente nada a ver com qualidade na passarela. Seu último desfile teve 18 minutos de duração.
''A ansiedade atrapalha bastante. Quando prepara uma coleção, o estilista quer mostrar tudo, acontece comigo. Mas, conforme o trabalho vai amadurecendo, a gente vai entendendo que ouvir outros profissionais é fundamental'', diz Lino, frisando a importância da relação de confiança entre ele e seu stylist, Jackson Araújo, com quem trabalha há 14 anos. Ele compreende meu trabalho, consegue interpretá-lo. Sou teimoso, mas quando não o escuto costumo me arrepender'', conta. O estilista lembra que, antigamente, era mais complicado editar a coleção, mas atualmente já consegue fazer isso no momento da criação. ''Apenas 10% do que faço, hoje, fica fora da passarela'', contabiliza.
Celebridades Para fazer um desfile conciso e, portanto, interessante do ponto de vista do expectador, algumas regras devem ser seguidas. ''É fundamental ter uma equipe de base formada por DJs, cabeleireiros, maquiadores e iluminador trabalhando em conjunto. Só assim se consegue traduzir com competência a cara da mulher (ou homem) da coleção. ''A partir daí é que se faz a escolha do biotipo das modelos e se define a forma de andar na passarela'', diz Flávia.
A stylist esclarece que, mesmo ao escolher pessoas para desfilar com as quais a clientela da marca se identifica, é necessário que elas sejam ''bonitas, saibam andar e tenham atitude. O público quer ver isso'', garante. Como é bem difícil encontrar essas qualidades em meros mortais, contratar profissionais é o melhor caminho.
Um aviso para quem aprecia convidar celebridades para desfilar. ''Modelos se moldam a qualquer estilo, o que não acontece com personalidades. Outro problema é que elas serão o foco, e não a roupa'', adverte Flávia. Se a idéia de trazer famosos é chamar a atenção da mídia, aqui vai um recado: quando o assunto é moda (e não badalação) há formas mais eficientes de fazer isso. Apresentar trabalhos de qualidade é um bom exemplo. Outro é usar o cachê que seria pago à mocinha da novela para cobrir os custos dos profissionais do circuito fashion.
Esta vem sendo a orientação da gerente de marketing do Shopping Catuaí Maria Aparecida de Oliveira, aos lojistas que vão apresentar suas coleções na edição de verão do Catuaí Collection, semana que vem. ''Se for para trazer alguém de fora, que seja modelo'', diz ela, adiantando a presença da top Isabela Fiorentino. n
A lição do Catuaí Collection
A primeira edição do Catuaí Collection foi um exemplo de profissionalismo. Apresentados em três dias, os desfiles foram divididos em dois blocos de 40 minutos, com cinco lojas cada um, o que dava uma média de oito minutos por loja. ''O tempo é um inimigo, porque distrai e cansa. A gente não está ali para mostrar a loja toda, mas um conceito, uma tendência que vai predominar. Isso não quer dizer que não seja possível reunir os convidados por mais tempo, mas o ideal é que seja numa recepção após o desfile, por exemplo'', sugere Maria Aparecida de Oliveira.
Ela conta que, no início, foi difícil convencer os lojistas a aceitarem esse tempo de desfile, mas as respostas de vendas acabaram mudando conceitos ultrapassados. ''O formato do evento, com intervalos, permitiu que as pessoas fossem às lojas conferir o que viram na passarela. Na próxima edição, de 17 a 20 de setembro, elas ficarão abertas até a meia-noite'', informa a gerente de marketing.
Outro ponto importante, segundo ela, é a questão do atraso. ''É um desrespeito com os convidados e profissionais (modelos, jornalistas e fotógrafos) que estão ali trabalhando. No primeiro dia de desfiles, as salas estavam praticamente vazias no horário marcado para o início das apresentações, mas optamos por começar na hora. Foi interessante porque muitos vips chegaram 40 minutos depois e o desfile já estava terminando. No segundo dia, todo mundo chegou na hora. E, no último, as pessoas estavam lá com 30 minutos de antecedência. Regras têm que ser rígidas para que as coisas funcionem'', afirma.
O estresse da primeira fila ''mesmo sem pulserinhas vips, as pessoas se sentavam e se recusavam a sair se dizendo amigas de fulano'' Maria Aparecida espera resolver numerando os convites. ''Acho que também é nossa função mudar esses maus hábitos, com muita elegância e delicadeza, é claro''. (R.V.)


