O bê-á-bá da emoção
O bê-á-bá
da emoção
Alunos com rendimento escolar ruim e problemas de relacionamento com outros colegas podem estar com a auto-estima baixa
Francelino França
Arquivo FolhaA escola precisa ampliar sua visão de educação. Não pode mais educar só através de conteúdos curriculares, é preciso passar também conhecimentos ligados às pessoas, afirma Silvia CruciolNo dia-a-dia das salas de aula, muitos impasses surgem com alunos com baixo rendimento escolar, desinteresse generalizado e dificuldades no relacionamento interpessoal. Mesmo com aulas de reforço, muitas vezes, as notas continuam baixas. Uma vertente psicopedagógica, que está tomando impulso, trabalha agora com problemas de fundo emocional, que impedem um desenvolvimento escolar satisfatório.
O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de São Paulo levou a algumas escolas, em 1997, o Projeto Crescendo. Esta proposta dá ênfase a temas como auto-estima, formação de valores éticos e de conduta, habilidade e destreza para lidar com a vida. É considerado um projeto inovador para as escolas paulistanas.
Em Londrina, algumas escolas, isoladamente, vem desenvolvendo projetos cuja proposta principal é a recuperação da auto-estima. Um aluno com a auto-estima baixa dificilmente levará a contento sua vida escolar. Afinal, é na escola que se refletem muitos dos problemas emocionais das crianças.
Desde 1991, a Escola Vagalume investe na área emocional através do projeto Comunicar e Crescer. Segundo a diretora Silvia Cruciol, esse trabalho é destinado aos alunos que queiram se desenvolver intelectual e emocionalmente. Nesse projeto, as aulas são aos sábados, duas vezes por mês, e abertas aos interessados. Agora, uma nova opção está sendo direcionada para todos os alunos da escola, uma vez por semana, integrando a disciplina Educação na Fé.
Fracasso escolar Segundo Silvia Cruciol, os alunos tinham baixo rendimento escolar, mesmo com o suporte das aulas de reforço. Percebeu-se que a questão estava no emocional do aluno. Auto-estima, autoconfiança e atenção resultavam em fracasso escolar, pouca produção e falta de disciplina. A sistemática usada se vale de brincadeiras e discussões, levando a criança a refletir sobre seu relacionamento com a família, os amigos, a escola e o mundo.
Mário CésarTrabalhando as dificuldades emocionais dos alunos do 1º grau, a psicóloga Celi Lovato obteve bons resultados. Neste ano, ela pretende estender o projeto para o 2º grau
A dinâmica de grupo propicia à criança a oportunidade de falar o que sente. De acordo com a equipe pedagógica da Escola Vagalume, a dinâmica melhora o relacionamento intrapessoal e interpessoal. Solidariedade, regras de convivência, autoconfiança e sexualidade são vivenciadas através dessas dinâmicas de grupo e debates. A brincadeira leva a pensar, afirma Silvia Cruciol. O objetivo do Comunicar e Crescer é valorizar emoções, autoconhecimento, automotivação, e aprimorar a comunicação, a ética social e a empatia. É a chamada alfabetização emocional. O que a criança ganha com esse aprendizado é uma reflexão maior sobre suas atitudes.
A auto-estima baixa pode ter várias causas determinantes. A valorização do errado, quando o filho nunca recebe elogio, quando tudo o que faz não passa de obrigação. Eu recebo atenção quando sou ruim, é o pensamento da criança. Um dos casos solucionados pelo projeto Comunicar e Crescer foi o de um aluno que repetiu três vezes a 1ª série. Segundo a professora, ele não conseguia estruturar o pensamento, reter o conteúdo e transpor para o papel. Por meio desses encontros e o contato com outros alunos, ele pôde superar o problema.
A escola precisa ampliar sua visão de educação. Não pode mais educar só através de conteúdos curriculares, é preciso passar também conhecimentos ligados às pessoas, considera a diretora. Segundo Silvia, a escola não pode substituir a família, mas pode ajudar a crescer e colaborar em alguns pontos. A família passa por uma reestruturação. Não adianta só jogar pedra, avalia.
Dinâmica No Colégio Maxi, até o ano passado, a psicóloga Celi Lovato trabalhava com alunos de 5ª a 8ª séries num projeto voltado para superar as dificuldades emocionais, dentre elas a auto-estima. O trabalho também é estruturado em dinâmicas de grupo. Um dos exercícios proposto por Celi Lovato solicitava aos alunos enumerarem suas qualidades e defeitos e também as qualidades que gostariam de ter. Após essa fase, abriam para discussão em grupo. No bate-papo, muitos cruzaram dados e ajudavam uns aos outros a descobrir suas qualidades e defeitos.
A psicóloga selecionou os alunos cruzando os seguintes dados: baixo desempenho, registro de problemas emocionais ou disciplinares. Os resultados apareceram no terceiro bimestre, garante a psicóloga. O aluno traz de casa sequelas emocionais. Há casos terapêuticos que são encaminhados a psicopedagoga, diz. Ela enumera alguns fatores que desencadeiam a auto-estima rebaixada como o relacionamento tumultuado entre os pais, a mudança de residência, crianças que ficam muito tempo sozinhas em apartamentos e, principalmente, crianças educadas sem limites. Quando os pais são solicitados a tomar conhecimento do caso, eles se sentem muito culpados, meio confusos, prossegue.
Ela relata o caso de um estudante de 8ª série que se comportava agressivamente, não se enquadrava no grupo, trabalhava a liderança de forma negativa. No final do projeto, ele se correspondeu com a psicóloga dizendo que aprendeu a não ser tão estúpido e não ficar guardando raiva. Neste ano letivo, o projeto vai ser estendido para o segundo grau do colégio. O aluno de cursinho, principalmente, se sente incapaz depois de alguma reprovação. O emocional tem peso grande no resultado da aprovação, avalia a psicóloga.
Para saber mais leia:
Alfabetização Emocional, Celso Antunes, Editora Terra
Estruturas da Mente - a Teoria das Inteligências Múltiplas, Howard Gardner, Editora Artes Médicas
Inteligência Emocional - O Que é Ser Inteligente, Daniel Goleman, Editora Objetiva





